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COLUNISTAS

Discos da minha vida: Vamos por aí

20/05/2020 - 14:45h
Atualizado em 20/05/2020 - 15:23h

 

Como os leitores habituais da coluna já sabem, venho contando em sequência a história dos discos da minha carreira. Depois de Passado, Presente, Futuro e do Terra - ambos do trio Sá, Rodrix & Guarabyra - e dos oito primeiros da dupla, chego ao nono de Sá & Guarabyra, o...VAMOS POR AÍ

 

Com nossa saída da RCA-Ariola, depois de minha discussão com Miguel Plopschi sobre ele querer a inclusão – à nossa revelia – de uma música da dupla Sullivan-Massadas no Cartas, Canções e Palavras (vide coluna da edição anterior), ficamos mais uma vez à deriva no mercado. Logo a ventania do sucesso de nossas músicas na novela Roque Santeiro amainou e voltamos a viver da e para a estrada, já com os novos empresários da Harmonia, Jean-Pierre e Marisinha Menezes. Mas naquele tempo quem não gravava não tinha uma sobrevida lá muito garantida e então começamos a nos sentir seriamente preocupados com o futuro. Mas nossa boa estrela brilhou mais uma vez quando o produtor Guti Carvalho – que havia produzido nosso Paraíso Agora em 84 – nos chamou pra uma conversa em seu escritório:
 

- Que tal vocês fazerem um tema pra novela nova da Manchete?
Uma novela na hoje extinta TV Manchete, àquela altura, não era o que se poderia chamar de “grande oportunidade”. A emissora andava mal das pernas, mas como as crises sempre trazem boas idéias, ela chamou o autor Benedito Ruy Barbosa para o seu cast novelístico. Benedito desengavetou uma idéia sua que a Globo engavetara: uma novela passada no Pantanal matogrossense. E a conjuminação dos astros favoráveis aos Bloch, donos da Manchete, brilhou de vez no firmamento com a contratação de um jovem diretor cheio de ideias novas: Jayme Monjardim.

Guti continuou:
- O Monjardim está a fim de fazer uma coisa nova com um texto do Benedito Ruy Barbosa passado no Pantanal matogrossense, elenco vindo da Globo, coisa boa...
No final das contas ficamos animados e partimos pra ação. Guti reservara para nós uma personagem chamada Juma Marruá, interpretada por Cristiana Oliveira, que fazia sua estréia na TV. Uns dias depois levamos um começo de música, que ele não aprovou.
- Não, não vamos fazer nada com nome do personagem... faz uma coisa assim, mais geral, que case com as imagens do Pantanal, uma música de natureza, um clima bacana...


Foi aí que lembrei de uma canção que eu fizera em Jaboticabal, encantado pelo charme de uma jovem estudante de veterinária que me fora apresentada pela então namorada do Guarabyra, Marisa. Ela se chamava Marcia e morava em Americana, São Paulo. Saímos uma noite, nada rolou, mas ficou aquele clima de “um dia a gente se acha”... então eu chegara no hotel e fizera um tema quase instrumental, com uma introdução bem “climática”. A letra dizia:


Estrela americana, me espera aonde estás
Me espera muito tempo, nem que eu não volte mais
Pra ver teus olhos claros, tua loura cabeleira
Na terra brasileira, cuidando os animais...
Corri pra casa com o Guarabyra e mostrei a ele o tema da Estrela Americana:
- Não é isso? É só mudar a letra!
E aí fizemos o Estrela Natureza:
Estrela Natureza, precisamos demais
Te ter sempre por perto, na calma e santa paz
Nos morros e nos campos, no sol e no sereno,
Zelando por florestas, cuidando os animais...
Mulher e mãe de todos, o que será de nós
Se a força do inimigo calar a tua voz
Que sai dos passarinhos, dos mares e dos rios
Dos vales preguiçosos, dos velhos pantanais
Guti se empolgou com a música, Benedito Ruy Barbosa e Jayme Monjardim também e a Estrela Natureza emoldurou durante toda a novela a sensualidade pantaneira de Cristiana Oliveira.


