Novas barreiras na Iluminação Cênica

 

 

Figura 1: Estética impressionista na produção teatral. Fonte: Pinterest/Nikki Guckian

 

Na iluminação cênica, a cena é a principal referência para a composição estética e visual. Por meio dela, definem-se as técnicas, métodos e resultados, alinhados aos conceitos e roteiros, criados e configurados para produzir sensações e percepções únicas. Mas, e se a cena mudar de lugar? E se a referência for móvel ou dinâmica? Nesta conversa, antigos paradigmas serão abordados e novos serão discutidos, de maneira a contextualizar novos caminhos – e novas barreiras, proporcionando expectativas e perspectivas fascinantes na evolução da iluminação cênica.

 

A cena sempre será um paradigma na iluminação cênica. Algo intrínsico na denominação e significado dessa técnica e área do conhecimento. Em circunstâncias diversas, essa afirmação pode gerar questionamentos, dúvidas, controvérsias e até discussões empolgantes e calorosas. Mas, de fato, a cena é uma representação situada na relação tempo-espaço e que pode variar nessas duas dimensões (sendo que para muitos profissionais e autores, a cena realmente compreenda três dimensões e o tempo represente uma quarta dimensão).


Essa convenção que envolve tempo, cena e iluminação remonta às inspirações e influências que proporcionaram o desenvolvimento da atividade por meio de pesquisas, experimentos e representações diversas, e que, também em uma outra análise e percepção, resultaram na proposta estética do Impressionismo. Esse, que é um dos mais significativos movimentos artísticos da História, ocorreu no fim do século XIX, no qual foram produzidas pinturas que captavam as impressões perceptivas de luminosidade, cor e sombra das paisagens, que eram reproduzidas em diferentes horários do dia. Como no Impressionismo, a busca pela melhor estética de cena sempre esteve associada à melhor compreensão da iluminação e da percepção visual, como recurso de análise e interpretação subjetiva da interferência da luz visível sobre o que é visto, ou até mesmo o que poderá ser idealizado e sugerido.

 

Figura 2: Soluções e resultados na estética da iluminação cênica. Fonte: Amber Sphere


Em um outro contexto, também vinculado às artes e entretenimento, diversos espetáculos, dinâmicos e versáteis, conduzem os expectadores por espaços diferentes, cuja passagem espacial e temporal irá proporcionar dezenas ou centenas de cenas. De maneira mais efetiva, cada cena será produzida por elementos, recursos, equipamentos e mesmo soluções estáticas (ou fixas, como luminárias, dimmers,consoles), complementadas por efeitos e substâncias/compostos que conferem dinâmica e evidenciam aspectos (tais como o dióxido de carbono solidificado, ou gelo seco). A apreciação se torna vívida, enérgica e animada, seja pelas variações das possibilidades desses recursos (pela alteração das cores e intensidades) ou pela modificação na configuração ou execução de funções e comandos. 


Já nesse âmbito, a programação e operação de projetos de iluminação cênica se torna complexa e envolvente, como também requer tempo para a idealização, configuração e testes. Quanto mais dinamismo um conjunto de cenas requisitar, mais intricado será o processo de desenvolvimento de soluções para resultados dos mais diversos.
Os contínuos avanços tecnológicos nos setores de entretenimento e produção de espetáculos propiciaram um considerável aumento do consumo de novidades, sendo que muitas delas centradas no LED como dispositivo. Ele se tornou parte do vocabulário e do dia a dia das produções e espetáculos - como já discutido diversas vezes nesse espaço. Integrante de um processo irreversível, e cada vez mais acessível e com amplas possibilidades de uso e aplicações, essa entrada dos LEDs cada vez mais precisos, brilhantes e menos onerosos permitiu a recriação e projetos mais ambiciosos, e consequentemente, maiores e mais exuberantes com condições orçamentárias mais viáveis. 

