O som, a música e o áudio - Partes 1 e 2

Parte 1

 

Queridos leitores da revista Backstage, nesta edição iniciaremos uma fantástica viagem pelo mundo do som. Se somos músicos, engenheiros de áudio, produtores musicais, o som sempre será nossa matéria prima nesse universo em que estamos inseridos. Mas o que é o som? Qual a relação do som com a engenharia, ou com a música? Como enxergamos esse material de trabalho tão abstrato e ao mesmo tão real e único?

 

Antes de tudo precisamos entender o que é o “som”, ou o que ele pode ser, dependendo do nosso ponto de vista. Por exemplo, uma sirene tocando, um apito, uma martelada, ou mesmo uma sinfonia, tudo isso é na verdade “som”. Mas, então, como o classificamos ou o definimos melhor?

 

Vamos partir de algo totalmente subjetivo. Por exemplo: uma sirene tocando na madrugada pode chamar nossa atenção de duas formas. Para aquele que está tocando a sirene - pode ser um motorista de ambulância - ela é, na verdade, um sinalizador de emergência. E, da mesma forma, para aquele que está em sua casa dormindo, a mesma irene é um ruído extremamente perturbador.

Percebemos que quando falamos de som, falamos de um universo de grandes possibilidades de interpretação e bastante subjetivo. Portanto, precisaremos iniciar nosso entendimento partindo de um ponto inicial definido. Por isso escolheremos o som como música.


O material básico para música é o som e o tempo. Quando tocamos um instrumento ou cantamos, estamos produzindo sons, por isso é importante uma compreensão muito boa sobre esse material. Os sons são usados para estruturar o tempo na música, ou seja, o tempo ocorre na duração dos sons e dos silêncios entre os sons. Nosso foco será compreender a complexa relação entre esses dois materiais, o som e o tempo.


Quando olhamos para o som como músicos, entendemos que iremos trabalhar com o “som” e o “tempo”. Também como engenheiros de som, entendemos que nosso trabalho será sobre o “som” e o “tempo”, apenas a forma de lidar com isso é que é bastante peculiar em ambos os mundos. Veremos isso mais adiante.

 

Mas o que é o som? 

É a sensação percebida pelos órgãos da audição quando vibrações (ondas sonoras) alcançam os ouvidos.
E, no que diz respeito ao som, o que são vibrações?

São movimentos periódicos de uma substância. Quando tocamos um instrumento, partes do instrumento (cordas, tampo, etc.) e o ar dentro  em torno do instrumento vibram produzindo som.


Essas vibrações se alternam, criando períodos de compressão e de rarefação na pressão do ar.
Essa alternância tem uma frequência, ou seja, um número de compressões e rarefações em um tempo determinado, normalmente um segundo.

 
Diz-se que nossa audição consegue compreender essas vibrações entre 20 e 20.000 vezes por segundo. Talvez não seja tão exatamente isso, ou, para alguns, isso funcione. Mas para a maioria eu diria que ficamos com uma boa compreensão entre 20 (dependendo da intensidade) e 18.000.


Mais pra frente falaremos da curva de loudness e vamos ver isso mais detalhadamente.
O curioso é que essa frequência é, na verdade, a base de tudo, e é interpretada de forma diferente por músicos e engenheiros de som. Por exemplo, um pianista entende que uma frequência de 440 movimentos vibratórios por segundo é uma nota lá logo acima do dó central, enquanto um engenheiro de som entende a mesma vibração como 440Hz (Hz é a abreviação de Hertz, que é o nome do padrão de medida para ciclos por segundo).


Quando aumentamos o número de vibrações por segundo, observamos uma alteração em uma das quatro propriedades do som: a altura, ou pitch. E aqui a coisa começa a ficar bem interessante.
Como músicos, engenheiros de som ou produtores musicais, nossa função sempre será lidar com a interação dos sons com o propósito de fazer a música agradável aos ouvidos. Por isso precisamos aprender a trabalhar com as quatro propriedades do som, que são:

Altura (pitch), Intensidade, Duração e Timbre.
Parece simples né? Aliás, isso está em todos os livros de música e de áudio disponíveis, mas vamos entender uma coisa: aqui, nessas propriedades, temos a chave para todas as coisas no trabalho com música. Esse é o ponto comum entre todos os profissionais do som, o engenheiro, o músico, o produtor, etc. Por isso, precisamos ter uma compreensão ampla dessas propriedades.