O resto é História: Monjardim e Ruy Barbosa – sem esquecer a espetacular trilha incidental do Marquinhos Viana - revolucionaram a teledramaturgia brasileira com Pantanal, sucesso estratosférico que simplesmente atropelou a audiência da Globo no horário, uma façanha inimaginável no gênero e na época. A exposição dos dois temas que fizemos para a novela  - Estrela Natureza gravada por nós e Quem Saberia Perder, gravada por Ivan Lins – colocou-nos de volta ao jogo. Guti Carvalho apresentou-nos a Antonio Carlos Duncan, CEO da gravadora Eldorado, do grupo do Estadão, e antes que pudéssemos tomar  fôlego estávamos no MultiStudio, quartel-general de Guti na Barra da Tijuca, gravando um novo LP.

 


Vamos por Aí foi um disco marcante para nós, não só por ter – falsa modéstia nunca foi o meu forte! – um repertório brilhante, mas também pelo fato de ter-nos devolvido a auto-estima roubada pelo injusto cartão vermelho que tomáramos de Miguel Plopschi na RCA Ariola dois longos anos antes. Puxado pelos temas de Pantanal e depois por Ziriguidum Tchan - uma “sambeada” propositadamente calcada em Simon & Garfunkel, onde descrevíamos as agruras dos emigrantes brasileiros que conhecêramos em nossa tour norteamericana de 1989 – o disco teve ótimo desempenho de execução e vendas. Nele pudemos também misturar a experiência de músicos como Tavito, Ricardo Cristaldi, Paulinho Calasans, Marçalzinho, Claudio Infante, Eduardo Souto Neto, Pedrão Baldanza, Ulysses Rocha, Ruriá Duprat, Rui Motta e Fernando Carvalho à juventude dos então recém-descobertos (mas já feras!) Luiz Meira, Tavinho Fialho, Arturzinho Maia, Rodrigo Campello, Newton Luiz e Cézinha Batera.


Fora isso tudo, ainda tivemos a alegria de dividir uma faixa da novela – Quem Saberia Perder – com Ivan Lins. No disco da novela, a voz de Ivan foi mixada à frente, eu e Guarabyra participando como vocais de apoio. No nosso disco, meio que invertemos os papéis, colocando nossas vozes ao lado do Ivan. São duas mixagens diferentes da mesma gravação.


A novela nos proporcionou também outra história curiosa: Guti Carvalho queria colocar a nossa Quem Saberia Perder na trilha, mas variando o intérprete. Amigos – e fãs! – que sempre fomos da dupla Ivan Lins - Vitor Martins, sugerimos o Ivan. Fomos então à casa dele, em Teresópolis, justamente no dia do malfadado confisco de poupança da era Collor. Ivan estava em pânico: vendera um imóvel na semana anterior e perdera tudo para a “poupança” de dona Zélia Cardoso de Mello... propusemos voltar em outro dia, mas ele achou que trabalhar seria o melhor remédio. Mostramos nossa música e em duas ou três passadas dele ao piano já sentíamos que nossa intuição estava certíssima: Ivan era “o” intérprete de Quem Saberia Perder. Mas a tarde em Terê não acabou por ali: Ivan saiu desfiando músicas, nós também e pouco antes de resolvermos sair pra jantar, ele falou que queria mostrar uma música pra gente e tocou Atrás Poeira. Foi amor à primeira vista. “É nossa!” – falei.  E realmente Atrás Poeira, dele e do Vítor, foi uma das três músicas de outros autores que gravamos em toda nossa discografia de mais de trezentas...


Até hoje temos em nosso setlist músicas do Vamos por Aí, como Ziriguidum Tchan, Meu Lar é Onde Estão Meus Sapatos – que abre nossos shows – e Estrela Natureza. É um disco feliz. Foi bem gravado, bem produzido e bem acabado, com um belo layout de Bob Gueiros e uma expressiva foto da Gilda. Foi relançado em CD e depois em diversas compilações. Foi bom de fazer, de cantar e de encontrar pessoas queridas no estúdio. Foi um disco como todos os discos deviam ser.


Ah, e teve também um leve sabor de vingança...

 

Discos da minha vida: Vamos por aí
Luiz Carlos Sá

COMENTÁRIOS

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

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