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COLUNISTAS

Discos da minha vida: Rio-Bahia

28/05/2020 - 10:10h
Atualizado em 28/05/2020 - 12:04h

 

Como os leitores habituais da coluna já sabem, venho contando em sequência a história dos discos da minha carreira. Depois de Passado, Presente, Futuro e do Terra - ambos do trio Sá, Rodrix & Guarabyra - e dos dez primeiros da dupla, chego ao décimo-primeiro de Sá & Guarabyra, o... RIO-BAHIA

 

Findo nosso contrato com a Eldorado, fomos chamados de volta aos braços da Som Livre, via sua subsidiária RGE, através do nosso velho amigo Lyzandro Antonio, que já coproduzira o 10 Anos Juntos em 1982. Quinze anos depois festejaríamos então nosso – digamos assim... - “jubileu de prata” com o Lyzandro, de novo, na produção. A única condição era gravarmos nos antigos estúdios da RGE, que embora sem muitos equipamentos up to date era trazido nos trinques possíveis por seus “pais”, Ely Bontempo e Darcy Ferreira. Dessa vez o planejamento do disco ficaria mais fácil, já que estávamos ambos morando em São Paulo. E foi no apartamento de Guarabyra na Padre João Manoel, no miolo dos Jardins, que o Rio-Bahia começou a tomar forma. Queríamos traçar mais uma vez o roteiro de nossos contrastes e origens, refazendo o caminho musical entre o vale do rio São Francisco e o mar do Rio de Janeiro, da bossa-nova ao reisado, como dizia a letra da música título, a primeira que fizemos para o repertório:

 

Tanta coisa eu vi, desde Pirapora ao Corcovado
Tanta coisa eu vi, flor no mar, vapor desatracado
Tanta coisa eu vi, de Ipanema até Pilão Arcado
Nessa travessia, do Rio à Bahia

 

Rio-Bahia não teve vida longa. Pouco tempo depois do seu lançamento a Som Livre resolveu fechar a RGE. Nem por isso deixa de ser um de nossos preferidos, já que nele conseguimos traduzir conceitualmente nossa idéia de “ponte”, de traço de união entre o carioca e o sãofranciscano: notem que a Bahia do vale do São Francisco é completamente diversa da litorânea, o vale tem uma personalidade toda própria, misturando o norte de Minas ao agreste do interior nordestino. Acho que nele expressamos muito bem o litoral e o fluvial, o mar e o rio, nas melodias, nas letras e na percussão baseada no que ouvíamos em velhas fitas cassete que Guarabyra gravara anos antes nas festas folclóricas do seu vale natal. Assim é que depois de “sertanear” uma bossa nova em “Rio-Bahia”, viajamos com carioquíssima disposição – como realmente viajávamos – pela poeira do sertão da Bahia ou pelo cerrado mineiro em Solto na Buraqueira e A Estrangeira e seguimos adiante à beira de praias ou portos como em Coisa Boa e Vou Levando. O disco inteiro parece feito para ouvir-se no som de um bem disposto jipão 4X4, com paradas pra pensar em Bela, Bela, No Mundo é Assim ou Bati a Porta. Tudo isso embalado pelos impecáveis arranjos de nosso tecladista à época, Roberto Lazzarini. Um detalhe: como tínhamos estourado a verba bem antes de gravar a última base, Lyzandro Antonio abriu mão do cachê fixo de produtor e “financiou” as gravações de cordas e metais. Te devemos essa, Lyzo...

 


Além de Lazza nos teclados, tivemos Pedrão Baldanza no baixo e no apoio vocal, Edson Ghilardi na bateria, Betto Martins na guitarra e Guello na percussão.


