Alice Cooper: teatro de horror e beleza

February 16, 2018

A iluminação cênica dos shows e concertos musicais teve sua origem e inspiração na iluminação teatral, mas, desde a década de 1960, vários lighting designers criaram novas formas, métodos e técnicas para aqueles espetáculos, além de novas linguagens e identidades que distinguiram a maneira de iluminar dessas duas manifestações artísticas.

 

Por outro lado, determinados artistas buscaram justamente o contrário: apresentações que aproximassem as suas performances às conexões mais teatrais e circenses, com elementos de dramaturgia, figurinos, cenografia e incorporação de personagens e elementos próprios da interpretação e concepção teatral. Nesta conversa, esses aspectos serão explorados com ênfase na apresentação de Alice Cooper, em Curitiba, sendo uma mistura de elementos dos filmes de horror, mas com beleza e muita diversão.

 

O fim da década de 1960 foi marcado por diversas transformações, culturais, políticas e sociais, associadas à contracultura, com destaque para as artes e o surgimento de movimentos e estilos, nas diversas linguagens, tais como o teatro, o cinema e a música. Particularmente nessas três, novas estéticas e formas de comunicação inseriram recursos e tecnologias incomuns e inovadoras aos processos criativos, e objetivamente, nos espetáculos musicais, formas, métodos e técnicas diferenciadas de iluminação e composição cenográfica.


Nessa conjuntura efervescente, um jovem americano chamado Vincent Damon Furnier reuniu-se com alguns amigos para formarem uma banda, com o objetivo de participarem de um show anual de calouros em Phoenix (Arizona, EUA), inspirados e influenciados por The Beatles e por todas as mudanças que ocorriam na juventude naquele período. Após ganharem o concurso, mudaram o nome da banda três vezes (The Earwigs, The Spiders, The Nazz), até adotarem um nome mais peculiar e que seria definitivo: Alice Cooper.

Após um contato com o empresário Shep Gordon, que conseguiu uma audição com Frank Zappa e um contrato com o selo Straight Records, gravaram três álbuns: Pretties for You (1969), Easy Action (1970) e Love It to Death (1971). Com o sucesso desse último, iniciou-se a Killer Tour, em 1972. Para essa turnê, especificamente, a banda liderada por Vincent Furnier revolucionaria a produção de shows com a inclusão de elementos circenses e teatrais, já utilizados por outros artistas (Arthur Brown, The Rolling Stones, entre outros), mas contextualizados com as canções e inseridos em performances até então inexploradas e sem similares. De fato, Alice Cooper não criou o intitulado “Teatro do Horror” no contexto do Rock’n’Roll; entretanto, legitimou-o, de maneira mais emblemática e promissora, sendo, inclusive, um dos mais concorridos e iconográficos espetáculos da década de 1970. Shows performáticos e roteirizados, com a inclusão de recursos cenográficos macabros, tais como guilhotinas, cadeiras elétricas e mesmo cobras vivas, além de recursos pirotécnicos e métodos tradicionais de iluminação cênica, alinhados à iluminação teatral.

Com uma carreira de mais de cinquenta anos, Alice Cooper (banda) lançou sete discos, desde 1969, com a mesma formação. Em 1975, Vincent Furnier iniciou sua carreira solo e adotou definitivamente o nome Alice Cooper (com mudança do nome, registrado em cartório) e gravou vinte álbuns, com mais de 50 milhões de discos vendidos. Indicado ao Rock’n’Roll Hall of Fame em 2011, eternizou-se como um precursor e referência de um estilo musical e performático que seria copiado, ou mesmo inspirador, e percebido em diversos artistas e bandas. Atualmente, considerado uma ‘lenda viva’, Alice Cooper ainda tem se notabilizado por outras atuações, como ator (em mais de dez filmes), jogador de golfe e engajamento filantrópico.

Além de também integrar a banda Hollywood Vampires, Alice Cooper lançou o vigésimo álbum da carreira solo (intitulado Paranormal) em julho deste ano. Mas desde abril de 2016, realizou mais de 140 shows da turnê Spend the Night with Alice Cooper Tour, que passou recentemente no Brasil com três apresentações: no Rock in Rio 2017, São Paulo Trip 2017 e em Curitiba, como show ‘solo’.


Pela segunda vez na capital paranaense – a apresentação anterior ocorreu há exatos dez anos – Alice Cooper tem sido acompanhado por uma banda espetacular, que além do próprio nos vocais, harmônica e guitarra, é formada por Ryan Roxie nas guitarras base e solo, além de backing vocals; Chuck Garric no baixo e backing vocals; Tommy Henriksen nas guitarras base e solo e backing vocals; Glen Sobel na bateria e percussão; e Nita Strauss, nas guitarras base e solo e também backing vocals.


