Anuncio topo
COLUNISTAS

Entre lounges e bolhas espaciais

15/02/2021 - 08:24h
Atualizado em 15/02/2021 - 10:34h


 

Por mais pessimista que fosse a projeção para a pandemia da Covid-19, possivelmente a maioria dos profissionais da indústria do entretenimento não imaginava que o prazo de vigência e propagação dessa doença continuaria para além de 2020. Prova disso foi a remarcação de shows internacionais que aconteceriam no primeiro semestre do ano passado, tais como das bandas americanas Metallica (em abril) e Kiss (maio) para o segundo semestre, mas que, em função da continuidade da condição pandêmica, esses e outros incontáveis eventos foram adiados, inicialmente para alguns meses mais tarde, mas atualmente sem previsão para a realização, e outros completamente cancelados.

 

Com essa estimativa, empresas e profissionais que atuam nas diversas posições e funções da produção de shows e espetáculos postergaram projetos, programaram ajustes, prorrogaram expectativas. Não exatamente nessa ordem, mas o fato que todas as medidas, em um primeiro momento, com mais efetivo ou progressivo impacto, não atenderam às necessidades essenciais desses profissionais, pela garantia dos empregos, pela regularidade das receitas, pela continuidade das atividades profissionais.

 

 

Figura 1: Indústria dos shows e espetáculos paralisada com a pandemia da Covid-19. Fonte: Billboard/Lindrik/Getty Images

 

 

Mas o show não pode ficar parado e deve continuar. Conforme abordado nessa coluna em conversas anteriores, não faltaram tentativas e até modelos, replicados em muitos momentos à exaustão. No início de tudo, as “lives”. Depois, shows em formatos Drive-Ins com espaços próprios e/ou adaptados e alguns eventos “testes”, com a presença de público, com restrições ou acompanhamento científico em configurações e estruturas completamente diferentes. Quase ao mesmo tempo, manifestações e protestos ocorreram com profissionais do setor, pela cobrança de soluções. O que fazer?

 

Em um cenário ideal, a vacinação em massa seria capaz de oferecer condições de participação com a minimização dos riscos de contágio e transmissão. Na atual situação, especificamente na realidade brasileira, com a administração das vacinas realizada ainda em uma primeira fase, com algumas irregularidades e sem a quantidade necessária dos insumos essenciais para todos os priorizados no primeiro grupo, e, principalmente, sem planejamento adequado, essa perspectiva, se persistir na velocidade e nas decisões nas várias esferas de decisões e gestão, acarretaria meses e possivelmente anos para se concretizar.

 

 

Figura 2: Shows em perspectiva turva e indefinida – quando terão definições?. Fonte: Alternative Press/Rachel Lynette French/Unsplash

 

 

Cabe sempre destacar que os shows e espetáculos são atividades presenciais e efêmeras, independentemente do número de participantes e expectadores. A presencialidade proporciona surpresa, interação, sensações e emoções que são subjetivas e singulares. O caráter de efemeridade confere a esses eventos a premissa do acontecimento como fato localizado na relação espaço-tempo, que ocorre uma única vez, com espontaneidade e percepções também distintas. Então a partir desses elementos, quais seriam as próximas tentativas e alternativas?

 

Com o controle da epidemia (em um contexto local), restabelecem-se as atividades, inclusive os shows. Embora isso ainda não pareça provável na maioria dos países (senão, quase a totalidade das nações), na Nova Zelândia, como exemplo, no fim de janeiro de 2021, um show da banda de Rock’n’Roll neozelandesa Six60 reuniu 22.000 fãs no dia 23 do mês passado na cidade de Hastings, na região de Hawke's Bay, sem a necessidade do uso de máscaras ou distanciamento social. E não foi um show único: foi a segunda data da turnê, que recebeu 20.000 espectadores na cidade de Waitangi, na região The Northland, no dia 16 de janeiro. Para ambos os shows, a triagem ocorria também com um check-in realizado com a captura de um QR Code para rastreamento de possíveis casos. Todos os participantes passaram a ser monitorados, com a ajuda de recursos das tecnologias digitais de informação e comunicação (TDICs). O controle passa a ser um processo e não somente uma etapa.

