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COLUNISTAS

Iluminação: a história do mapa de palco

10/08/2021 - 14:53h
Atualizado em 25/08/2021 - 11:33h


 

A evolução da Iluminação Cênica, pelos instrumentos, conhecimentos e aplicações, envolve diversas tecnologias, experiências e inovações. Nas pesquisas e publicações decorrentes disso, o processo de representação dos projetos, com imagens bidimensionais e tridimensionais, foi iniciado mais efetivamente no início do século XX. A partir desta conversa, serão abordados vários aspectos, históricos, acadêmicos, tecnológicos e operacionais, buscando explorar elementos múltiplos para a leitura da escrita da iluminação cênica: o mapa de palco.

 

Muito se discute se a iluminação cênica é uma linguagem, tal como o cinema, ou uma manifestação, tal como o som. Como expressão, produtora de sentidos, torna-se capaz de estimular não somente a visão, mas proporcionar uma experiência única, mesmo que efêmera, a partir de diversas percepções, sensações e sentimentos.

 

Como expressão, a iluminação cênica adquiriu um status diferenciado nas artes performáticas, cujo desenvolvimento, discutido nas conversas desta coluna, recebeu contribuições de diversos iluminadores, pesquisadores, inventores e outros, possibilitando um aprimoramento das técnicas e métodos, para a montagem, ajustes, correções, intenções, propósitos.

 

Nesse conjunto de contribuições para a expressão da iluminação cênica, os pioneiros e precursores desenvolviam um trabalho que, além de autoral e singular, estava sujeito às tecnologias disponíveis, às condições impostas e, possivelmente, cada montagem se tornava única, em função de todos esses aspectos, e principalmente, por não existir ainda uma padronização.

 

Mesmo com o início da industrialização – e, efetivamente, durante décadas – as estruturas dos teatros e casas de espetáculos eram singulares, díspares e, na maioria dos casos, limitadas. A necessidade de adaptação era constante e desafiadora. Como principal reflexo disso, os projetos eram produzidos “in loco” com as condições existentes e com resultados imprevisíveis.

 

 

Figura 1: Aspecto de um mapa de palco (lighting plot) contemporâneo. Fonte: OnStage Lighting.

 

 

Com essas dificuldades, sempre houve um interesse e necessidade de registro da iluminação cênica como expressão, como linguagem. Os primeiros profissionais que buscaram um entendimento nesse contexto eram eletricistas, que produziam representações de acordo com seus conhecimentos e padrões estabelecidos, com aprendizado prático ou acadêmico, mas que entendiam a iluminação cênica como um conjunto de circuitos elétricos (de fato, são) mas sem as particularidades próprias da atividade, do processo, da operação.

 

As pesquisas históricas sobre essa temática são escassas, e provavelmente muitos materiais se perderam com o tempo. Até o início do século XX, as ilustrações e imagens existentes eram produzidas em perspectivas, na maioria das vezes por pintores ou arquitetos, que representavam aspectos da iluminação com traços artísticos e hachuras. Possivelmente, a primeira representação bidimensional de um projeto de iluminação cênica tenha sido elaborada pelo eletricista, inventor e iluminador Louis Hartmann ainda na década de 1920.

 

Pela sua importância para a história da iluminação cênica, Hartmann muitas vezes nem é citado como um dos precursores na criação de instrumentos específicos para teatros e cinema, inclusive, além de importantes contribuições com experiências no campo da psicodinâmica das cores e no uso de filtros (que ainda serão abordados em conversa futura). Sua biografia fica negligenciada pela insuficiência de dados para a compreensão de sua trajetória.

 

 

Figura 2: Ilustração do laboratório de iluminação de Belasco e Hartmann (circa 1925). Fonte: Rosco.

 

 

Ele mesmo tomou a iniciativa de contar parte de sua história. Ao escrever e publicar “Theatre Lighting (A Manual of the Stage Switchboard)” (em tradução livre “Iluminação para o Teatro - um manual para o painel de controle do palco”), Hartmann produziu um testemunho histórico e um relato ímpar sobre a produção e operação da iluminação cênica naquele período. Ricamente ilustrado com diversas perspectivas relacionadas às suas orientações, detalhamento e dicas, destaca-se um diagrama elaborado para a montagem de The Rose Of The Rancho dirigida por David Belasco (1853-1931) (diretor, como também autor de uma obra essencial na história do teatro) e realizada em 1906 no The Metropolitan Opera House (Nova Iorque, EUA).

