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COLUNISTAS

As modinhas de Rogério Duprat!

08/06/2020 - 15:21h
Atualizado em 08/06/2020 - 15:56h

 

Entrei no estúdio sem acreditar que conseguiria. Cantar uma parte de tenor com uma ampla extensão de notas, assim com um mísero dia de antecedência, convocado quase que diretamente da minha tranquila sala no estúdio Vice Versa para o microfone da cabine de gravação? Só o Rogério pra me fazer isso!

 

Explico: o Rogério em questão era ninguém menos que o maestro Rogério Duprat, o arranjador tropicalista por excelência e opção, chamado por muitos de “George Martin do tropicalismo”. Éramos sócios nesse estúdio em São Paulo, na então ainda tranquila rua Alves Guimarães, em Pinheiros. Na véspera daquele algum dia de outubro de 78, Rogério me dissera que “tinha planos” para mim. Nós estávamos, eu e Guarabyra, começando a pensar no próximo disco, saídos do sucesso que fora o “Pirão de Peixe com Pimenta”, lançado no ano anterior, com arranjos antológicos de Rogério, que repetiria a dose com o nosso “Quatro” de 1979. Eu ficara literalmente flutuando no céu dos cantores com os elogios que Rogério fizera ao meu desempenho vocal no “Pirão”. Nem achava que tivesse sido aquilo tudo, mas o que o maestro dizia, pra mim era lei: se ele achara ótimo, ótimo tinha sido. No entanto, o que ele pedia agora me parecia demais: cantar duas músicas na fronteira do popular/erudito, modinhas originárias das pesquisas que seu irmão, o pesquisador, violinista, professor e musicólogo Regis Duprat fizera, buscando – e encontrando – antigas partituras por fazendas do vale do Paraíba. Essas e outras peças do final do século foram juntadas em vários LPs que resumiram o projeto dos irmãos Duprat: ”A Bela Época da Música Brasileira ” (4 volumes, gravadora Copacabana, 1978). Para coroar meu imenso orgulho de participar do disco (volume 3), eles escreveram no encarte, junto a uma pequena biografia minha: “A escolha de Luiz Carlos Sá para intérprete das duas modinhas que estão registradas neste LP se deve à sua extraordinária extensão vocal, condição imperativa das duas melodias, aliada à possibilidade de, com a diversidade de influências que compuseram sua formação de cantor, eliminar um possível maneirismo operístico na interpretação das peças”. Não preciso dizer o que senti  quando li isso no encarte do disco, ainda mais vindo de dois pais da matéria. Mas voltemos ao estúdio: logo nas duas primeiras passagens, quase desisti. Tentei mesmo uma saída honrosa:

 

- Rogério, não vai dar... quem sabe outro dia?

Lá veio ele descendo as escadas da técnica para a vasta sala de gravação. Veio devagar, coçando o cavanhaque, como era seu hábito ao refletir sobre alguma coisa. Eu me sentia muito envergonhado naquele momento, decepcionando meu maestro. Ele sentou-se ao meu lado e abriu de repente um sorriso:

- Rapaz, você tira isso de letra... Olha, canta assim, como se estivesse no banheiro! isso é modinha, é popular, você sabe lidar com isso. No disco você passou por uma extensão igual a essa – e cantarolou um trecho, não lembro qual, de uma música do “Pirão de Peixe” com um intervalo abissal de notas.

 

Ficou ali mais uns cinco minutos falando de assuntos aleatórios enquanto fumávamos um cigarro (sim, nós fumávamos! o estúdio tinha cinzeiros por todo lado, inacreditável...) e subiu. Fiz o que ele sugeriu: comecei cantarolando, fui ficando à vontade e em menos de uma hora, matei as duas.

 

Anos depois, em 1998, Rogério esteve na Vice Versa – da qual ele já não era mais sócio, pois se aposentara devido à surdez - pela manhã. Quando cheguei, à tarde, ele deixara para mim uma folha de música com um recado para que eu “fizesse o que quisesse com isso”. Escrito ao modo dele...noviscrita? tinha um nome, não me lembro qual. Dizia assim:

 

“Soñei, fim de sono, às 5 da matina de 7/8/98: Sá, eu, tokando num tipo de festival de uma rapaziada toda vestida com mantas brancas, num pekeno salão, lixo, latas velhas, sujeira. (Seguem a melodia que eu cantava e o solo de cello - “txello” – dele. Mais abaixo, ele continua)

 

“Sá tinha escrito sua parte, ke ele lia e eu a miña. Junto avia um outro kara tokando uma espécie de sax-soprano bronze-esverdeado (aziñavrado) mas não me lembro de sua parte. Sei ke olhei pra dentro do sax pela boquilha e era claro e sujo lá dentro. Tokávamos e parávamos, ninguém dava bola, não aplaudiam nem vaiavam. Eram pokos os jovens (Axo ke uns 20). Falavam e andavam muito. Nos nossos intervalos, Sá me dizia ke eu podia depois ir embora, ke ele faria o ke tiña ke ser feito (até agora não sei o ke seria) .A minha era mais komprida, mas akordei só me lembrando désa “kabesa de tema”.

