Paul McCartney na turnê 'One on One'

March 20, 2018

Sendo um dos principais recursos de um espetáculo, a iluminação cênica ora se destaca em uma produção como um artifício diferenciado e protagonista, ora como um elemento sutil e secundário, complementar ao processo de composição de um cenário. Para determinados shows, ela se evidencia de maneiras diferentes, adequando-se como meio revelador e minimalista, ou ainda como mecanismo arrojado, dinâmico e inovador. 

 

Nesta conversa, a iluminação cênica será abordada sob todos esses aspectos vinculados ao conceito e às escolhas de um fascinante projeto, executado na turnê One On One, de Paul McCartney, recentemente realizada no Brasil. Como resultados, princípios e propostas com repertórios espetaculares, de canções e instrumentos de iluminação, assim como versatilidade, também musical e luminosa.

 

 

 

 

Poucos são os artistas ainda vivos que passaram pelas transformações culturais dos últimos cinquenta anos, continuam produzindo e ainda se mantêm relevantes. Nesse seleto grupo, reduz-se ainda o número de ícones que são responsáveis pela evolução do Rock’n’Roll, e da música pop, e ainda conseguem lotar estádios para concertos memoráveis. Paul McCartney se destaca nesse contexto como um dos mais importantes artistas de todos os tempos, e, com turnês cada vez mais fascinantes, a entrega de cada espetáculo se reveste de referências históricas e culturais, além da carga emocional incomparável com produções visuais tão atuais quanto visionárias.


Sir James Paul McCartney dispensa qualquer prefácio. Sua trajetória na história da música lhe confere um capítulo à parte, senão dois: sendo o primeiro, como um ‘Beatle’; e o outro, sua carreira pós ‘The Beatles’. Mas, nessa história com um enredo conhecido e ricamente ilustrado nas últimas cinco décadas, destacam-se as turnês realizadas nos últimos vinte e oito anos, repletas de momentos magistrais e sublimes que são vivenciados a cada apresentação, cada show. 

 

 

Após três anos desde a última apresentação no Brasil, totalizando vinte shows realizados em solos brasileiros, para shows integrantes de quatro turnês (The New World Tour, em 1993; Up and Coming Tour, 2010 e 2011; On The Run Tour, 2012; Out There, 2013), Paul McCartney retornou para mais quatro apresentações da turnê One On One, em outubro deste ano, realizadas em Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte e Salvador, nesta sequência.
Com a mesma banda que o acompanha desde 2002, formada pelos excelentes e versáteis músicos (Rusty Anderson, nas guitarras, violão e backing vocals; Brian Ray, guitarra, violão, baixo e backing vocals; Abe Laboriel Jr. na bateria e backing vocals; e Paul “Wix” Wickens, nos teclados, acordeon e backing vocals), nas aproximadamente três horas de show, Paul McCartney reveza-se entre o icônico baixo Höfner 500/1, violão, guitarra, piano, todos com maestria e precisão. 

 

Se o repertório musical escolhido para a turnê compreende algumas das mais significativas e emblemáticas canções de todos os tempos, a produção visual dessa turnê foi desenvolvida com extrema qualidade, sendo que a iluminação tem sido conduzida com virtuosismo pelo excelente Lighting Designer LeRoy Bennett.
Bennett tem no currículo projetos e direção de iluminação realizados nas turnês de bandas e artistas tais como Boston, Prince, Madonna, Sade, Jay-Z, Beyoncé, Nine Inch Nails, Bruno Mars, e, desde 2001, trabalha como Lighting & Set Designer para Paul McCartney nas suas últimas onze turnês.


Mas o que realmente torna esse show tão especial? Impossível dissociar o caráter emocional e historicamente significativo que evoca nas vidas de todas as pessoas que assistem a um espetáculo de Paul McCartney. Independente da faixa etária e em qual momento da história de cada espectador as músicas de ‘Macca’ (como é carinhosamente chamado por muitos) ou The Beatles, ou Wings, edificaram alguma marca, as canções se sucedem como trilhas sonoras de diversos momentos, alegres e tristes, rememorados e redescobertos nos primeiros acordes de cada canção. Tal comoção se torna contagiante e mobiliza toda a plateia, que se surpreende e se exalta com cada peça de um roteiro esperado e celebrado.


Com essas referências, Bennett conscientemente compreende sua responsabilidade e, de maneira sutil ou mesmo exorbitante e enfática, utiliza todos os recursos à sua disposição, com um repertório diversificado e versátil, salientando particularidades e referências de todas as canções. Além dos instrumentos ‘convencionais’, Bennett inseriu na turnê diversas animações – com contextualizações históricas e culturais – projetadas no palco e mescladas com amplificação de imagens (IMAG ou Image Magnification), nas telas laterais, predominantemente. 
No palco, telas de LED semitransparentes, conhecidas como V-Thru, e módulos formados por spots, moving heads e blinders, tais como Bennet já havia utilizado na Tension Tour, da banda americana Nine Inch Nails (e abordada na coluna intitulada ‘Alta Tensão na Iluminação Cênica’, na edição n.º 235, de junho de 2014, da Revista Backstage) criam cenários fantásticos e dinâmicos. Deve-se destacar que, além de LeRoy Bennet, Wally Lees integra a equipe e assinatura de iluminação como Lighting Director. 