 

Figura 3: Video Walls na formatação do cenário. Fonte: Matrix Visual


Esse novo cenário de possibilidades provocou uma nova condição em que os Lighting Designers podem idealizar projetos com maiores e mais amplas capacidades, representando por vezes, uma mensuração de recursos que duplicasse ou até multiplicasse em outras ordens o número de equipamentos em um espaço antes dimensionado com limitações diversas, tornando cada vez mais intensa a inserção da iluminação cênica em contextos outros, como eventos de inauguração, lançamentos de produtos e até congressos científicos nas mais contrastantes áreas do conhecimento.

Figura 4: Video Walls na configuração de eventos técnicos e corporativos. Fonte: South West Scenic Group.


Assim, a iluminação cênica passou para outro patamar, ainda transmitindo sensibilidade, estética e mensagens variadas, mas também muitas informações. As conexões dos universos teatrais e dos espetáculos aos eventos comerciais e corporativos ainda se desenvolve, mesmo que seja percebido por diversos recursos comuns a essas instalações. Como exemplos, paredes de LEDs, que substituíram as gigantescas telas oriundas do conceito de Image Magnification (IMAG) cada vez também se inserem nos eventos científicos e de negócios, sendo essas estruturas utilizadas na edição das imagens e na promoção de marcas e ideias.


Também nesse contexto, as configurações de espaços se modificaram, pela redução ou substituição de recursos, cada vez mais versáteis. Os espaços das telas de projeção se dinamizaram, e esses antigos obstáculos, ou barreiras, criados pelos sistemas de projeção, ganharam novos elementos, temas personalizados e interações mais atrativas. Nas feiras e congressos, as divisórias se transformaram em espaços publicitários e de propagação de ideias, produtos e informações.

 

 


Em uma análise bem objetiva, ainda há nessa questão uma lacuna entre iluminação cênica e vídeo, e esse gap começa a ser superado pela inovação digital, que ultrapassa as possibilidades dos recursos físicos e passa também pelos processos criativos, envolvendo cenários reais, fictícios e fantasiosos.


Estruturas que são denominadas Video Walls cada vez mais assumem esse papel: paredes que funcionam como superfícies de reprodução de vídeos e animações. Essas paredes atuam ainda como luminárias, comportando-se como elementos estruturais com superfícies distintas, ou seja, a capacidade de reprodução de tópicos, imagens, marcas singulares em cada face da parede. Em outras palavras, inicia-se uma nova etapa de compreensão para o uso dessas “paredes” não somente como veículo de divulgação na parte frontal, como também no verso.

 


Imaginando uma parede convencional, estruturada a partir das duas principais dimensões – largura e altura - nessa formatação de Video Walls, em um lado, há possibilidades de exibição de vídeos de alta definição e efeitos de iluminação volumétrica em modelagem 3D (ainda mais com simulações e projeções no campo da realidade virtual); no outro lado, matrizes com pixels em padrões 8x8 de alta intensidade ou com profundidades com padrões RGB truecolor 24 bits . Isso ainda permitirá outras formas e configurações, e simulações espetaculares de cenas e cenários em tempo real.

Figura 5: Video Walls na configuração de shows e espetéculos. Fonte: Insta Stalker.


O Impressionismo foi um dos mais importantes e influentes movimentos artísticos da História, caracterizado pela reprodução em tela das impressões pontuais do artista para uma paisagem ou cenário, com os aspectos da iluminação natural aplicados por um instante do tempo. Com essas novas tecnologias, os horizontes se tornam promissores pela recriação de cenas dinâmicas e em movimento. A partir dessas possibilidades, cada vez mais serão propiciadas alternativas para uma mesma configuração espacial, sem alterações físicas, apenas projetuais, e reproduções de imagens em instantes, como se a cada segundo, uma nova tela surgirá em frações do tempo, sucessivamente.


Com todos esses elementos de inspiração e produção, novos recursos surgem diariamente, mesmo que incipientemente explorados, permitindo ainda o desenvolvimento de diversas propostas, formais e burocráticos, subjetivas ou lúdicas. Cada vez mais, caberá ao Lighting Designer a exploração de possibilidades, pela investigação e compreensão de novos cenários (em todos os sentidos), fomentando estímulos e percepções além das barreiras da imaginação.


Abraços e até a próxima conversa!


 

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