Eu e a música - Ao balanço das horas

 

 

A Rua Major Barros era um deserto automotivo, num Rio que ainda não tinha lá muitos carros... apesar do asfalto que nos ralava joelhos e cotovelos, nossa principal ocupação era jogar bola em partidas que duravam tardes inteiras, o gol demarcado por chinelos e um implacável revezamento para apanhar as bolas que caíam nos quintais ou jardins vizinhos. Quem não tivesse coragem de pular os muros ou choramingar na orelha do morador que não se apresentasse para jogar. Mas o que eu mais gostava era de ir ao Centro da cidade com minha mãe, o que não era raro, já que muito do que era necessário em nosso dia a dia – médicos, dentistas, ou mesmo algum artigo mais incomum não encontrável no comércio local – ficava no Centro. Essas incursões terminavam invariavelmente num lanche na Leiteria Bol ou na Confeitaria Colombo, seguido pela ida ao cartório onde meu pai trabalhava, com quem pegaríamos a carona de volta pra casa. Mas ali, ao lado do cartório, na rua Sete de Setembro quase esquina com avenida Rio Branco, ficavam dois repositórios de meus sonhos de consumo: uma loja de brinquedos e uma loja de discos, de cujos nomes, que injustiça, me esqueci por completo. Na de brinquedos eu sempre arranjava um jeito de descolar alguma miudeza. Na de discos consegui formar uma vasta coleção de histórias infantis, em álbuns com dois, três ou até mais bolachões de cera em 78 rotações, que lascavam ou quebravam com muita facilidade. O “Long Play” ainda era artigo importado e de luxo. Com o passar do tempo, lá pelos meus dez anos, meu interesse mudou para redescobrir o que minha irmã mais velha, já então casada, costumava colocar na vitrola quando ainda morava com a gente: hits de Glenn Miller, praieiras de Caymmi, pré-bossas de Lúcio Alves e Dick Farney, etc. E numa dessas fuçações na loja de discos, que minha mãe administrava com impaciência, ouvi vindo de uma das cabines uma música irresistível. Saí da minha (os discos podiam ser ouvidos em cabines individuais envidraçadas e mais ou menos à prova de som, já que fones de ouvido ainda eram raridade) e fiquei à porta da outra, de onde saíam os primeiros acordes de rock’n’roll (embora, como vim a saber mais tarde, em versão rockabilly) que ouvi na vida. Lá dentro um garoto de seus dezesseis anos balançava ao som da música. A certa altura, ele percebeu minha presença, sorriu e mostrou-me a capa de um LP importado, todo escrito em inglês, com a foto de um cara engraçado com uma espécie de vírgula sobre a testa. Mesmo já tendo tido aulas de inglês com meu tio Aristides, único da família ao lado de minha irmã a ter alguma intimidade com o idioma, demorei a decorar o título, enquanto o rapazote continuava a dançar sem deixar de exibir a capa, onde se lia:Rock Around The Clock with Bill Haley and his Comets.

 
Se você já viu um garoto pré-adolescente pedir, suplicar, gemer, ajoelhar-se e jurar eterno comportamento angelical para todo o sempre, você já tem na cabeça a cena que aconteceu naquela loja de discos. Minha mãe, a princípio horrorizada tanto pelo preço do disco importado quanto pela cara esquisita de Haley, resistiu o quanto pôde, mas quando meu pai foi nos procurar na loja, a coisa mudou de figura. Papai adorava dançar, era um perito de abrir os salões, um conhecido pé-de-valsa nas festas de clube. E o rockabilly de Haley deve ter soado tipo um boogie-woogie anabolizado aos seus ouvidos dançarinos. Tirou a carteira do bolso e – para desgosto de minha mãe – mandou embrulhar o disco para presente.


Chegados em casa, corri para a vitrola. Por sorte minha, ela tinha sido comprada no mês anterior e já tocava as novas rotações que chegavam ao Brasil, 33 e 45 rpm. E aí, o caos:
Rock Around the Clock a mil pela casa adentro. Quando ouvi aquele ritmo tão diferente da dolência dos boleros e sambas-canções tão em moda na época, não resisti e comecei a me sacudir mais ou menos como tinha visto o garoto da loja fazer. Nair, nossa funcionária de muitos anos, apareceu à porta da cozinha, olhos arregalados. Ficou olhando aquilo uns dez segundos e correu para o quintal, fechando a porta atrás de si. Logo depois apareceu minha mãe, quase se despencando escada abaixo com as mãos tapando os ouvidos e gritando a plenos pulmões:
- Menino, tá maluco! Baixa já esse negócio!


Pego de surpresa em pleno desenvolvimento de minha nova coreografia, fui salvo mais uma vez por meu pai, que surgiu da varanda já sacudindo o indicador direito ao ritmo da música, como se fazia nos musicais americanos. Não satisfeito com essa entrada triunfal, ele tentou puxar minha mãe para a dança, mas ela rapidamente alcançou o botão de volume e transformou os Cometas de Bill em pequenos meteoritos inofensivos:
- Vocês estão loucos! – virou-se para meu pai, que ainda sacudia o dedinho no ar – a vizinhança vai pensar que a gente endoidou de vez!


A solução para esse impasse só chegou no mês seguinte, com meu pai me presenteando com uma das primeiras vitrolinhas portáteis que surgiram no mercado com as novas rotações e eu pude ir trancar-me na garagem e ouvir Bill Haley ao volume máximo, enquanto eu e alguns amigos, já tomados pelo demônio roqueiro nos sacudíamos e nos descabelávamos. Não demorei muito para descobrir aquele que seria meu grande ídolo dos primórdios do rock’n’roll: o enlouquecido Little Richard, que vi pela primeira vez num filme alugado de 16mm. Richard esmurrava o piano e berrava seu Long Tall Sally a todo o vapor, encimado por um topete que se mantinha a duras penas no topo de sua cabeça. Dali a ter seu LP Here’s Little Richard, apaixonar-me pelo lado negro dessa força e meio que abandonar os rockabillys de outrora, foi questão de tempo. Ainda me restaram depois os Everly Brothers, Roy Orbison, Gene Vincent e os primeiros tempos de Elvis. Mas agora o rock’n’roll já era uma parte efetiva da minha vida musical.

 

 

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