 Outro princípio que norteia a produção cênica do palco está relacionado ao uso de planos verticais como camadas (‘layers’) de sobreposição e disposição de imagens projetadas, ou mesmo para a distribuição da iluminação. Se no plano horizontal os músicos se posicionam de maneira a garantirem as ‘marcas’ e a visibilidade (mesmo que em diversos momentos, tais como em Maybe I’m Amazed, as silhuetas são destacadas com sombras chinesas), esses ‘layers’ tornam o show ainda mais incrível e notável.


Na abertura do show, com A Hard Day’s Night, e em outras canções (Can’t Buy Me Love, Drive My Car, I’ve Got A Feeling) referências explícitas à própria história, com imagens da década de 1960, ou elementos da Pop Art, lapidados ou evidentes, por meio de pixels frenéticos, proporcionando ritmo e empolgação.


Nas canções da banda Wings (Jet, Let Me Roll It, Band On The Run), e mesmo na clássica Let It Be (com destaque para a participação luminosa da plateia), animações contextualizavam as canções, com elementos de referência ao próprio tema ou capa do disco original. Sidelightings forneciam outras camadas e texturas, emoldurando e revelando os elementos cênicos, a partir das cores primárias, ou branco.


Em Hey Jude, um dos hinos da década de 1960 (assim como em Junior’s Farm, Nineteen Hundred and Eighty-Five), Bennett decidiu pelo uso dos módulos – estruturas iguais e repetidas, criando referências geométricas, mesmo que assimétricas e imprevisíveis – proporcionando texturas e formas aleatórias e interessantes.
Propostas minimalistas, ou insinuações à Old School, puderam ser percebidas em We Can Work It Out e In Wanna Be Your Man (homenagens a Ringo Starr e The Rolling Stones), respectivamente. Para essas canções, fachos simples e bem definidos, com alterações nas cores (variações básicas de azul e verde) e na intensidade – quase um Crescendo, em alusão à própria dinâmica musical.

Mas Bennet havia preparado algumas surpresas. Para um set acústico, com as canções In Spite of All the Danger (gravada por The Quarrymen, em 1958), Love Me Do e And I Love Her, um cenário rústico de uma casa antiga era projetado nas telas de LED semitransparentes (V-Thru), e com o decorrer das canções, variações de iluminação natural na superfície da casa causavam uma intrigante impressão de passagem do tempo (da noite para a manhã).
Outro set acústico – e solo – faria com que Paul McCartney fosse impulsionado ‘às alturas’, com um mecanismo de elevação de uma parte do palco para, ainda em movimento, executar a introdução de Blackbird. No topo, iluminado apenas com um facho suave e neutro, ainda tocou e cantou Here Today, em homenagem a John Lennon.


Se o show teve momentos mais delicados e sensíveis, essa não seria a tônica de um espetáculo tão versátil e diversificado. Para Live and Let Die, a previsibilidade de efeitos pirotécnicos que já integra todas as turnês de Paul McCartney só não se traduz em obviedade. Mesmo que os fogos e explosões sejam esperados para o pós-refrão, é sempre surpreendente como os outros instrumentos de iluminação se integram a esse clímax e eufórico momento.
Referências à Psicodelia e ao Surrealismo trouxeram à tona a exuberância de cores que predominaram na metade da década de 1960, e visualizadas em canções como Being for the Benefit of Mr. Kite!, Back in the U.S.S.R., Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise), Helter Skelter, com animações e imagens em celebração ao 50º aniversário do lançamento do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), além de elementos do Construtivismo Russo e Neoplasticismo, contextualizados com as canções do White Album’(1968).


Homenagens ainda seriam reservadas em Something, para George Harrison, e novamente para John Lennon em A Day In The Life. Animações com imagens dos Fab Four, além de ícones e símbolos (como o Nuclear Disarmament, símbolo Hippie) também se mesclavam com cores e referências à Psicodelia e ao Flower Power.

 

Para finalizar em grande estilo, três canções do Medley que encerra o Lado B de Abbey Road (1969), obra-prima e último disco gravado por The Beatles: Golden Slumbers, Carry That Weight, The End. Imagens fantasiosas eram complementadas por fachos no melhor estilo Old School, para um final apoteótico, de um show emocionante e inesquecível.


Seria impossível descrever as sensações percebidas e sentidas em uma apresentação que compreende tantos elementos emocionais e sentimentais. Se o repertório musical, excelentemente executado por uma banda fantástica, liderada por um ícone, detentor de talento e carisma incomparáveis, trouxe nostalgia e esplendor, coube à iluminação cênica, também conduzida por um mestre, ressaltar e valorizar cada momento, cujas dinâmicas induziam e eram complementadas por uma plateia positivamente ensandecida, que respondia e participava como mais um protagonista, em apresentação histórica, versátil e resplandecente.


Abraços e até a próxima conversa!

 

 

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