 

Pela sua expertise como eletricista, Hartmann trouxe à luz a primeira representação publicada em planta, mesmo sem escala e com detalhamento em baixa resolução, de maneira a compreender o processo de montagem, instalação e disposição dos instrumentos de iluminação cênica no palco, além de uma lista de equipamentos e descritivo complementar para a compreensão dessa montagem.

 

Essa obra, além do incentivo e prefácio do próprio Belasco, teve importante estímulo do professor Stanley McCandless (1897-1967), que já havia implementado um primeiro programa de iluminação de palco em 1927 e, lecionando na Universidade de Yale, publicou em 1932, A method of lighting the stage, uma das mais importantes e referência até atualidade.

 

Até a metade da década de 1930, alguns avanços foram produzidos na academia, principalmente com McCandless e na Broadway, especialmente com Abraham “Abe” Feder (1908-1997), perfeccionista e detalhista. Feder expandiu os diagramas propostos por Hartmann para um modelo mais estruturado, em escala, e com uma distribuição mais aproximada com o projeto executado. Complementar à representação bidimensional, um dossiê completo, com gráficos de projeção da iluminação, fotografias, listas de instrumentos de iluminação com atributos, entre outros documentos, com a referência que seria eternizada com essa representação: Light Plot.

 

 

Figura 3: Mapa de palco (“Blueprint”) de Feder para a peça “Dr. Fautus” (1936). Fonte: The Lighting Archive.

 

No entanto, foi uma aluna de McCandless que se notabilizou como responsável pela consolidação das concepções produzidas e registradas, documentalmente, de maneira a permitir a montagem e reconstituição do projeto de iluminação cênica para um determinado espetáculo, em qualquer palco: Jean Rosenthal (1912-1969).

 

Rosenthal merece uma conversa dedicada a ela, exclusivamente, pelas fundamentais contribuições para o estudo da iluminação na dança, nos musicais (incluindo a ópera) e no teatro, além de outros essenciais subsídios para os estudos da iluminação cênica, ainda vigentes, extremamente relevantes.

 

Nas representações produzidas por ela, ainda com a técnica de Blueprint (procedimento de impressão fotográfica artesanal, mesma utilizada por Feder), Rosenthal desenvolveu um desenho técnico apurado em um processo evolutivo que culminou na constituição de uma simbologia, incialmente com figuras geométricas básicas, posteriormente com figuras que se assemelhavam às luminárias, em vista superior. A essas representações, além de sua assinatura, Rosenthal incluía informações, dados, parâmetros, além de um carimbo – já estabelecido para as plantas baixas produzidas para a arquitetura.

 

Figura 4: Mapa de palco (“Blueprint”) de Rosenthal para “Errand Into The Maze” (1948). Fonte: The Lighting Archive.

 

 

O termo “Plot”, empregado à iluminação cênica, tem, na verdade, um duplo sentido. Em um entendimento mais amplo, trata-se de uma peça associada a um roteiro, ou seja, a iluminação cênica se cerca de outros subsídios, e por meio de um programa ou script, estabelece uma relação interativa com os outros elementos da cena – estáticos ou dinâmicos. Na outra significação, trata-se do mapeamento dos instrumentos de iluminação cênica, daí a derivação e tradução para “mapa de palco”.

 

Uma versão simplificada do mapa de palco é muitas vezes referida como “magic sheet” (“planta mágica”, em tradução livre), também denominada como folha de dicas (em inglês, “cheat sheet”) sendo nessa condição uma representação bidimensional superficial, no formato de uma ou duas páginas (no máximo), permitindo uma visualização rápida de um projeto mais específico (eventualmente, uma parte do todo, para maior clareza ou destaque para determinados aspectos), associado a um circuito ou grupo de luminárias e o respectivo controle desse conjunto.

 

Tais contribuições tiveram impactos imediatos (aqui, entendidos para a transição da década de 1930 e 1940) e influenciaram incontáveis profissionais da produção de espetáculos, principalmente na Broadway. Evidencia-se aqui um período de intenso trabalho manual, com elevada especialidade, contemporâneo aos primeiros computadores, mas que somente viriam a produzir soluções gráficas, similares àquelas produzidas na atualidade, a partir da segunda metade da década de 1970.

 

O estabelecimento de um padrão de representação não ocorreu imediatamente. Em um primeiro momento, elementos gráficos utilizados pela engenharia elétrica e eletrônica foram utilizados até que fosse estipulado um modelo ou referência.

