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COLUNISTAS

Faça como eles, mas seja você mesmo

09/09/2021 - 10:17h
Atualizado em 10/09/2021 - 10:51h

 

Minha infância em Vila Isabel foi passada entre portugueses. Namorados – e depois maridos – de primas, comerciantes amigos de meus pais, a todos eles eu encontrava em meio a sambas e fados nos intermináveis saraus que rolavam na nossa varanda do segundo andar de um pequeno prédio na rua Major Barros. O sotaque português sempre me soube (olha aí o lusitanismo!) a uma infância de violões, madrugadas, risos e amizade.

 

 

Na primeira vez em que estive em Portugal, no carnaval de 99, fiquei surpreso ao percorrer as ruas lisboetas entre crianças fantasiadas. Vinha – esquecido da infância – acreditando que apenas por estar em território europeu encontraria estranhamento semelhante ao que me esperou nas ruas de Nova Iorque em 1989, ainda que com uma língua irmã. Mas logo entendi que estava em casa. Uma casa diferente, claro, a um inteiro oceano de distância, mas ainda assim “casa”. Ia ficar três ou quatro dias antes de seguir para Barcelona, mas dois amigos brasileiros – já completamente integrados àquele universo – atiraram-me à corrente do Tejo. E acabei por deixar Lisboa a contragosto, ainda que para no dia seguinte ser consolado por taças de Codorníu nas ramblas barcelonesas.

 

 

Mas agora, a bordo do século XXI, o caso é mais sério. Venho para cá por fascinação própria. Arrisco-me ao desbrasileiramento parcial em favor de descobrir como é a vida na terra que me originou, não fosse eu, por sobrenome Pereira de Sá e bisneto de português pelos dois lados da genética, destinado a ser um reverso de Cabral entre outros milhares de tantos.

 

 

Eu quis assim. E a princípio, o arrependimento me assombrou: e se não desse certo? e se a saudade de filhos, netos e amigos deixados para trás fosse impossível de suportar, num tempo de exceções onde o ir e vir é condicionado ao maldito vírus mutante que parece saído de um conto sci-fy da década de 70? tudo isso me passou pela cabeça, mas resisti. Sou aventureiro por natureza, inquieto, ainda que carioca, raça que como todos sabem vive do Leme ao Pontal com breves incursões pelo interior guanabarino e pelas serras vizinhas.

 

 

Aquele momento solene de entrar num avião sem ter a passagem de volta comprada e consagrada é extremamente simbólico. Dá vontade de pegar o celular e ligar pra todo mundo até que a aeromoça mande guardar tal coisa inútil, cujo chip só voltará a funcionar em troca de uma moeda exógena.

 

 

Mas não nos iludamos com a semelhança do idioma, que vigora até a página cinco. O português de Portugal tem diferenças essenciais em relação ao do Brasil, como as têm diante de outras terras lusófonas. Nos primeiros dias não foram poucas as ocasiões em que achei que se falasse inglês seria melhor compreendido, visto que aqui também, em razão do turismo que move a economia portuguesa, o inglês é língua universal. Mas fui aprendendo. Em todas as minhas inúmeras viagens pelo Brasil e pelo exterior sempre segui a velha máxima: “Em Roma, faça como os romanos”. Não duvide que se você tentar conversar na língua local de onde estiver – mesmo sendo entendido a duras penas – você será melhor considerado. Em tempo: isso não inclui – a não ser que você seja um expert em linguística - ridículas tentativas de imitar o sotaque dos naturais, o que certamente será recebido com ironia ou risadas. Lembro-me de uma determinada época no começo dos 70 onde os baianos, principalmente, e outros nordestinos – que chegavam ao Rio em magotes - ficaram em alta moda com a meteórica ascensão de sua cultura, com Gil, Gal, Caetano e turma na linha de frente. Ora, alguns círculos cariocas culturalmente influenciáveis passaram a achar que imitar o sotaque do Nordeste os levaria a outro patamar social. A coisa ficou de tal maneira insuportável – tanto para nordestinos quanto para cariocas perceptivos – que logo os tais clones guanabarinos ganharam o epíteto de “baianocas” e conseguiram ser campeões no perigoso esporte de dissolver papos animados em praias e botecos, dispersando participantes com a mesma rapidez com que se chegavam ao grupo: “Ih, lá vem fulano!”.  E logo tanto nordestinos quanto cariocas d.o.c. inventavam mais o que fazer. Até mesmo argentinos – que também chegaram em bandos no Verão da Lata - tentavam se passar por baianos, dando origem à mais icônica piada de época, que contava de um portenho que ao tentar entrar de graça num show de Caetano, jurava à produção em vigoroso portunhol: “Yo soy bajano! Nasci en Pelorito!”

