Sustentabilidade na Iluminação Cênica: conexões e desafios

  

 

 

A Iluminação Cênica compreende diversas soluções – técnicas, estéticas e conceituais – desenvolvidas para o enaltecimento e valorização de elementos em um conjunto de cenas elaboradas para revelar, impressionar e sensibilizar. Novas tecnologias surgem constantemente, proporcionando equipamentos e dispositivos mais precisos, versáteis e energeticamente eficientes. E nesse contexto, a sustentabilidade cada vez mais aparece como uma questão central: estaria a Iluminação Cênica caminhando nesse sentido? Nessa conversa, as soluções sustentáveis serão confrontadas com os resultados presentes nos palcos, sem buscar respostas definitivas, mas elencando as principais dúvidas e indagações sobre essa intrigante temática.
 

desenvolvimento de novas tecnologias e o aprimoramento daquelas atuais acompanham a evolução humana desde sempre. Isso ocorre em todas as áreas de conhecimento e produção, no dia a dia das fábricas e indústrias, nas relações diárias – pessoais e profissionais. Isso ocorreu com mais intensidade no último século, com acentuada evolução dos equipamentos e ferramentas utilizados na oferta de facilidades e conforto. Mas, ao mesmo tempo, ocorreu uma excessiva exploração dos recursos naturais existentes.

 
No setor de entretenimento, a Iluminação Cênica, na condição de um componente essencial integrante do “produto” espetáculo, tem sido significativamente impactada por diversas tecnologias relacionadas aos equipamentos, dispositivos e periféricos (incluindo todos os elementos de estrutura e infraestrutura) e mesmo interações e comportamento dos públicos participantes.


Diversos são os benefícios percebidos por essas evoluções. Materiais mais resistentes, e consequentemente mais duradouros, permitem que os investimentos nesses equipamentos tenham retorno em prazos mais atrativos. Os dispositivos de iluminação passaram de lâmpadas de filamento (ou mesmo lâmpadas de descarga) para os LEDs, que dispensam mais apresentações e ainda estão em estágio de aperfeiçoamento e transformação. Outras vantagens ainda estão significativamente associadas ao consumo de energia elétrica necessária à obtenção dos resultados esperados. De fato, a eficiência energética atribuída às soluções com LEDs permite a redução de aproximadamente noventa por cento do consumo de energia elétrica se comparados com outras fontes de iluminação artificial.

Entretanto, surge uma constatação inicial também associada ao uso dos LEDs na iluminação artificial (em geral). Ao mesmo tempo em que essas novas tecnologias permitiram ganhos significativos – tanto na estética da luz quanto, e principalmente, às questões energéticas – a substituição das lâmpadas convencionais pelas similares com LEDs também representava mais versatilidade e mais complexas e completas possibilidades com a utilização de automação e dimerização, além de substancial redução da emissão do infravermelho – e consequentemente, no aquecimento resultante - o que, para os espetáculos, foi revolucionário.

Ao mesmo tempo em que essas possibilidades também conferem ao uso do LED uma otimização sem similares na História da Iluminação Cênica, esse mesmo upgrade não representou uma simplificação ou redução quantitativa, esperada e projetada a partir dessa revolução tecnológica. 


Entra em cena (literalmente) o intitulado efeito bumerangue, responsável por descrever as consequências decorrentes das evoluções tecnológicas. Se esse aperfeiçoamento tecnológico confere um incremento perceptível na eficiência obtida a partir da utilização de um determinado recurso mais desenvolvido em relação a uma tecnologia anterior, nessa condição torna-se maior a probabilidade de incremento da demanda desse recurso ou produto específico.

Na prática, os palcos nunca estiveram tão iluminados com LEDs na atualidade quanto em relação ao período histórico marcado pela utilização quase que exclusiva de lâmpadas halógenas para os mesmos (ou similares) instrumentos de Iluminação Cênica. Se isoladamente cada luminária – comparativamente analisada pela substituição de lâmpadas incandescentes por LEDs – apresenta uma redução imponente no consumo de energia elétrica, a multiplicação na demanda desses instrumentos mais contemporâneos não representou um passo tão representativo e espaçado na busca de soluções completamente sustentáveis.

