Luiz Carlos Sá conta suas vivências

 

Às vezes, escrevendo esta coluna, me vêm à memória flashes de vivencias que não consigo situar nem no tempo nem no local exatos: parecem coisas de sonho, vistas através de uma névoa. Aí fico me esforçando por reconhecê-las e levo horas, dias, semanas nisso, sempre chegando perto da realidade, mas nunca conseguindo alcançá-la por completo. Passado um tempo, desisto dos detalhes e passo a narrar pra mim mesmo aquela história com um roteiro que chamo de “pequena verdade”, começando pelas certezas e finalizando em dúvidas, o que em determinadas situações faz com que aquele fato acabe por ganhar uma estrutura real, palpável, fazendo com a névoa se dissipe e mostre o que existiu ou pelo menos deveria ter existido, embora não completamente daquela maneira. Dando um exemplo que pode ter acontecido a qualquer um de nós: em nossa memória a casa onde vivemos a primeira infância, na rua tal, no bairro tal, era enorme e tinha um quintal repleto de árvores frutíferas, com uma claraboia que iluminava a cozinha sempre enfumaçada por almoços e jantares. Mas um belo dia, reencontrando aquele idoso parente próximo que não víamos há dezenas de anos, rola o seguinte diálogo:


- Tio, lembra-se daquela claraboia na cozinha na casa da Tijuca?
- Claraboia? não... Ah, espera, quem morava na Tijuca e tinha uma linda claraboia na cozinha era sua avó. E ela não saía de lá, era um tal de doces, arroz disso e daquilo, nossa, a velha cozinhava demais, a gente engordava só de passar o dia com ela!
- Mas eu não morei na Tijuca?
- Não, rapaz. Imagina, morei com vocês até entrar na faculdade... A gente sempre morou em Vila Isabel, depois vocês mudaram pra Laranjeiras, pra um apartamento em frente ao Fluminense.
- Tá, mas aí eu já tinha uns doze anos.
- Não, você tinha oito. Lembro porque eu mesmo levei você ao Maracanã pela primeira vez pra festejar seu oitavo aniversário, enquanto seu pai e sua mãe davam um jeito na casa. Tinham acabado de mudar.,

 

Aí as coisas começam a se ajustar na sua cabeça, o tempo e o espaço entram em nova ordem e você se surpreende pensando em como tudo aconteceu diferente do que você imaginava. Não que seu passado fosse uma mentira, mas a verdade estava ali de plantão, esperando que a última porta se abrisse. 


Agora, por exemplo, tenho na cabeça um cenário: um amplo apartamento quase sem mobília, um ambiente muito claro por onde entrava – posso sentir isso neste exato momento em minhas veras narinas – a maresia do fim de tarde, aquela que chega com a força das ondas da maré montante. Num quarto, eu, no outro ao lado meu parceiro Guarabyra. Estávamos muito cansados e ressabiados com a hospedagem improvisada, diferente daquela que havia sido prometida por sabe-se lá qual produtor local em sei lá qual cidade. Eu tentava arrumar minhas roupas num armário vazio e sem cabides, olhando desanimado pro colchão de casal colocado diretamente no chão. Apesar disso, a roupa de cama parecia recém comprada, os travesseiros eram macios e com o cansaço da viagem não demorou muito para que eu apagasse ali de roupa e tudo.


No dia seguinte acordei tarde, depois de um sonho agitado e confuso, que em compensação me deixara na cabeça uma linda melodia. Peguei o violão e comecei a harmonizá-la. Acho que por isso acordei o Guarabyra, que se interessou também pela música. Começamos a trocar ideias, ele arrumou papel e lápis e falou-me sobre a instigante obra poética de Ana Cristina Cesar, uma mulher jovem, linda, brilhante, que recentemente acabara por suicidar-se, atirando-se do alto de um prédio em Copacabana. Fiquei um tanto abalado com essa lembrança, pensando porque tantos poetas traziam para suas vidas as piores tragédias do cotidiano, como se absorvessem – além dos seus próprios – os males alheios, terminando por sucumbir a isso tudo. Claro que a letra saiu inteira em homenagem a ela, construindo um hipotético mundo que seria seu por merecimento, em lugar daquele que acabou por lhe caber em doses iguais de melancolia e amargura. Não por acaso, Ana Cristina - em triste e então ainda inimaginável profecia - falou: “Eu não sabia / que virar pelo avesso / era uma experiência mortal.”

Completamos música e letra em pouco mais de uma hora. Ela saiu fluida, agridoce, simples e rica. Talvez aqueles pequenos contratempos normais em turnês de uma cidade por noite tivessem nos reservado esse presente. Acabamos por gravá-la pouco mais de um ano depois, em 1985, no disco “Harmonia”. Temos um carinho especial por ela, demonstrado novamente por Guarabyra que a regravou – e fez dela a música título - em seu disco solo de 2006.

 

 


    

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