 

 

Então, empregar as palavras da terra é preciso. Não adianta, por exemplo, eu falar a um português que tal coisa “é um barato” – ela é “fixe”. Que fulano é o máximo - Ele é “porreiro”. E por aí adiante, podemos ir tentando facilitar a comunicação. Mas qualquer tentativa de falsificação da sintaxe ou “clonagem” de naturalidade será recebida com desconfiança e – em casos extremos – com aquela ironia cortante e certeira que a franqueza lusitana sabe utilizar com insuspeita maestria.

 

 

Bem... melhor então reescrever minha máxima de referência: “Em Roma...”: Faça, sim, como os romanos. Mas, por favor, não tente ser um deles.

 

 

Faça como eles, mas seja você mesmo
Luiz Carlos Sá

COMENTÁRIOS

Só li verdades! Parabéns pela matéria Farat

- Guile

Ótimo texto Zé parabéns !!!!! Aguardando os próximos!!!

- Marco Aurélio

Adoro ver e rever as lives do Sá! Redescobri várias músicas da dupla valorizadas pela execução nas "Lives do Sá". Espero que esse trabalho volte de vez em quando. O Sá, juntamente com o Guilherme Arantes e o Tom Zé, está entre os melhores contadores de casos da MPB. Um livro com a história da dupla/trio escrito por ele seria muito interessante!

- Bruno Sander

Ontem foi um desses dias em que a intuição está atenta. Saí a caminhar pela Savassi sabendo que iria entrar naquela loja de discos onde sempre acho algo precioso em vinil. Já na loja, fui logo aos brasileiros e lá estavam o Nunca e o Pirão de Peixe em ótimo estado de conservação, o que é raríssimo. Comprei ambos. O 2º eu já tinha, meio chumbado. O Nunca eu conhecia de CD, e tem algumas das músicas que mais gosto da dupla, p. ex. Nuvens d'Água (acho perfeita), Coisa A-Toa (alusão à ditadura?), e outras. Me disseram que o F. Venturini é fã do Procol Harum, e realmente alguns solos de órgão dele fazem lembrar a banda inglesa.

- João Henrique Jr.

Que maravilha de matéria. Me transportei aos anos de ouro da música brasileira

- Sidney Ribeiro

Trabalho lindão. Parabéns à todos os envolvidos!

- Anderson Farias de Melo

O que dizer do melhor disco da música nacional(minha opinião). Tive o prazer em ver eles como dupla e a volta como trio em um shopping da zona leste de sampa. Lançamento do disco outra vez na estrada. Espero poder voltar a vê-los novamente, já que o Sa hoje mora fora do Brasil. E essa Pandemia, que isolou muito as pessoas. Obrigado por vocês existirem como músicos, poetas e instrumentistas. Vocês são F..., Obrigado, abracos

- Luiz antonio Rocha

Que maravilha Querido Paulinho Paulo Farat!! Obrigado por dividir conosco momentos tão lindos , pela maravilha de pessoa e imenso talento que Vc sempre teve, tem e terá, sempre estará no lugar certo e na hora certa ! Emocionante! Tive a honra de trabalhar muitas vezes com Vc, em especial na época do Zonazul , obrigado por tudo, parabéns pela brilhante carreira e que Deus Abençõe sempre . Bjbj

- Michel Freidenson

Mais uma vez um texto sensacional sobre a história da música e dos músicos brasileiros. Parabéns primo e obrigado por manter viva a memória dessas pessoas tão especiais para nós E vai gravar o vídeo desta semana! Kkkk

- Carlos Ronconi

Grande Farat!!! Bacana demais a coluna! Cheio de boas memorias pra compartilha!!!