 

No dia seguinte liguei pra ele pra conversar sobre isso, mas não me lembro o que falamos. Só sei que nunca mais encontrei o maestro em pessoa. Mudei-me para o Rio em 99 e  - para minha decepção - achei que tivesse perdido essa folha na mudança. Mas esperava ainda reencontrar Rogério, sabia que ele tinha uma cópia senão do texto todo, da música. Lá na Vice mesmo pedi – acho que pro Ruriá Duprat, seu sobrinho – pra tocar as partes, mas não me lembro ao certo nem a quem pedi, nem no que deu. Acabei por só ter notícias do maestro através de Guarabyra, que vez por outra ia visitá-lo no sítio dele, em Itapecerica da Serra. Quando tive disponibilidade suficiente pra querer ir lá passar uma tarde com Rogério, fui desaconselhado: o maestro estava com Alzheimer em grau adiantado e sequer me reconheceria. Não tive coragem de ir vê-lo nesse estado, mas hoje me arrependo de não ter ido. Sei lá também se não me faz melhor lembrá-lo como lembro hoje: nós de cócoras na sala do sítio, tomando aquelas imperdíveis caipirinhas e dando risada.

 

Outro dia, catando partituras para as lives que estou fazendo, redescobri a folha. Pude finalmente fotografá-la e editar a foto para que ela ficasse legível. Vou reescrever as partes e tocar. Qualquer tema que seja, é precioso para mim, lembrança palpável de um amigo e mestre (malgré lui...) que sempre me estimulou e esteve a meu lado e ao de Guarabyra durante os anos de nossa convivência próxima, escrevendo arranjos maravilhosos, sempre atento ao que dizíamos e tocávamos, como se fossemos nós os mestres e não ele. Porque ele era assim.

 

Essa folha, que Rogério escreveu a lápis, é pra fotografar direito e emoldurar, porque não vai durar muito mais. O que vai durar, isso sim, é tudo aquilo que ele nos ensinou.

 

 

PS: e para minha total perplexidade, encontrei as modinhas no YouTube... seguem os links:

 

 

Modinha - Eu Adoro (assista abaixo)
https://youtu.be/2AOWQ-MTFtA

 

 

Modinha - De Que Me Serve Esta Vida (assista abaixo)
https://youtu.be/asecdlXLc0M

As modinhas de Rogério Duprat!
Luiz Carlos Sá

COMENTÁRIOS

Só li verdades! Parabéns pela matéria Farat

- Guile

Ótimo texto Zé parabéns !!!!! Aguardando os próximos!!!

- Marco Aurélio

Adoro ver e rever as lives do Sá! Redescobri várias músicas da dupla valorizadas pela execução nas "Lives do Sá". Espero que esse trabalho volte de vez em quando. O Sá, juntamente com o Guilherme Arantes e o Tom Zé, está entre os melhores contadores de casos da MPB. Um livro com a história da dupla/trio escrito por ele seria muito interessante!

- Bruno Sander

Ontem foi um desses dias em que a intuição está atenta. Saí a caminhar pela Savassi sabendo que iria entrar naquela loja de discos onde sempre acho algo precioso em vinil. Já na loja, fui logo aos brasileiros e lá estavam o Nunca e o Pirão de Peixe em ótimo estado de conservação, o que é raríssimo. Comprei ambos. O 2º eu já tinha, meio chumbado. O Nunca eu conhecia de CD, e tem algumas das músicas que mais gosto da dupla, p. ex. Nuvens d'Água (acho perfeita), Coisa A-Toa (alusão à ditadura?), e outras. Me disseram que o F. Venturini é fã do Procol Harum, e realmente alguns solos de órgão dele fazem lembrar a banda inglesa.

- João Henrique Jr.

Que maravilha de matéria. Me transportei aos anos de ouro da música brasileira

- Sidney Ribeiro

Trabalho lindão. Parabéns à todos os envolvidos!