Como já falamos, o pitch é a altura do som em que o mais alto é mais agudo enquanto o mais baixo é mais grave, e isso está diretamente relacionado à frequência de vibração. Por exemplo, o tom da música é uma frequência definida, ou uma altura definida.


Intensidade ou amplitude é compreendida erroneamente como a altura de um som. Na verdade precisamos entender isso melhor. Altura é número de vibrações, que define o som mais grave ou mais agudo. Já a intensidade é definida pela quantidade de energia que afeta o corpo em vibração. Os físicos medem essa intensidade em uma escala de 0 a 130 em decibels.


Na música entendemos o nível de intensidade através de uma inscrição de abreviações de palavras italianas que descrevem a intensidade de execução, como por exemplo pianíssimo, ou “pp”, que pode ser interpretado como muito suave, algo em torno de 40 decibéis. O Mezzo piano por sua vez, que é abreviado para “mp”, indica a intensidade média de 60 decibéis.

 

 


Duração é a quantidade de tempo que uma nota, ou frequência, ou pitch (nosso vocabulário está amplo) permanece ativo e é percebido. Temos na música padrões de duração que são chamados de métrica ou ritmo.
Métrica descreve a regularidade em que o som ocorre em durações iguais, normalmente em padrões de dois, três, quatro ou mais, enquanto ritmo funciona em conjunto com a métrica, porém é um padrão de duração irregular.
É interessante entender que assim como o músico em uma partitura interage com todas essas propriedades ao mesmo tempo - como, por exemplo, em uma apenas uma figura musical temos duração e altura ao mesmo tempo, ou, ao lermos uma partitura, ao longo dela, temos indicações de intensidade, tempo e altura - os engenheiros de som, da mesma forma, precisam compreender tais propriedades para garantir a sonoridade desejada e precisam manipular o som através de controles de dinâmica e efeitos como os compressores, reverbs, delays etc, em que os parâmetros estão totalmente ligados à intensidade, duração e sobretudo altura, ou (aqui cabe melhor) frequência.


Produtores musicais precisam de porção dobrada de conhecimento, pois constantemente precisam sugerir efeitos, mudança de tonalidade de execução e até mesmo mudança de padrões rítmicos.
Agora finalmente, e não menos importante, temos o timbre, que nada mais é do que a qualidade do som. Ou, como dizem os produtores, a cor do som. Essa é a propriedade que nos permite distinguir a diferença entre um Oboé e uma clarineta. Essa qualidade sonora é determinada pela forma e o material do corpo que vibra, assim como o método usado para coloca-lo em vibração. Timbre é também o resultado da percepção do ouvido humano sobre uma série de sons chamados de série harmônica e que é produzida por todos os instrumentos.

Até aqui vimos que uma boa compreensão das quatro propriedades do som, que é a nossa matéria prima, define todo nosso trabalho. Seja um projeto acústico, uma mixagem de um show, a produção de uma trilha sonora ou a composição de um hit, tudo está atrelado à nossa matéria prima: o som.


Nas próximas edições vamos dar continuidade a essa maravilhosa série de matérias sobre os mistérios do som, sua relação com a matemática, com o corpo humano, com as emoções e com todo o universo. O som é algo de uma profundidade impressionante e ao mesmo tempo de uma simplicidade divina. A compreensão de sua totalidade nos leva a infinitas possibilidades que vão desde ouvir uma boa música numa tarde de domingo até experimentar curas através de musicoterapia ou nos motivar a resultados incríveis!


Até a próxima.

 

Parte 2

 

Amigos do som, nesta edição da Backstage vamos dar continuidade à nossa viagem pelo universo musical. Relembrando que na última edição iniciamos uma série de matérias sobre o som. Quem perdeu entra no site, faz o cadastro e terá acesso a edição online podendo inclusive baixar a revista.
 

Na primeira matéria falamos das propriedades do som e da grande importância do entendimento delas para o nosso trabalho como engenheiros de som, produtores ou músicos. Aqui daremos continuidade, agora falando sobre o harmonia musical e arranjo.


Nosso contato com a música é inevitável, desde pequenos estamos sempre inseridos em um mundo musical, seja no berço com as cantigas de ninar, na juventude através de trilhas para desenhos animados, filmes, na adolescência nossas bandas favoritas e por aí vai. O fato é que vivemos em um mundo musical.