Para analisar a sustentabilidade – aqui definida como um conjunto de ideias, estratégias e ações dimensionadas para a busca de soluções e alternativas no uso dos recursos naturais, a partir de práticas alinhadas aos mais efetivos resultados ecológicos, econômicos, sociais e culturais – deveriam ser levados em conta diversos aspectos que envolvem os eventos – shows ou festivais –, e que compreendem os materiais e formas de divulgação; alimentos, bebidas e objetos consumidos nos eventos; estrutura e infraestrutura; entre outros elementos que geram resíduos, minimizando os impactos ambientais. Especificamente em relação à Iluminação Cênica, dois aspectos deverão ser considerados: consumo energético e transporte.


A eficiência luminosa (que é a relação entre o fluxo luminoso ou ‘energia luminosa’ resultante das fontes luminosas, medido em Lumens, e a potência consumida por esta fonte, em Watts) demonstra a melhor condição de iluminação com mais baixo consumo. Nesse aspecto, os LEDs são de fato os dispositivos que apresentam os melhores desempenhos no mercado, considerados os resultados físicos. Para a estética da luz, no entanto, não há conclusões definitivas sobre o tema, mesmo que os estudos avancem em prognósticos cada vez mais naturais e efetivos.


Outro tema relevante quanto ao uso das lâmpadas LEDs está associada à logística reversa – ou seja, destinação final dos produtos descartados, pela articulação entre fabricantes, importadores, distribuidores, varejistas e consumidores. As tecnologias de materiais empregados na produção desses dispositivos (e lâmpadas) LEDs permitem a reciclagem quase que total dos elementos empregados na confecção – entretanto, cabe ressalva pela presença de componentes tóxicos e contaminantes. A própria Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010) cita no artigo 31 os sistemas de logística reversa para lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista (incisivo V). Não há menção às lâmpadas LEDs, especificamente; no entanto, a vinculação desses dispositivos a “produtos eletroeletrônicos e seus componentes” (inciso VI) ganha respaldo também em consonância pelas recomendações da Associação Brasileira da Indústria de Iluminação (Abilux).

Se a iluminação com LEDs apresenta vantagens e pontos positivos do mais amplos e diversificados, além das observações acima destacadas, uma das principais preocupações não está totalmente relacionada apenas aos instrumentos de Iluminação Cênica. As emissões de dióxido de carbono (CO2) se tornam relevantes e tema central e recorrente na lista dos mais impactantes agentes de degradação e impactos ambientais, quando associado à ‘indústria’ de shows e entretenimento.


Uma vez que esse setor produtivo envolve diversas conexões comerciais e vinculadas à prestação de serviços, a mobilidade de pessoas e insumos se torna significativa no resultado final. Assim, o dimensionamento do dióxido de carbono emitido pode ser mensurado em projeções, considerando desde o deslocamento de artistas e públicos, transporte de equipamentos e outros elementos integrantes das estruturas e infraestruturas, serviços complementares e outros consumos diretos – tais como geradores de energia elétrica.


Tais medidas tendem a oferecer diagnósticos que possibilitem a busca de modos operacionais de redução nas emissões de dióxido de carbono, e até mesmo “créditos de compensação”, por meio de ações preventivas ou posteriores implementadas por organizações ou empresas especializadas, de maneira a suprir a natureza com planos de manejo para planejar ações em uma determinada área potencialmente impactada, em contrapartida aos danos dimensionados.


Em um momento histórico nos quais os impactos ambientais têm sido constantemente abordados por diversos motivos, cabe também à Iluminação Cênica o seu papel de protagonista na busca de equilíbrio, mediante desafios a serem analisados, avaliados e superados, como também a eficiência, técnica, econômica e conceitual, proporcionando bem-estar e atratividade – além de sensações e emoções únicas. Poderia ser isso também realizado a partir de inciativas sustentáveis?

 

Abraços e até a próxima conversa!
 

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