 

 

 

Figura 3: Check-In para registro e monitoramento nos shows (Nova Zelândia). Fonte: Getty Images

 

 

Deve-se também destacar a relação de experiência que um show proporciona. Mesmo na coletividade, há uma capacidade de experimentação incomparável que necessita de uma prática possibilitada pela vivência dos acontecimentos. A experiência estética propiciada pelos shows e espetáculos também confere um potencial de reconhecimento, resposta e reações a uma apresentação traduzida em sensações de satisfação, prazer, diversão e entretenimento. E cabe à iluminação cênica essa dinâmica e interação estética e visual, singular e insubstituível.

 

Se o objetivo é a experiência, inovação e criatividade podem ser combustíveis poderosos na oferta de vivências únicas e contextualizadas com essa realidade, repleta de cuidados, protocolos e procedimentos incomparáveis àqueles que eram realizados há mais de dez meses. Por exemplo, a triagem, realizada com ingressos, pulseiras e outros elementos de reconhecimento setorizável para os públicos, requer, na atualidade, controles sanitários e comportamentais anteriormente inimagináveis.

 

Mas os itens mais importantes e que afastam a realidade atual das anteriores (e possivelmente posteriores) está vinculado à proteção e distanciamento social. A proteção, basicamente composta pelo uso de máscaras, ainda se torna um elemento de discussão, inacreditavelmente, principalmente pela persistência nas relações de desprezo e negacionismo por muitos que ainda desacreditam ser esse um item capaz de minimizar ou reduzir significativamente as possibilidades de contágio. O distanciamento social também se torna outro elemento essencial, pois, a partir de determinados afastamentos entre as pessoas, tem a capacidade de impedir a transmissão do vírus Sars-Cov-2.

 

 

Figura 4: Show de Sam Fender no Virgin Money Unity Arena (Newcastle, Inglaterra) (agosto/2020). Fonte: PA/SIPA/CNN International

 

 

Para estabelecer um programa educacional e de conscientização, seriam necessários ainda mais meses e anos. Para tentar oferecer produtos – considerando que um show e/ou um espetáculo se configura como um produto cultural, de entretenimento, entre outros aspectos – duas estratégias, bem interessantes, começaram a ser colocadas em práticas, com maior ou menor escala.

 

Em diversos lugares no Brasil e em outros países, a criação de células, lounges ou outra denominação para espaços com separação física na área dos públicos participantes, foi na prática o estabelecimento de uma estratégia parcialmente segura e bem próxima do “antigo normal”. Com redução da capacidade de público, e limitação no número de pessoas em cada espaço comum, essa alternativa ocorreu em alguns eventos no segundo semestre de 2020.

 

Como exemplos, um show do músico inglês Sam Fender no Virgin Money Unity Arena, Gosforth Park, Newcastle, norte da Inglaterra, para aproximadamente 2500 fãs acomodados em 500 plataformas elevadas, capazes de comportar até cinco pessoas, cada, realizado em agosto de 2020. No Brasil, o projeto Jardim Das Artes realizou, na Cidade das Artes (Barra da Tijuca, Rio de Janeiro), um show do grupo de pagode brasiliense Menos é Mais para uma estrutura com 150 lounges com capacidade máxima de seis pessoas, que tivessem um mesmo convívio e/ou relações familiares, sendo considerado um distanciamento de dois metros entre cada estrutura, realizado em outubro de 2020.

 

 

Figura 5: Show do grupo Menos é Mais (outubro/2020). Fonte: Metrópolis/Jardim das Artes

 

 

Outra iniciativa que teve uma repercussão significativa foi uma apresentação da banda americana The Flaming Lips, realizada no fim de janeiro de 2021 (dias 22 e 23), na cidade de Oklahoma, no Estado de mesmo nome, Estados Unidos. Em cada show, 100 balões esféricos foram distribuídos na plateia para a acomodação de até três pessoas em cada estrutura globular. Deve-se destacar que foram realizados testes no ano passado, sendo que o uso da “bolha espacial” já era realizado pelo vocalista, Wayne Coyne, antes mesmo da pandemia da Covid-19.

 

Como medidas de segurança, o acesso às bolhas somente foi realizado com a apresentação dos ingressos e utilização de máscaras, além do distanciamento social até o acesso às unidades celulares. De acordo com os estudos sobre essas estruturas, elas retêm oxigênio suficiente para três pessoas respirarem por aproximadamente uma hora antes da renovação do ar interno. Cada bolha também possui um ventilador interno a pilhas, uma toalha (para a manter visibilidade, uma vez que a respiração condensada deixa as superfícies internas turvas) e há instruções claras para o comportamento do público (por exemplo, a toalha também serve como sinalização).