- Luciana Lee

Valeu Paulo Farat por registrar nosso trabalho com tanto carinho e emoção sincera. Foram momentos profissionais muito importantes para todos nós. Inesquecíveis ! A todos os membros de nossa equipe,( e que equipe! ) Nosso Carinho e Saudades ! ???? ???????????????????? Guilherme Emmer Dias Gomes Mazinho Ventura Heitor TP Pereira Paulo Braga Renato Franco Walter Rocche Hamilton Griecco Micca Luiz Tornaghi Carlão Renato Costa Selma Silva Marilene Gondim Cláudia Zettel (in memoriam) Cristina Ferreira Neuza Souza

- Alberto Traiger

Depois de um ano de empresa 3M pude fazer o bendito carnê e comprei uma vitrolinha (em 12X) e na mesma hora levei Pirão, Quatro (Que era o novo), Es´pelho Cristalino e Vivo do Alceu, fiquei um ano ouvindo e pirando sem parar, depois vi o show do Quatro em Campinas. Considero o mais equilibrado de todos, sendo que sempre pendendo pro rural e nem tanto pro urbano, um disco atemporal podendo ser ouvido em qualquer situação, pois levanta o astral mesmo. No momento, Chuva no campo é ''a favorita'', mas depois passa e vem outra, igualzinho à aquela banda de Liverpool, manja????

- Ademilson Carlos de Sá

B R A V O!!! Paulo Farat não esqueça: “Afina isso aí moleque!” Hahahaha Tremendo profissional, sou teu fã, Grande abraço!

- Dudu Portes

Show é sensacional. Mas a s sensação intimista de parecer que a live é um show particular, dentro da sua casa, do seu quarto, é impagável. Parabéns família, incluindo Guarabyra e Tommy...

- Ricardo Amatucci

Paulo Farat vai esta nas lives do Papo Na Web a partir de amanha apresentando "Os Albuns Que Marcaram As Nossas Vidas"" Não percam, www.facebook.com/depaponaweb todas as terças-feiras as 20:00 horas

- Carlos Ronconi

Caro Luiz Carlos Sá, as canções que vocês fazem são maravilhosas, sinto a energia de cada uma. Tornei-me um admirador do trabalho de vocês no final dos anos 1970 com o LP Quatro e a partir de então saí procurando os discos de vocês, paguei um preço extorsivo pelo vendedor, os LP's "Casaco Marrom" do Guarabyra e "Passado, Presente e Futuro" (primeiro do Trio), mas valeu. tenho todos em LP's e CD's até o Antenas, depois desse só em CD's e o DVD "Outra Vez Na Estrada" exceto o mais recente "Cinamomo" mas em breve estarei com ele para curtir. A última vez que vi um show da dupla (nunca vi o trio em palco), foi no Recife no dia 16/04/2016 na Caixa Cultural, vi as duas apresentações. Levei dois bolos de rolo pra vocês, mas o Guarabyra não estava. Quero registrar que tenho até o LP "Vamos Por Aí", todos autografados, que foi num show feito no Teatro do Parque, as apresentações seriam nos 14,15 e 16/10/1992 mas o Guarabyra perdeu o voo e só foram dois dias, no dia do seu aniversário e outro no dia 16. Inesquecível. Agora estou lendo essas crônicas maravilhosas. Grande abraço forte e fraterno e muita saúde e sucesso pra vocês, sempre. P.S. O meu perfil no Facebook é Xavier de Brito e estou lá como Super Fã.

- Edison Xavier de Brito

Me lembro de ter lido algumas destas crônicas dos discos quando voce as publicou no Facebook em 2013, Sá. Muito emocionante reler e me emocionar de novo. Voces foram trilha sonora importantíssima dos últimos anos da minha vida. Sou de 1986, portanto de uma geração mais nova que escuta voces. Gratidão e vida longa a voces!

- Luiz Fernando Lopes

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

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