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COLUNISTAS

Highlights de uma era: 50 anos do Isle Of Wight Festival 1970

31/08/2020 - 14:15h
Atualizado em 01/09/2020 - 12:38h


 

 

 

Acima: Figura 1 - Vista panorâmica do Isle of Wight Festival 1970. Fonte: Flickr/Jean Paul Margnac

 

Festivais musicais se configuram em eventos específicos, direcionados a um estilo ou outros similares, ou realizações que refletem a cena musical de um período. Realizado há 50 anos, o mais importante Festival da Ilha de Wight se tornou uma das mais importantes referências de todos os tempos. Nesta conversa, aspectos da produção e da iluminação cênica desse acontecimento icônico foram abordados, com destaques para os fatos e histórias que cercaram a realização deste festival marcando uma era.

 

A década de 1960 condensou a ascensão e ápice das apresentações e espetáculos musicais, desde os saraus nos ginásios escolares e sedes culturais com Harry Belafonte e seu Lighting Designer Chip Monck; The Beatles, com suas emblemáticas apresentações no Cavern Club, em Liverpool (Inglaterra) e em Hamburgo (Alemanha); programas de televisão, como o Ed Sullivan Show, nos Estados Unidos, e Jovem Guarda (TV Tupi) que projetaram ícones da música, no Brasil e no mundo; as primeiras apresentações de Jimi Hendrix no Scotch Of St James, em Londres; Festivais da MPB a partir da metade da década; de Filmore West a Filmore East, unindo diversos estilos de costa a costa dos Estados Unidos; e o Festival de Woodstock.

 

Seria impossível elencar todos os grandes fatos e acontecimentos que iniciariam e fechariam uma década que dividiu a História da Música, nos aspectos conceituais, comerciais, ideológicos, políticos, culturais e sociais. No entanto, pode-se afirmar que a década de fato presenciou o nascimento da Beatlemania, com a transmissão televisiva da banda The Beatles, no dia 09 de fevereiro de 1964, e encerrou um ciclo com a realização do terceiro Isle of Wight Festival, ou Festival da Ilha de Wight, de 26 a 30 de agosto de 1970.

 

Deve-se, contudo, contextualizar alguns importantes eventos que o precederam. Até a metade daquela década, não havia a oferta de grandes festivais de música com caráter promocional. Havia sim a tradição de festivais competitivos, tais como o Festival della Canzone Italiana, que viria a ser conhecido como Festival de Sanremo, realizado desde 1951 no cassino e cidade que nomeiam o evento, e posteriormente o European Grand Prix, realizado pela primeira vez em 1956, na cidade de Lugano, na Suíça (e que viria a se transformar no Eurovision Song Contest, realizado anualmente desde então em sedes diferentes – com exceção de 2020, em decorrência da pandemia do COVID-19). No Brasil, destacou-se o Festival de Música Popular Brasileira 1960, promovido pela TV Excelsior e realizado naquele ano com eliminatórias nas cidades de Guarujá (SP) e Petrópolis (RJ), além da final na capital fluminense, e o I Festival de Música Popular Brasileira. realizado em 1965 na capital paulista e promovido pela TV Record (ambos inspirados no Festival de Sanremo).

 

 

Mas dentre outras realizações, o primeiro grande festival a ser realizado para a demonstração de repertório autoral de bandas, e da cena musical americana, foi o Monterey Pop Festival, na cidade de Monterey, California, no ano de 1967. Nesse mesmo ano, também seria realizada a primeira edição do Montreaux Jazz Festival, na cidade de Montreaux, na Suíça.

 

O público de 200.000 pessoas que compareceram no evento (beneficente, sem cachê para os artistas), o sistema de sonorização projetado por Abe Jacob e a iluminação a cargo de Chip Monck tornaram o Monterey Pop Festival um evento seminal para a história do Rock’n’Roll e para a história dos grandes festivais. Também, acrescenta-se a tudo isso o fato desse evento ter sido gravado pelo estúdio móvel do engenheiro Wally Heider com qualidade incomparável até então, possibilitando ainda o registro em vídeo sincronizado pelo diretor e documentarista Don Alan "D. A." Pennebaker.

 

O sucesso do Monterey Pop Festival influenciaria e inspiraria outros, como o Miami Pop Festival (1968), Atlanta International Pop Festival (1969 e 1970), Altamont Speedway Free Festival (1969) e finalmente, o mais conhecido e referenciado festival de todos os tempos, o Woodstock Music & Art Fair, ou simplesmente, Woodstock (1969).

