Macca does it good

 

 

Paul McCartney no Mineirão. Fico aguçando a vista para melhorar a nitidez daquele palco longínquo (com todo o respeito aos meus caros anfitriões: às vezes esse negócio de área VIP pode ser um tiro no pé...) embora a visão dos telões seja mais precisa, porque lá está um Beatle. Um Beatle que já criou há tempos sua própria persona, mas ainda assim um Beatle.

 

Fico então imaginando o peso de ser eternamente Beatle, e penso que o preço a ser pago é alto. Vagueando um pouco pelo esotérico – que não é meu território – imagino que se não fosse um Beatle, John provavelmente ainda estaria vivo. E George? O câncer de George não viria de uma perplexidade diante do terremoto que aconteceu à sua vida de menino de Liverpool? Seriam Paul e Ringo os únicos a ter a aura-mais-leve-que-o-ar necessária para tornar flutuantes as toneladas de vibrações estranhas pesando na pequena mochila que os deuses deram a cada um deles?
Paul ataca Hey Jude e milhares de vozes, isqueiros e celulares fazem do Mineirão o cenário surreal da Beatlemania. Existem milhares de explicações escritas sobre porque essa devoção religiosa - incondicional, atemporal e multietária - existe há mais de cinquenta anos e não dá sinais de ser vencida por gerações posteriores. Brian Epstein? George Martin? A liberação sexual e consequente revolução de costumes que varreu o Mundo a partir dos anos 60? Tudo isso tem e não tem a ver, porque aí você vai encontrar centenas de situações artísticas paralelas que deram em... nada. No caso dos nossos amados besouros, foi uma questão de talento, sensibilidade, certa dose de insanidade, imaginação, tudo isso junto e misturado numa fórmula pseudo-secreta, como a da Coca-Cola. Deu no que deu. Reproduza, se for capaz.

 

O impacto de um grupo que começou armando sons pós-adolescente em porões da Inglaterra e da Alemanha e transformou-se – em minha opinião, a partir de Revolver – na mainstream do pop mundial não deveria jamais ter sido subestimado. No entanto, o foi, até por mim mesmo, que achava She Loves You um rock animadinho que não levaria a nada. Mas, mesmo antes de Revolver, quando ouvi John cantando You’ve Got to Hide Your Love Away, parei e pensei: “epa, tem coisa aí!”. Porque meu filho de 11 anos, que começa agora a curtir Linkin’ Park, coisa e tal, para e ouve pra escutar também os Beatles, mesmo sem entender ainda direito as letras? Porque ontem, no Mineirão, garotos de todas as idades partiram para conferir se era válida sua curiosidade inicial sobre Paul a partir do que seus pais e avós falavam e cantavam? Talvez esse seja o significado de uma inexistente “eternidade”.
Agora é a vez de Let it Be. Oh, Paul, não faça isso comigo... Essa música me lembra tempos dolorosos, de rumos perdidos e caminhos desencontrados. Coragem. Vou cantá-la e tudo vai ficar bem, porque agora a vida é outra, os tempos mudaram e sou grato ao que ela me fez suportar.

 

One on One vai chegando ao fim, num bis que concentra várias músicas. Parece que o cara não quer parar de tocar, ele que – claro – já sente um pouco o peso dos bem curtidos 75, embora não o aparente jamais. Percebo que – como eu – Paul também não acredita ter sobrevivido a tudo o que destruiu uma boa parte da nossa geração, tipo, drogas, sexo irresponsável, baladas insanas, mulheres e homens malucos, carros excessivamente velozes, choques de realidade, sucessos, fracassos... Então resta a ele fazer da vida uma comemoração vitalícia, porque nada mais precisa provar ou ambicionar, embora ainda queira certamente sonhar e realizar, para beber com vontade o que resta da água da vida, transformada em um exclusivo espumante vintage!

 

Sigamos seu exemplo, porque Macca still does it good.

 

 

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