The Who no São Paulo Trip

November 30, 2017

 “Grandes realizações sempre acontecem em uma estrutura de grandes expectativas”. Com essa enfática frase, o autor americano Jack Kinder exemplificava conjecturas e probabilidades no mercado de negócios e vendas. 
 

Contextualizando com o mercado de shows, determinados espetáculos proporcionam cenários repletos de suposições, hipóteses, sentimentos e proezas. Na primeira (e possivelmente única) passagem pelo Brasil, a banda inglesa The Who realizou os sonhos de milhares de fãs, ao promover uma apresentação irretocável e memorável – sonora e visualmente. Nessa conversa, aspectos desse acontecimento serão abordados, sob enfoque na iluminação cênica, mas também com análise para um feito único, apreciado e magnificamente iluminado.
Pela primeira vez na América Latina, e com uma estreia apoteótica em solo brasileiro, a banda inglesa The Who iniciou uma série de três apresentações no Brasil, sendo a primeira como headliner do singular festival São Paulo Trip, com apresentação realizada no dia 21 de setembro, no estádio Allianz Parque. Além desta, outra como co-headliner no Rock in Rio e uma última apresentação em Porto Alegre, com a banda também inglesa Def Leppard. No festival realizado na capital paulista, Alter Bridge e The Cult foram as bandas que também se apresentaram nesse dia histórico. 

 

 Para muitos, uma espera de ‘uma vida inteira’. Afinal, a banda surgiu em 1964, ainda com os nomes The Detours, depois The High Numbers e posteriormente The Who, esta já com uma formação que se tornaria uma das mais edificantes da história do rock’n’roll: Roger Daltrey nos vocais, harmônica, percussão e guitarra/violões; Pete Townshend, nas guitarras, teclados e vocais; John Entwistle, baixo, vocais, teclados e sopros (falecido em 2002) e Keith Moon, bateria (falecido em 1978). Além de influenciar incontáveis músicos nos últimos cinquenta anos, The Who foi responsável por álbuns e performances arrebatadoras e espetaculares, além de serem precursores da intitulada Rock Opera, com discos conceituais como Tommy (1969) e Quadrophenia (1973).

 

 


Para a atual turnê, The Who Tour 2017, além de Daltrey e Townshend, a banda é formada por John Corey (teclados e backing vocals), Loren Gold (teclados, backing vocals e berimbau de boca), Jon Button (baixo), Frank Simes (teclados, backing vocals), Zak Starkey (filho de Ringo Starr e afilhado de Keith Moon, na bateria) e Simon Townshend (irmão de Pete, na guitarra, violões e backing vocals).


O projeto e direção de iluminação cênica dessa e das últimas turnês da banda inglesa The Who estiveram sob a condução do aclamado Lithing Designer irlandês Tom Kenny, conhecido como o ‘Lighting Designer das estrelas’, referência à carreira admirável, desde a década de 1980, marcada pelos trabalhos com artistas como David Byrne, Eric Clapton, George Harrison, David Bowie (com destaque para a Reality Tour), AC/DC, Robert Plant e Jimmy Page, Shakira, Destiny’s Child, Ozzy Osbourne, Jennifer Lopez, James Taylor, Elvis Costello, entre outros artistas, eventos, além de projetos especiais para vídeos e programas de televisão. Entretanto, para a etapa sul-americana da turnê, a iluminação cênica foi conduzida pelo Lighting Designer Jim Mustapha, que trabalha com a banda desde 2012, e com Daltrey desde 2010.

 

 

Como resultados, uma celebração inesquecível e grandiosa. Desde a canção de abertura, I Can’t Explain (lançada como single, em 1965), momentos únicos, traduzidos em uma sonoridade impecavelmente qualificada e lembranças dos primórdios da banda, projetados em imagens, animações e IMAG.