 

 

Figura 5: Gabarito de Iluminação Cênica em polegadas com a simbologia USITT. Fonte: Albany Theatre Supply.

 

 

Somente aconteceu no ano de 1960, quando um grupo de profissionais e pesquisadores fundou a USITT - United States Institute for Theatre Technology, Inc. (Instituto de Tecnologia Teatral dos Estados Unidos), como uma organização criada para promover o diálogo, a pesquisa e o aprendizado entre os profissionais de design de iluminação e tecnologia para a iluminação cênica. A partir de 1961, realizada uma conferência anual com membros em todos os níveis profissionais e de conhecimento, acompanhando as novas tecnologias utilizadas para a iluminação cênica nos setores culturais e entretenimento.

 

O desenvolvimento de padrões de representação bidimensional para a iluminação cênica começou com a definição de uma simbologia comum para a academia em consonância com a indústria, inicialmente com os desenhos técnicos produzidos com instrumentos elementares, e gabaritos específicos (em polegadas, como unidade de medida), chancelados pela USITT. A partir da década de 1970, além de uma disseminação para os mercados europeu e asiático, computadores começaram a ser utilizados para as primeiras representações, ainda com programas mais artesanais, de maneira incipiente.

 

Com o aprimoramento das ferramentas computacionais do tipo CAD (“Computer Aided Design”), a partir da década de 1980 (com o AutoCAD, a partir da segunda metade daquela década) e mais efetivamente nos anos de 1990, com o VectorWorks, entre outras ferramentas, houve um significativo avanço e precisão para essas representações, tanto em planta baixa, como cortes e perspectivas, também adotadas pelo mercado e indústria que passaram a disponibilizar “blocos” (arquivos com os desenhos de luminárias, dispositivos, equipamentos, efeitos), compartilhados para esses softwares de desenho.

 

Trata-se de um assunto rico em detalhes, e versátil, na exploração dos elementos que compõem e traduzem ideias, conceitos, técnicas e métodos, que serão explorados em conversas posteriores!

 

 

Um abraço e até a próxima conversa!!!

Iluminação: a história do mapa de palco
Cezar Galhart

COMENTÁRIOS

Só li verdades! Parabéns pela matéria Farat

- Guile

Ótimo texto Zé parabéns !!!!! Aguardando os próximos!!!

- Marco Aurélio

Adoro ver e rever as lives do Sá! Redescobri várias músicas da dupla valorizadas pela execução nas "Lives do Sá". Espero que esse trabalho volte de vez em quando. O Sá, juntamente com o Guilherme Arantes e o Tom Zé, está entre os melhores contadores de casos da MPB. Um livro com a história da dupla/trio escrito por ele seria muito interessante!

- Bruno Sander

Ontem foi um desses dias em que a intuição está atenta. Saí a caminhar pela Savassi sabendo que iria entrar naquela loja de discos onde sempre acho algo precioso em vinil. Já na loja, fui logo aos brasileiros e lá estavam o Nunca e o Pirão de Peixe em ótimo estado de conservação, o que é raríssimo. Comprei ambos. O 2º eu já tinha, meio chumbado. O Nunca eu conhecia de CD, e tem algumas das músicas que mais gosto da dupla, p. ex. Nuvens d'Água (acho perfeita), Coisa A-Toa (alusão à ditadura?), e outras. Me disseram que o F. Venturini é fã do Procol Harum, e realmente alguns solos de órgão dele fazem lembrar a banda inglesa.

- João Henrique Jr.

Que maravilha de matéria. Me transportei aos anos de ouro da música brasileira

- Sidney Ribeiro

Trabalho lindão. Parabéns à todos os envolvidos!

- Anderson Farias de Melo

O que dizer do melhor disco da música nacional(minha opinião). Tive o prazer em ver eles como dupla e a volta como trio em um shopping da zona leste de sampa. Lançamento do disco outra vez na estrada. Espero poder voltar a vê-los novamente, já que o Sa hoje mora fora do Brasil. E essa Pandemia, que isolou muito as pessoas. Obrigado por vocês existirem como músicos, poetas e instrumentistas. Vocês são F..., Obrigado, abracos

- Luiz antonio Rocha

Que maravilha Querido Paulinho Paulo Farat!! Obrigado por dividir conosco momentos tão lindos , pela maravilha de pessoa e imenso talento que Vc sempre teve, tem e terá, sempre estará no lugar certo e na hora certa ! Emocionante! Tive a honra de trabalhar muitas vezes com Vc, em especial na época do Zonazul , obrigado por tudo, parabéns pela brilhante carreira e que Deus Abençõe sempre . Bjbj

- Michel Freidenson

Mais uma vez um texto sensacional sobre a história da música e dos músicos brasileiros. Parabéns primo e obrigado por manter viva a memória dessas pessoas tão especiais para nós E vai gravar o vídeo desta semana! Kkkk

- Carlos Ronconi

Grande Farat!!! Bacana demais a coluna! Cheio de boas memorias pra compartilha!!!