O som do disco não é dos melhores... apesar dos esforços e da competência de Ely e Darcy, o estúdio da RGE já estava em descompasso com o ano de 1997 em que o disco foi gravado. Remixamos alguma coisa em nosso estúdio Vice Versa com Nico Bloise e Zé Luiz Carrato, mas a verdade é que os suspiros finais da década já tinham sido invadidos pela digitalização, com suas respectivas dores e delícias. Pra quem gosta de um som vintage acústico – e um tanto rústico, só pra rimar – o Rio-Bahia faz uma figura sonora positivíssima, ainda mais vitalizada, repito, pelos excepcionais arranjos do Lazza, que certamente – não estou exagerando aí não! - só deixou de aparecer no panteão dos grandes arranjadores brasileiros por falta de divulgação do CD. Outra particularidade que me surpreende à medida que o ouço é a exatidão de nossos vocais uníssonos. É difícil até pros especialistas na matéria distinguir quem está cantando no vocal de frente, se eu ou o Guarabyra. Isso é bom. Enfim, quem ouviu o disco, adorou. Taí Gilberto Gil que não me deixa mentir.


Na esteira da rusticidade cult do Rio-Bahia – desculpe-me o autor pela sinceridade e pela falha da nossa parte, já que nós o aprovamos – o logotipo ruim (que graças a Jeová, Odin, Alá, Shiva e Deus não colou) contrasta com a colorida e instigante capa, que traz nossas fotos (por Silvana Franco) sobrepostas às pinturas naif de Erika Jones, mostrando-nos à porta de uma casinha tipicamente sãofranciscana com o Cristo Redentor ao fundo. Como já falei aí acima, a sobrevida do CD foi curta. A faixa-título tocou em algumas rádios segmentadas e foi só, o que na minha opinião é uma injustiça irreparável, já que é um dos nossos melhores desempenhos em disco. Aliás, essa crônica me deu uma boa ideia: vou correr atrás da reedição dele. 
 

Porquê? porque é Rio.
E é Bahia. 
E é assim que nós somos.

 

 

Discos da minha vida: Rio-Bahia
Luiz Carlos Sá

COMENTÁRIOS

Só li verdades! Parabéns pela matéria Farat

- Guile

Ótimo texto Zé parabéns !!!!! Aguardando os próximos!!!

- Marco Aurélio

Adoro ver e rever as lives do Sá! Redescobri várias músicas da dupla valorizadas pela execução nas "Lives do Sá". Espero que esse trabalho volte de vez em quando. O Sá, juntamente com o Guilherme Arantes e o Tom Zé, está entre os melhores contadores de casos da MPB. Um livro com a história da dupla/trio escrito por ele seria muito interessante!

- Bruno Sander

Ontem foi um desses dias em que a intuição está atenta. Saí a caminhar pela Savassi sabendo que iria entrar naquela loja de discos onde sempre acho algo precioso em vinil. Já na loja, fui logo aos brasileiros e lá estavam o Nunca e o Pirão de Peixe em ótimo estado de conservação, o que é raríssimo. Comprei ambos. O 2º eu já tinha, meio chumbado. O Nunca eu conhecia de CD, e tem algumas das músicas que mais gosto da dupla, p. ex. Nuvens d'Água (acho perfeita), Coisa A-Toa (alusão à ditadura?), e outras. Me disseram que o F. Venturini é fã do Procol Harum, e realmente alguns solos de órgão dele fazem lembrar a banda inglesa.

- João Henrique Jr.

Que maravilha de matéria. Me transportei aos anos de ouro da música brasileira

- Sidney Ribeiro

Trabalho lindão. Parabéns à todos os envolvidos!

- Anderson Farias de Melo

O que dizer do melhor disco da música nacional(minha opinião). Tive o prazer em ver eles como dupla e a volta como trio em um shopping da zona leste de sampa. Lançamento do disco outra vez na estrada. Espero poder voltar a vê-los novamente, já que o Sa hoje mora fora do Brasil. E essa Pandemia, que isolou muito as pessoas. Obrigado por vocês existirem como músicos, poetas e instrumentistas. Vocês são F..., Obrigado, abracos

- Luiz antonio Rocha

Que maravilha Querido Paulinho Paulo Farat!! Obrigado por dividir conosco momentos tão lindos , pela maravilha de pessoa e imenso talento que Vc sempre teve, tem e terá, sempre estará no lugar certo e na hora certa ! Emocionante! Tive a honra de trabalhar muitas vezes com Vc, em especial na época do Zonazul , obrigado por tudo, parabéns pela brilhante carreira e que Deus Abençõe sempre . Bjbj

- Michel Freidenson

Mais uma vez um texto sensacional sobre a história da música e dos músicos brasileiros. Parabéns primo e obrigado por manter viva a memória dessas pessoas tão especiais para nós E vai gravar o vídeo desta semana! Kkkk

- Carlos Ronconi

Grande Farat!!! Bacana demais a coluna! Cheio de boas memorias pra compartilha!!!