Na equipe técnica, David Davidian atua como Tour Manager; Cesare Sabatini, diretor de produção; Sheryl Cooper, esposa de Alice, atuando como “Sheryl, a enfermeira” e “Broken Ballerina”. A iluminação cênica foi projetada, programada e conduzida por Joel Reiff, Lighting Designer responsável pelo projeto e direção em turnês de Avril Lavigne, 50 Cent, Colbie Caillat, Fergie, Audioslave, Beck, B-52s, Bob Dylan, Neil Young, Live, entre outros.
Na Spend the Night with Alice Cooper Tour, Reiff optou por variados métodos e princípios diversificados na iluminação cênica, ora prezando pelas formas e elementos geométricos, ora pelas representações gráficas mais convencionais. Como diferencial, amplo uso de cores, em paletas incomuns e composições análogas, complementares ou mesmo contrastantes, proporcionado um espetáculo visual impactante e sofisticado.


Nas vinte canções integrantes do setlist do show, realizado em Curitiba no dia 23 de setembro, uma síntese da carreira de Alice Cooper, com clássicos e preciosidades, em uma coletânea de sonoridades (e luzes) que envolveram toda a trajetória musical e cênica do artista.


Na abertura, um pano de fundo, com a imagem destacada dos olhos de Alice Cooper, cujas córneas eram representadas por aranhas e cenário enaltecido com luzes coloridas, pulsantes e hipnóticas, sendo o show introduzido com a faixa título de Brutal Planet (2000), realçada com fachos simétricos âmbares e uma atmosfera magenta e avermelhada, que preparam a plateia para No More Mr. Nice Guy (do antológico Billion Dollar Babies, 1973) e demonstrações dos princípios do Design, com repetições e simetrias. Em Under My Wheels (Killer, 1971) e Lost in America (The Last Temptation, 1994), agrupamentos de luzes em transições rápidas e formas geométricas intrigantes e atrativas.


O show continuou com Pain (Flush the Fashion, 1980), Billion Dollar Babies (álbum homônimo, 1973), The World Needs Guts (Constrictor, 1986), Woman of Mass Distraction (Dirty Diamonds, 1995), canções cujas propostas de iluminação ofereceram linguagens e padronagens sortidas e distintas, na mesma proporção que as canções e seus momentos na história de Alice Cooper, em três décadas e contextos muito diferentes.


Um solo desacompanhado da marcante e virtuosa guitarrista Nita Strauss, detentora de admirável técnica e beleza, antecederam Poison (Trash, 1989), cujo monocroma geral e em contraluzes diluía-se com fachos frontais saturados e intensos. Na sequência, Halo of Flies (Killer, 1971) e Feed My Frankenstein (Hey Stoopid, 1991), esta, com um ritual de eletrocussão, marcado pela transição de paletas de violetas para verdes e a transformação de Alice Cooper no próprio monstro, denominado no título da canção.

Cold Ethyl e Only Women Bleed (ambas de Welcome to My Nightmare, 1976), sendo esta protagonizada pela “bailarina quebrada”, antecederam a única canção do último álbum incluída no repertório, Paranoiac Personality (Paranormal, 2017). No seguimento, a envolvente Ballad of Dwight Fry (Love It To Death, 1971), com a impressionante presença e interpretação da enfermeira Sheryl.


Para finalizar Killer (álbum homônimo, 1971), I Love the Dead (Billion Dollar Babies, 1973), com a decapitação teatralizada de Alice Cooper, e representada em um ritual macabro (conduzido pela enfermeira Sheryl), repleto de diversão e luzes vermelhas com análogas saturadas, seguida por I’m Eighteen (Love It To Death, 1971), com combinações em tríades harmônicas (violeta, verde e alaranjado). No bis School’s Out (álbum homônimo 1972), clássica para um final triunfante; nessa última canção, recursos tais como bolhas de sabão, papel picado, além da exploração de toda a estrutura de iluminação, e a inclusão incidental de Another Brick On The Wall, clássica canção da banda inglesa Pink Floyd.


Como resultado, um dos melhores shows realizados em Curitiba nos últimos anos. Alice Cooper, mesmo conceituado de maneira pragmática como ícone do “Rock Horror” é de fato um fantástico e carismático entertainer, capaz de concentrar todas as atenções em si, justamente em um espetáculo musical exuberante em recursos e personagens incríveis, além de um show repleto de recursos cênicos e cenográficos fascinantes conduzidos com profissionalismo, técnica e beleza.


Abraços, ótimas festas de fim de ano e até a próxima conversa!!!

 


 

Please reload

Destaque

Gustavo Victorino conquista o troféu de Comentarista de Televisão do Ano, no Prêmio Press 2019

November 12, 2019

1/10
Please reload

Posts recentes

October 7, 2019

October 3, 2019

September 25, 2019

September 19, 2019

Please reload

Nossas Redes
  • Facebook Classic
  • Twitter Classic
  • Instagram
SOBRE

REVISTA BACKSTAGE

 

A Revista Backstage é um publicação da Editora H. Sheldon e pode ser adquirida online através do site da editora, por assintura ou avulsa.

 

ANUNCIE

IMPRESSA OU DIGITAL

 

Clique aqui e se informe sobre as condições de anúncios em nossa revista ou site.

CONTATO
  • w-facebook
  • Twitter Clean
  • Instagram

Todos Direitos Reservados

Rua Iriquitiá, 392 - Taquara

Rio de Janeiro - RJ - CEP:22.730-150 

Telefones: (21) 3627-7945 /  2440-4549

E-mail: adm@backstage.com.br

© 2017 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS • REVISTA BACKSTAGE