O show poderia ser, musicalmente e visualmente, dividido em quatro partes. Na primeira, uma compilação de hits e destaques de praticamente todos os álbuns da banda. Além da abertura, uma sequência com The Seeker (single, 1970), Who Are You (do álbum Who Are You, 1978), The Kids Are Alright (My Generation, 1965), I Can See for Miles (The Who Sell Out, 1967), My Generation (My Generation, 1965), Bargain e Behind Blue Eyes (Who’s Next, 1970), Join Together (single, 1972), You Better You Bet (Face Dances, 1981), com ênfase na história cronológica da banda – por sinal, esse é um dos conceitos da turnê, demonstrado pelas imagens, animações e pelas escolhas de iluminação, que se expandem com a evolução cronológica das canções. A propósito, a predominância de cores primárias, principalmente o azul (com as análogas e secundárias), e vermelho, reforçam a marca da banda (nessas cores) e o caráter dominante desses elementos.

 

 Na segunda parte, três canções do álbum conceitual Quadrophenia, de 1973: I’m One, The Rock e Love, Reign O’er Me, direcionadas aos fãs, intensas e multifacetadas, repletas de referências – inclusive na iluminação cênica. Esta, especificamente, restringiu-se de maneira minimalista, com hegemonia de fachos brancos, que se alternavam em dinâmica e velocidade. Na segunda canção dessa sequência, especificamente, o auge do show. Uma cronologia de imagens projetava fatos e acontecimentos, políticos, culturais e relacionados com a história da banda, em um intrigante sincronismo, com transições do preto-e-branco para technicolor, nas fotografias e nas luzes. Para finalizar essa segunda parte, Eminence Front (It’s Hard, 1982).

Como curiosidade, e regra elementar adotada para os projetos de iluminação cênica, os efeitos e princípios aplicados não utilizam Haze (fumaça) para evidenciar os fachos luminosos produzidos pelos instrumentos de iluminação. Essa escolha se torna evidente para a preservação e zelo com a voz de Roger Daltrey (no início do show, além de uma animação que destaca pontos e curiosidades da trajetória da banda, havia mensagem solicitando interrupção do consumo de cigarros durante o show). Mesmo com isso, em função das partículas em suspensão ainda presentes no palco (pelas condições do espaço/clima e das bandas anteriores), os fachos ficaram bem definidos, em praticamente todo o show.

 

Na terceira parte, quatro canções de outro álbum conceitual: Tommy, de 1969. Em uma sucessão de memoráveis faixas daquele emblemático disco, Amazing Journey, Sparks, Pinball Wizard e See Me, Feel Me. Em um crescendo apoteótico, luzes estáticas e esparsas, com um visual retrô e referências evidentes aos espetáculos e festivais da década de 1960 se sucederam em evoluções e intervenções provocativas e instigantes.

 

Na última parte, duas das mais importantes canções da banda, ambas do célebre álbum Who’s Next (1971): Baba O’Riley e Won’t Get Fooled Again. Nessas, moving lights simulavam lasers, originalmente utilizados pela banda na segunda metade da década de 1970, com fachos esverdeados na primeira e azuis intensos na segunda, em movimentos hipnóticos e empolgantes. Programado para a execução de vinte canções, houve ainda um inesperado bis – presenteado pela banda com mais duas canções: 5:15 (de Quadrophenia, 1973) e Substitute (single, 1966). 
No encerramento da apresentação, e do bis, não restavam mais dúvidas de que aquele havia sido um show incomparável. Se a história do rock’n’roll necessita de referências essenciais para a melhor compreensão da evolução e desenvolvimento musical e cultural, The Who se posiciona entre as mais emblemáticas bandas a oferecer alguns dos mais marcantes modelos de atitude, versatilidade e performance em palco. Para a plateia que teve o privilégio de presenciar esse ou outro show no Brasil, muitas emoções em uma oportunidade singular, aguardada por décadas, consumada em uma apresentação formidável, iluminada com sofisticação, precisão e primor. E na realização desse show único, todas as expectativas foram superadas com maestria e vigor.

 

 
Abraços e até a próxima conversa!

 

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