Conta-se a história de que, em uma cidade, um músico começou a tocar uma belíssima melodia em um violino em uma praça. De repente, as pessoas a sua volta começaram a dançar e aquela música foi contagiando a todos por alí até que todos os que se encontravam naquela cidade dançavam alegremente. Vendo aquilo, um rapaz surdo, que não podia ouvir aquela majestosa melodia disse:
 - O que está acontecendo que as pessoas não estão trabalhando, cuidando de suas responsabilidades e, ao contrário, ficam à toa pulando na praça? Que absurdo! 


Essa pequena estória nos ensina que, na vida, temos duas formas de encarar as coisas: uma racionalmente, intelectualmente, na qual sempre vamos querer ter razão, e a outra é quando entendemos e vivemos o pulsar da vida e dessa forma vivemos harmoniosamente. Precisamos entender que, na vida, o sentido muitas vezes está acima de nosso entendimento e é essa a função da música, nos levar para algo maior!


Quando uma pessoa está falando e outra pessoa fala ao mesmo tempo temos interrupção, mas quando uma pessoa canta e outra canta junto, temos harmonia. Tudo vira harmonia!


E é exatamente isso que precisamos entender antes de colocar a mão na massa e de fato trabalhar com a música, entender que nossa missão não é só trabalhar com a harmonia musical, mas trazer harmonia, não é só ditar um ritmo, mas fazer com que aqueles que ouvirão a nossa música sejam capazes de sair de uma realidade racional para algo maior, entrar no ritmo da grande vida.


Os pássaros, a natureza, o mar, tudo vive harmoniosamente porque estão conectados ao pulsar da vida. Infelizmente apenas o homem se desconecta dessa harmonia ao tentar explicar todas as coisas, afinal, explicação é forma de controle e a vida é grande demais para ser controlada.
Agora que entendemos nossa missão, vamos entrar em outra propriedade importante na produção musical, a harmonia.


Novamente, assim como falei na nossa primeira parte da série “o som e a música”, precisamos olhar para o som e para a música com um olhar amplo. Seja um produtor musical, um engenheiro de som ou um músico, todos os que trabalham com a matéria prima chamada “som” precisam falar a mesma língua e ter um entendimento amplo sobre a música e suas propriedades.

Já entendemos que o som tem altura, intensidade, duração e timbre. Agora estamos falando não apenas de um som, mas de dois ou mais sons tocados simultaneamente, muitas vezes por fontes diferentes. Essa execução simultânea do que em música chamamos de “vozes” é o que vai tornar a nossa música harmoniosa. Quando temos uma harmonia entre as vozes em um instrumento musical harmônico como o piano ou violão e outro instrumento sendo executado ao mesmo tempo, seja rítmico ou melódico, então temos um arranjo e o conjunto de tudo isso é a música.
Musicalmente falando, isso tudo faz sentido e sabemos que deve haver um baita trabalho musical de um maestro arranjador ou de um músico experimentado nessa prática por trás disso tudo para que tudo soe perfeito. Porém, o que importa a harmonia e o arranjo para um engenheiro de som, ou um produtor musical?


O Engenheiro de Som tem o trabalho de reproduzir com fidelidade o que está sendo executado certo? Falei na edição passada sobre as frequências e a altura das frequências. Cada instrumento ocupa um espaço em um range que inicia em 20 Hz e vai até mais ou menos 20khz (Vibrações por segundo). Se a harmonia e o arranjo não forem bons, ou seja se dois instrumentos tocarem a mesma “nota” ou região de frequência em determinado tempo que não obedeça a uma certa estética musical, essa região fica disputada e não há muito o que um Engenheiro de Som possa fazer senão de alguma forma limpar essa região, descaracterizando a fidelidade de alguma das fontes. E se isso ocorre com muitos instrumentos, vamos ter uma cacofonia e não há nada que um engenheiro de som possa fazer.

 
Ou seja, para que um Engenheiro de Som desempenhe seu trabalho com excelência, é extremamente importante que ele receba os instrumentos harmoniosamente arranjados e bem distribuídos em um espectro de frequencias. Isso faz toda diferença.


Já para um produtor musical, que tem como função entregar um trabalho esteticamente belo e bem construído, a harmonia e o arranjo desempenham um papel fundamental. Um riff de guitarra no lugar errado, ou uma frase vocal excessiva podem desconstruir totalmente a idéia de um bom trabalho.


Mais uma vez vimos que em música, tudo é importante para todos os envolvidos e todos devem ter uma ampla compreensão de todas as propriedades musicais. Fazer música é lidar com a arte mais bela do universo, fazer música é mágico e magnífico.


Até a próxima amigos do som!
 

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