 

Figura 6: Show da banda americana The Flaming Lips - The Criterion Theatre (22/01/2021). Fonte: Paste

 

 

Com essas alternativas, outras surgirão, de maneira a atender os requisitos do mercado e da indústria e naturalmente as necessidades das demandas represadas há meses na busca de lazer e entretenimento. No entanto, as medidas sanitárias ainda perpetuarão por um período impreciso e incalculável, sendo fundamentais para a garantia do bem-estar de todos os envolvidos. Assim que surgirem mais novidades e alternativas, esta coluna será um dos espaços de discussão e fomento de iniciativas que tragam expectativas promissoras e esperança para momentos melhores.

 

Abraços e até a próxima conversa!!!

 

 

Entre lounges e bolhas espaciais
Cezar Galhart

COMENTÁRIOS

Depois de um ano de empresa 3M pude fazer o bendito carnê e comprei uma vitrolinha (em 12X) e na mesma hora levei Pirão, Quatro (Que era o novo), Es´pelho Cristalino e Vivo do Alceu, fiquei um ano ouvindo e pirando sem parar, depois vi o show do Quatro em Campinas. Considero o mais equilibrado de todos, sendo que sempre pendendo pro rural e nem tanto pro urbano, um disco atemporal podendo ser ouvido em qualquer situação, pois levanta o astral mesmo. No momento, Chuva no campo é ''a favorita'', mas depois passa e vem outra, igualzinho à aquela banda de Liverpool, manja????

- Ademilson Carlos de Sá

B R A V O!!! Paulo Farat não esqueça: “Afina isso aí moleque!” Hahahaha Tremendo profissional, sou teu fã, Grande abraço!

- Dudu Portes

Show é sensacional. Mas a s sensação intimista de parecer que a live é um show particular, dentro da sua casa, do seu quarto, é impagável. Parabéns família, incluindo Guarabyra e Tommy...

- Ricardo Amatucci

Paulo Farat vai esta nas lives do Papo Na Web a partir de amanha apresentando "Os Albuns Que Marcaram As Nossas Vidas"" Não percam, www.facebook.com/depaponaweb todas as terças-feiras as 20:00 horas

- Carlos Ronconi

Caro Luiz Carlos Sá, as canções que vocês fazem são maravilhosas, sinto a energia de cada uma. Tornei-me um admirador do trabalho de vocês no final dos anos 1970 com o LP Quatro e a partir de então saí procurando os discos de vocês, paguei um preço extorsivo pelo vendedor, os LP's "Casaco Marrom" do Guarabyra e "Passado, Presente e Futuro" (primeiro do Trio), mas valeu. tenho todos em LP's e CD's até o Antenas, depois desse só em CD's e o DVD "Outra Vez Na Estrada" exceto o mais recente "Cinamomo" mas em breve estarei com ele para curtir. A última vez que vi um show da dupla (nunca vi o trio em palco), foi no Recife no dia 16/04/2016 na Caixa Cultural, vi as duas apresentações. Levei dois bolos de rolo pra vocês, mas o Guarabyra não estava. Quero registrar que tenho até o LP "Vamos Por Aí", todos autografados, que foi num show feito no Teatro do Parque, as apresentações seriam nos 14,15 e 16/10/1992 mas o Guarabyra perdeu o voo e só foram dois dias, no dia do seu aniversário e outro no dia 16. Inesquecível. Agora estou lendo essas crônicas maravilhosas. Grande abraço forte e fraterno e muita saúde e sucesso pra vocês, sempre. P.S. O meu perfil no Facebook é Xavier de Brito e estou lá como Super Fã.

- Edison Xavier de Brito

Me lembro de ter lido algumas destas crônicas dos discos quando voce as publicou no Facebook em 2013, Sá. Muito emocionante reler e me emocionar de novo. Voces foram trilha sonora importantíssima dos últimos anos da minha vida. Sou de 1986, portanto de uma geração mais nova que escuta voces. Gratidão e vida longa a voces!

- Luiz Fernando Lopes

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Escreva sua opinião abaixo*