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COLUNISTAS

Discos da minha vida: O Nunca

22/04/2020 - 16:13h
Atualizado em 14/05/2020 - 17:04h

O Terra foi o segundo e último LP da primeira fase de Sá, Rodrix & Guarabyra. Após seu lançamento em 73, as costuras musicais e pessoais que nos uniam sofreram um rápido desgaste. Nossa mudança para São Paulo não melhorou em nada a situação: o trabalho de produção de jingles no estúdio Pauta, comandado por Rogério Duprat, só tinha de compensador a convivência com o maestro. Os cachês resolviam nossa situação O financeira, mas não a profissional. Já um tanto afastados do Zé, que pulara fora da Pauta, e alçados ao nirvana da publicidade com o sucesso da campanha “Só Tem Amor Quem Tem Amor Pra Dar” - com jingles que colocaram a Pepsi de volta no mercado brasileiro e revolucionaram o papel da música na propaganda -, eu e Guarabyra trabalhávamos a mil o tempo todo, mas em compensação ficávamos em situação delicada diante de um público mais alternativo que condenou explicitamente nossa “imersão capitalista”.

 

Em suma, ganhamos alguma grana e perdemos muito prestígio. O já esperado finale concretizou-se com Zé Rodrix anunciando sua saída do trio. Coroando a sucessão de contratempos, meu filho Miguel - ainda em seus quatro ou cinco meses de vida - teve sucessivos problemas de saúde, já que morávamos no Brooklyn, à beira da Marginal Pinheiros, respirando o mórbido futum do rio que chegava com uma névoa compacta nas frigidérrimas noites de inverno daquela São Paulo dos 70. Foi a conta: peguei a família e me mandei com armas e bagagens de volta pro Rio, mais precisamente pra Ipanema, mais precisamente ainda para a esquina de Farme de Amoedo com Alberto de Campos, de onde eu achava então que nunca deveria ter saído, deixando para trás a Pauta, Guarabyra e nossa banda de apoio, músicos cariocas que carregáramos conosco para a Paulicéia Desvairada para trabalharem também nas bases publicitárias: Sérgio Magrão (baixo), Sérgio Hinds (guitarra), Luís Moreno (bateria), Cezar de Mercês (violão, percussão e apoio vocal) e o novo  tecladista que Milton Nascimento nos indicara, o mineiro Flávio Venturini. 

 

 

Enfim, a sorte estava lançada: retomei minha carreira solo de antes do trio e parti para gravar aquele tradicional single que costumava sair antes do LP, de volta aos estúdios da Odeon, ainda minha gravadora por contrato, no edifício São Borja, Cinelândia, na gema do Rio. Mal ficara o single pronto, com  Homem de Neanderthal de um lado e – vejam só! – minha primeira  parceria com Rodrix do outro, O Povo do Ar (parênteses de curiosidade: anos mais tarde, e em épocas diferentes, essas duas músicas seriam gravadas por Ney Matogrosso) e eu já esbarrava nos corredores da Odeon com a figura sempre sorridente de Guarabyra, que como eu, começara a gravar seu disco solo. Não se passou uma semana de chopes no Paisano, restaurante que ficava no térreo do prédio da Odeon, para que decidíssemos continuar em dupla, sempre devidamente acompanhados pelos estímulos de Mariozinho Rocha. Nesse entretempo, ressentido com Rodrix pelo que eu considerava uma ego trip em detrimento do trabalho de anos em dupla e trio, rompi de vez com ele, dando algumas entrevistas malcriadas. Guarabyra idem. 

 

Abandonados nossos singles, partimos com ânimo renovado para o trabalho em dupla. Não me lembro bem, mas acho que Guarabyra  continuava em São Paulo. De qualquer jeito convocamos todo nosso  universo de volta: Waltercio Caldas e Miguel Rio Branco na capa, a banda que leváramos para Sampa, os maestros Rogério Duprat e Eduardinho Souto Neto – um menino-arranjador cheio de novas ideias - e caímos no estúdio. Por conta do tempo que ficáramos separados não tínhamos quase nada em parceria, mas juntamos nossas forças e resolvemos assinar em dupla, tipo Lennon-McCartney, as composições de um e outro. 

 

 

Nunca foi especial por muitos motivos: a força da decisão de permanecermos unidos parece ter contaminado todos aqueles que trabalharam  conosco nesse disco.  Waltercio apareceu com a sugestão da queda de braço na capa, uma ilusão de desarmonia que se desfaz com o título Nunca bem embaixo da foto que Miguel recoloriu propositadamente, armando aquele clima meio esotérico.  Fica óbvio que a ideia é de união, o que depois de quase quarenta anos parece profético, uma vez que continuamos juntos... Nossa banda de apoio partiu para um voo particular e transformou-se na segunda – e melhor sucedida – formação d’O Terço, frutificando depois no 14Bis e nas carreiras-solo de Cezar de Mercês, Sérgio Hinds e Flávio Venturini. Rogério Duprat já era consagrado, mas Eduardinho Souto Neto partiu dali, com seu arranjo visceral para São Nicolau, rumo a novos horizontes, acabando por ser até hoje um dos arranjadores mais solicitados do nosso meio musical. 

 

O disco acabou por ter uma carreira acidentada, fruto da nossa hesitação entre continuar a saga do rock rural ou abandoná-la  por completo. Naquela época – como até hoje, mesmo depois do advento dos downloads de faixa a faixa - um dado essencial da carreira de um disco era a chamada “música de trabalho” e essa “esquizofrenia” do Nunca refletiu-se na dúvida. Não era um disco que primava pela hegemonia, mas sim um disco de transição, que partia de faixas como Segunda Canção da Estrada e Nuvens d’Água tipicamente “rocks rurais” para ambientações mais ousadas como Apreciando a Cidade e São Nicolau. Em consequência, apesar da execução maciça de algumas faixas, as vendas não ajudaram na afirmação da dupla.

 

Essa provisória irresolução da parceria Sá-Guarabyra, que refletia um período de adaptação do trabalho de um com o outro acabaria por levar a uma nova separação antes do disco de 75, o Cadernos de Viagem.

 

Mas essa é outra longa história que eu vou contar nos próximos posts, recordando esses discos da minha vida...

 


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Os discos da minha vida
Luiz Carlos Sá

COMENTÁRIOS

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

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