 


Figura 2: Show da banda americana Chicago no Isle of Wight Festival 1970 (28/08/1970). Fonte: Red Heart Blue Sign

 

Na Europa, e especificamente, na Grã-Bretanha, já havia sido realizadas duas edições de um evento intitulado Isle of Wight Festival: na primeira, um público de 10.000 espectadores; na segunda, aproximadamente 150.000 pessoas. O Festival da Ilha Wight se tornaria o primeiro festival realizado a céu aberto em toda a Europa, e principalmente o primeiro a reunir bandas em evidência no cenário musical, dos mercados europeu e americano.

 

Com essa credencial foi então realizada a terceira edição do festival, também organizada pela empresa Fiery Creations Ltd., dos irmãos Ray, Bill e Ron Foulk. Muito habilidosos, os irmãos Folk já haviam viabilizado a vinda de Bob Dylan como highlight da segunda edição. No entanto, para a terceira, apostaram em bandas e artistas que se destacavam na efervescência da Psicodelia, entre outros, que se tornariam ícones na História do Rock’n’Roll.

 

A expectativa criada proporcionou alguns impactos. Moradores da ilha protestaram e conseguiram uma mudança do local do evento, que havia sido realizado em 1969 em local próximo à Wooton Bridge. Após tensas negociações, os irmãos Foulk conseguiram alugar uma fazenda no oeste da ilha, em Afton Down, de um fazendeiro chamado David Clarke, pelo valor de oito mil libras esterlinas. Este local, na encosta, com fortes ventos cruzados, viria a ser um problema, pois tornaria o evento, em alguns momentos, inaudível.

 


Figura 3: Show da cantora americana Joni Mitchell no Isle of Wight Festival 1970 (29/08/1970). Fonte: AM On The Radio

 

 

O outro problema foi duplo. Com uma estimativa de até 200.000 participantes, a chegada de aproximadamente 600.000 pessoas – o triplo esperado, representando seis vezes a população da ilha – causou caos no ferry boat de acesso aos participantes (e uma ‘invasão’, para os moradores), problemas com alimentação e conforto (banheiros improvisados e chuveiros com água fria, somente) e naturalmente, comprometimento na estrutura de sonorização – ínfima para uma dimensão espacial e de distribuição do público (somado ao problema dos ventos).

 

De qualquer maneira, o evento, cuja plateia colocou o festival como o maior público de todos os tempos no Guinness World Record, foi realizado em cinco dias, com 50 artistas e bandas. Nos dois primeiros – 26 e 27 de agosto – artistas ainda incipientes e mesmo desconhecidos, como Judas Jump, Redbone, Terry Reid e os tropicalistas brasileiros Gilberto Gil e Caetano Veloso.

 

A partir do dia 28 de agosto, o line-up traria highlights divulgados oficialmente. Cactus, Family, Taste e Procul Harum fizeram apresentações no terceiro dia (sexta-feira), noite encerrada pela banda americana Chicago. As apresentações se iniciavam nas tardes, iluminadas pelo Sol em pleno verão europeu. Uma iluminação suplementar foi utilizada no palco no período vespertino e principalmente noturno – com refletores PAR 56, e lâmpadas halógenas de 500W, além dos incomparáveis refletores PAR 64 com lâmpadas halógenas de 1.000W e filtros (gel) predominantemente nas cores vermelho e âmbar, tanto para sidelighting (na laterais do palco) como para o frontlighting (frontais, na parte superior). Torres posicionadas com distância de 20 metros do palco, e nas laterais, contavam com canhões seguidores, também com filtros (vermelhos).

 


Figura 4: Palco visto da plateia no show da banda inglesa The Who no Isle of Wight Festival (29/08/1970). Fonte: John McCoy

 

Para minimizar os problemas com a sonorização – que resultou em ensurdecedoras vaias, que somadas a outros problemas acabariam rebatizando o local como Devastation Hill – a banda inglesa The Who, que fecharia a quarta noite, emprestou parte do seu equipamento, como também fez a banda inglesa Emerson Lake And Palmer. Com isso, o sábado (dia 29) teria apresentações emblemáticas de Miles Davis, Sly & The Family Stone, Ten Years After, Joni Mitchell, além de apresentações das bandas Free, The Doors e The Who.

 

O festival ainda seria a partir do sábado registrado em filmagem de 35 mm, sob a direção do diretor Murray Lerner (vencedor do Oscar de melhor documentário em 1980), além de áudio com ótima qualidade (e que resultaria em diversos álbuns “ao vivo” dos artistas e bandas participantes). Com isso, também se somaram àquele dia de evento iluminação especial para os registros em vídeo, com refletores de 25.000W operados na parte de trás do palco. Coube ao Stage Manager da banda The Who, John "Wiggy" Wolff, a direção para a operação desses refletores. Tornou-se lendária a operação desses equipamentos – pois atrairiam milhares de insetos para o palco. Inclusive, esse show da banda inglesa The Who é considerado por muitos um dos maiores de todos os tempos. Além disso, "Wiggy" ainda pediria que os filtros fossem removidos (ou deixados apenas os filtros âmbares).