- Anderson Farias de Melo

O que dizer do melhor disco da música nacional(minha opinião). Tive o prazer em ver eles como dupla e a volta como trio em um shopping da zona leste de sampa. Lançamento do disco outra vez na estrada. Espero poder voltar a vê-los novamente, já que o Sa hoje mora fora do Brasil. E essa Pandemia, que isolou muito as pessoas. Obrigado por vocês existirem como músicos, poetas e instrumentistas. Vocês são F..., Obrigado, abracos

- Luiz antonio Rocha

Que maravilha Querido Paulinho Paulo Farat!! Obrigado por dividir conosco momentos tão lindos , pela maravilha de pessoa e imenso talento que Vc sempre teve, tem e terá, sempre estará no lugar certo e na hora certa ! Emocionante! Tive a honra de trabalhar muitas vezes com Vc, em especial na época do Zonazul , obrigado por tudo, parabéns pela brilhante carreira e que Deus Abençõe sempre . Bjbj

- Michel Freidenson

Mais uma vez um texto sensacional sobre a história da música e dos músicos brasileiros. Parabéns primo e obrigado por manter viva a memória dessas pessoas tão especiais para nós E vai gravar o vídeo desta semana! Kkkk

- Carlos Ronconi

Grande Farat!!! Bacana demais a coluna! Cheio de boas memorias pra compartilha!!!

- Luciana Lee

Valeu Paulo Farat por registrar nosso trabalho com tanto carinho e emoção sincera. Foram momentos profissionais muito importantes para todos nós. Inesquecíveis ! A todos os membros de nossa equipe,( e que equipe! ) Nosso Carinho e Saudades ! ???? ???????????????????? Guilherme Emmer Dias Gomes Mazinho Ventura Heitor TP Pereira Paulo Braga Renato Franco Walter Rocche Hamilton Griecco Micca Luiz Tornaghi Carlão Renato Costa Selma Silva Marilene Gondim Cláudia Zettel (in memoriam) Cristina Ferreira Neuza Souza

- Alberto Traiger

Depois de um ano de empresa 3M pude fazer o bendito carnê e comprei uma vitrolinha (em 12X) e na mesma hora levei Pirão, Quatro (Que era o novo), Es´pelho Cristalino e Vivo do Alceu, fiquei um ano ouvindo e pirando sem parar, depois vi o show do Quatro em Campinas. Considero o mais equilibrado de todos, sendo que sempre pendendo pro rural e nem tanto pro urbano, um disco atemporal podendo ser ouvido em qualquer situação, pois levanta o astral mesmo. No momento, Chuva no campo é ''a favorita'', mas depois passa e vem outra, igualzinho à aquela banda de Liverpool, manja????

- Ademilson Carlos de Sá

B R A V O!!! Paulo Farat não esqueça: “Afina isso aí moleque!” Hahahaha Tremendo profissional, sou teu fã, Grande abraço!

- Dudu Portes

Show é sensacional. Mas a s sensação intimista de parecer que a live é um show particular, dentro da sua casa, do seu quarto, é impagável. Parabéns família, incluindo Guarabyra e Tommy...

- Ricardo Amatucci

Paulo Farat vai esta nas lives do Papo Na Web a partir de amanha apresentando "Os Albuns Que Marcaram As Nossas Vidas"" Não percam, www.facebook.com/depaponaweb todas as terças-feiras as 20:00 horas

- Carlos Ronconi

Caro Luiz Carlos Sá, as canções que vocês fazem são maravilhosas, sinto a energia de cada uma. Tornei-me um admirador do trabalho de vocês no final dos anos 1970 com o LP Quatro e a partir de então saí procurando os discos de vocês, paguei um preço extorsivo pelo vendedor, os LP's "Casaco Marrom" do Guarabyra e "Passado, Presente e Futuro" (primeiro do Trio), mas valeu. tenho todos em LP's e CD's até o Antenas, depois desse só em CD's e o DVD "Outra Vez Na Estrada" exceto o mais recente "Cinamomo" mas em breve estarei com ele para curtir. A última vez que vi um show da dupla (nunca vi o trio em palco), foi no Recife no dia 16/04/2016 na Caixa Cultural, vi as duas apresentações. Levei dois bolos de rolo pra vocês, mas o Guarabyra não estava. Quero registrar que tenho até o LP "Vamos Por Aí", todos autografados, que foi num show feito no Teatro do Parque, as apresentações seriam nos 14,15 e 16/10/1992 mas o Guarabyra perdeu o voo e só foram dois dias, no dia do seu aniversário e outro no dia 16. Inesquecível. Agora estou lendo essas crônicas maravilhosas. Grande abraço forte e fraterno e muita saúde e sucesso pra vocês, sempre. P.S. O meu perfil no Facebook é Xavier de Brito e estou lá como Super Fã.

- Edison Xavier de Brito

Me lembro de ter lido algumas destas crônicas dos discos quando voce as publicou no Facebook em 2013, Sá. Muito emocionante reler e me emocionar de novo. Voces foram trilha sonora importantíssima dos últimos anos da minha vida. Sou de 1986, portanto de uma geração mais nova que escuta voces. Gratidão e vida longa a voces!

- Luiz Fernando Lopes

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

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