- Luciana Lee

Valeu Paulo Farat por registrar nosso trabalho com tanto carinho e emoção sincera. Foram momentos profissionais muito importantes para todos nós. Inesquecíveis ! A todos os membros de nossa equipe,( e que equipe! ) Nosso Carinho e Saudades ! ???? ???????????????????? Guilherme Emmer Dias Gomes Mazinho Ventura Heitor TP Pereira Paulo Braga Renato Franco Walter Rocche Hamilton Griecco Micca Luiz Tornaghi Carlão Renato Costa Selma Silva Marilene Gondim Cláudia Zettel (in memoriam) Cristina Ferreira Neuza Souza

- Alberto Traiger

Depois de um ano de empresa 3M pude fazer o bendito carnê e comprei uma vitrolinha (em 12X) e na mesma hora levei Pirão, Quatro (Que era o novo), Es´pelho Cristalino e Vivo do Alceu, fiquei um ano ouvindo e pirando sem parar, depois vi o show do Quatro em Campinas. Considero o mais equilibrado de todos, sendo que sempre pendendo pro rural e nem tanto pro urbano, um disco atemporal podendo ser ouvido em qualquer situação, pois levanta o astral mesmo. No momento, Chuva no campo é ''a favorita'', mas depois passa e vem outra, igualzinho à aquela banda de Liverpool, manja????

- Ademilson Carlos de Sá

B R A V O!!! Paulo Farat não esqueça: “Afina isso aí moleque!” Hahahaha Tremendo profissional, sou teu fã, Grande abraço!

- Dudu Portes

Show é sensacional. Mas a s sensação intimista de parecer que a live é um show particular, dentro da sua casa, do seu quarto, é impagável. Parabéns família, incluindo Guarabyra e Tommy...

- Ricardo Amatucci

Paulo Farat vai esta nas lives do Papo Na Web a partir de amanha apresentando "Os Albuns Que Marcaram As Nossas Vidas"" Não percam, www.facebook.com/depaponaweb todas as terças-feiras as 20:00 horas

- Carlos Ronconi

Caro Luiz Carlos Sá, as canções que vocês fazem são maravilhosas, sinto a energia de cada uma. Tornei-me um admirador do trabalho de vocês no final dos anos 1970 com o LP Quatro e a partir de então saí procurando os discos de vocês, paguei um preço extorsivo pelo vendedor, os LP's "Casaco Marrom" do Guarabyra e "Passado, Presente e Futuro" (primeiro do Trio), mas valeu. tenho todos em LP's e CD's até o Antenas, depois desse só em CD's e o DVD "Outra Vez Na Estrada" exceto o mais recente "Cinamomo" mas em breve estarei com ele para curtir. A última vez que vi um show da dupla (nunca vi o trio em palco), foi no Recife no dia 16/04/2016 na Caixa Cultural, vi as duas apresentações. Levei dois bolos de rolo pra vocês, mas o Guarabyra não estava. Quero registrar que tenho até o LP "Vamos Por Aí", todos autografados, que foi num show feito no Teatro do Parque, as apresentações seriam nos 14,15 e 16/10/1992 mas o Guarabyra perdeu o voo e só foram dois dias, no dia do seu aniversário e outro no dia 16. Inesquecível. Agora estou lendo essas crônicas maravilhosas. Grande abraço forte e fraterno e muita saúde e sucesso pra vocês, sempre. P.S. O meu perfil no Facebook é Xavier de Brito e estou lá como Super Fã.

- Edison Xavier de Brito

Me lembro de ter lido algumas destas crônicas dos discos quando voce as publicou no Facebook em 2013, Sá. Muito emocionante reler e me emocionar de novo. Voces foram trilha sonora importantíssima dos últimos anos da minha vida. Sou de 1986, portanto de uma geração mais nova que escuta voces. Gratidão e vida longa a voces!

- Luiz Fernando Lopes

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

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