- Luciana Lee

Valeu Paulo Farat por registrar nosso trabalho com tanto carinho e emoção sincera. Foram momentos profissionais muito importantes para todos nós. Inesquecíveis ! A todos os membros de nossa equipe,( e que equipe! ) Nosso Carinho e Saudades ! ???? ???????????????????? Guilherme Emmer Dias Gomes Mazinho Ventura Heitor TP Pereira Paulo Braga Renato Franco Walter Rocche Hamilton Griecco Micca Luiz Tornaghi Carlão Renato Costa Selma Silva Marilene Gondim Cláudia Zettel (in memoriam) Cristina Ferreira Neuza Souza

- Alberto Traiger

Depois de um ano de empresa 3M pude fazer o bendito carnê e comprei uma vitrolinha (em 12X) e na mesma hora levei Pirão, Quatro (Que era o novo), Es´pelho Cristalino e Vivo do Alceu, fiquei um ano ouvindo e pirando sem parar, depois vi o show do Quatro em Campinas. Considero o mais equilibrado de todos, sendo que sempre pendendo pro rural e nem tanto pro urbano, um disco atemporal podendo ser ouvido em qualquer situação, pois levanta o astral mesmo. No momento, Chuva no campo é ''a favorita'', mas depois passa e vem outra, igualzinho à aquela banda de Liverpool, manja????

- Ademilson Carlos de Sá

B R A V O!!! Paulo Farat não esqueça: “Afina isso aí moleque!” Hahahaha Tremendo profissional, sou teu fã, Grande abraço!

- Dudu Portes

Show é sensacional. Mas a s sensação intimista de parecer que a live é um show particular, dentro da sua casa, do seu quarto, é impagável. Parabéns família, incluindo Guarabyra e Tommy...

- Ricardo Amatucci

Paulo Farat vai esta nas lives do Papo Na Web a partir de amanha apresentando "Os Albuns Que Marcaram As Nossas Vidas"" Não percam, www.facebook.com/depaponaweb todas as terças-feiras as 20:00 horas

- Carlos Ronconi

Caro Luiz Carlos Sá, as canções que vocês fazem são maravilhosas, sinto a energia de cada uma. Tornei-me um admirador do trabalho de vocês no final dos anos 1970 com o LP Quatro e a partir de então saí procurando os discos de vocês, paguei um preço extorsivo pelo vendedor, os LP's "Casaco Marrom" do Guarabyra e "Passado, Presente e Futuro" (primeiro do Trio), mas valeu. tenho todos em LP's e CD's até o Antenas, depois desse só em CD's e o DVD "Outra Vez Na Estrada" exceto o mais recente "Cinamomo" mas em breve estarei com ele para curtir. A última vez que vi um show da dupla (nunca vi o trio em palco), foi no Recife no dia 16/04/2016 na Caixa Cultural, vi as duas apresentações. Levei dois bolos de rolo pra vocês, mas o Guarabyra não estava. Quero registrar que tenho até o LP "Vamos Por Aí", todos autografados, que foi num show feito no Teatro do Parque, as apresentações seriam nos 14,15 e 16/10/1992 mas o Guarabyra perdeu o voo e só foram dois dias, no dia do seu aniversário e outro no dia 16. Inesquecível. Agora estou lendo essas crônicas maravilhosas. Grande abraço forte e fraterno e muita saúde e sucesso pra vocês, sempre. P.S. O meu perfil no Facebook é Xavier de Brito e estou lá como Super Fã.

- Edison Xavier de Brito

Me lembro de ter lido algumas destas crônicas dos discos quando voce as publicou no Facebook em 2013, Sá. Muito emocionante reler e me emocionar de novo. Voces foram trilha sonora importantíssima dos últimos anos da minha vida. Sou de 1986, portanto de uma geração mais nova que escuta voces. Gratidão e vida longa a voces!

- Luiz Fernando Lopes

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

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