 

Para o encerramento, no domingo, dia 30 de agosto, shows de Jethro Tull, The Moody Blues, Joan Baez, Leonard Cohen, sendo destinado a Jimi Hendrix, com Billy Cox no baixo e Mitch Mitchell na bateria, aquele que seria uma das últimas apresentações em vida, já na madrugada de 31 de agosto (Hendrix seria encontrado morto no dia 18 de setembro daquele ano).

 


Figura 5: Encerramento apoteótico do guitarrista americano Jimi Hendrix e banda no Isle of Wight Festival 1970 (30/08/1970). Fonte: Charles Everst/BBC

 

 

Se o festival é lembrado por muitos como um sucesso conceitual, e que deixaria um legado para diversos outros eventos desde então, seria também marcado por campanhas contrárias, desafios organizacionais e um fracasso financeiro, sem lucro. Com as bilheterias abandonadas no último dia, o festival foi declarado gratuito.

 

Na celebração dos 50 anos desse evento, a pandemia do novo coronavírus também impediu a festa – que ocorreria com uma comemoração especial em 2020. No entanto, perpetua-se esse festival como um divisor de águas, como o encerramento da Era de Aquário e dos ideais que permearam a década de 1960, para se eternizar como um dos mais importantes e definitivos marcos do Rock’n’Roll de todos os tempos.

 

Abraços e até a próxima conversa!!!

 

 

Highlights de uma era: 50 anos do Isle Of Wight Festival 1970
Cezar Galhart

COMENTÁRIOS

Depois de um ano de empresa 3M pude fazer o bendito carnê e comprei uma vitrolinha (em 12X) e na mesma hora levei Pirão, Quatro (Que era o novo), Es´pelho Cristalino e Vivo do Alceu, fiquei um ano ouvindo e pirando sem parar, depois vi o show do Quatro em Campinas. Considero o mais equilibrado de todos, sendo que sempre pendendo pro rural e nem tanto pro urbano, um disco atemporal podendo ser ouvido em qualquer situação, pois levanta o astral mesmo. No momento, Chuva no campo é ''a favorita'', mas depois passa e vem outra, igualzinho à aquela banda de Liverpool, manja????

- Ademilson Carlos de Sá

B R A V O!!! Paulo Farat não esqueça: “Afina isso aí moleque!” Hahahaha Tremendo profissional, sou teu fã, Grande abraço!

- Dudu Portes

Show é sensacional. Mas a s sensação intimista de parecer que a live é um show particular, dentro da sua casa, do seu quarto, é impagável. Parabéns família, incluindo Guarabyra e Tommy...

- Ricardo Amatucci

Paulo Farat vai esta nas lives do Papo Na Web a partir de amanha apresentando "Os Albuns Que Marcaram As Nossas Vidas"" Não percam, www.facebook.com/depaponaweb todas as terças-feiras as 20:00 horas

- Carlos Ronconi

Caro Luiz Carlos Sá, as canções que vocês fazem são maravilhosas, sinto a energia de cada uma. Tornei-me um admirador do trabalho de vocês no final dos anos 1970 com o LP Quatro e a partir de então saí procurando os discos de vocês, paguei um preço extorsivo pelo vendedor, os LP's "Casaco Marrom" do Guarabyra e "Passado, Presente e Futuro" (primeiro do Trio), mas valeu. tenho todos em LP's e CD's até o Antenas, depois desse só em CD's e o DVD "Outra Vez Na Estrada" exceto o mais recente "Cinamomo" mas em breve estarei com ele para curtir. A última vez que vi um show da dupla (nunca vi o trio em palco), foi no Recife no dia 16/04/2016 na Caixa Cultural, vi as duas apresentações. Levei dois bolos de rolo pra vocês, mas o Guarabyra não estava. Quero registrar que tenho até o LP "Vamos Por Aí", todos autografados, que foi num show feito no Teatro do Parque, as apresentações seriam nos 14,15 e 16/10/1992 mas o Guarabyra perdeu o voo e só foram dois dias, no dia do seu aniversário e outro no dia 16. Inesquecível. Agora estou lendo essas crônicas maravilhosas. Grande abraço forte e fraterno e muita saúde e sucesso pra vocês, sempre. P.S. O meu perfil no Facebook é Xavier de Brito e estou lá como Super Fã.

- Edison Xavier de Brito

Me lembro de ter lido algumas destas crônicas dos discos quando voce as publicou no Facebook em 2013, Sá. Muito emocionante reler e me emocionar de novo. Voces foram trilha sonora importantíssima dos últimos anos da minha vida. Sou de 1986, portanto de uma geração mais nova que escuta voces. Gratidão e vida longa a voces!

- Luiz Fernando Lopes

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

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