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COLUNISTAS

Live-se quem puder!

13/07/2020 - 12:37h
Atualizado em 13/07/2020 - 14:51h

 

O espantoso fenômeno da pandemia nos pegou a todos de surpresa. A nós do palco, então, nem me fale. As reações variaram do alívio dos tímidos, poupados finalmente de ter que encarar a massa crítica da plateia à sua frente - pedaços de urânio enriquecido prestes a fazer de Chernobyl uma festinha de feriado – ao desespero daqueles que têm no público seu alimento, sua histamina, seu motor. Eu me alinho ao lado destes últimos. Confesso que aplausos me revigoram, me rejuvenescem, me colocam em estado de graça e agradecimento. Isso é pecado? ótimo. Nunca fui santo.

 

Na esteira dessa situação de ficção científica, vieram as lives. Nunca antes neste país (epa, parafraseei alguém?) se viu uma palavra inglesa acomodar-se tão de imediato ao dicionário popular, como se tivesse sido pronunciada pela primeira vez no século XIX por um clássico qualquer da nossa língua-mater. Não preciso escrevê-la aqui “entre aspas” ou em itálico nem explicar a ninguém que a pronúncia certa é “láive”. Mesmo os eremitas porventura escondidos nas cavernas do Petar sabem o que é uma live, até porque o sinal já deve estar chegando pelo menos à boca da gruta.

 

 

Claro que fui um dos primeiros a atacar de live. Impossível para mim viver sem tocar e cantar. Com o auxílio luxuoso da minha mulher, fui inventando maneiras e maneiras de fazê-las. Primeiro, com tudo acústico, confiando no microfone e na imagem do celular Iphone8 dela e pensando em transmitir apenas pelo Instagram. Não satisfez, e além disso a galera do só-Facebook reclamou, o que fez com que entrasse no jogo o Samsung Galaxy M30 do meu filho mais novo, para fazer a simultânea pro Face. A essa altura tivemos que correr atrás de tripés adequados, que só encontramos no site da Amazon, visto que as lojas estavam em locaute total. Para melhorar o áudio de voz, que na distância até os celulares perdia para o volume acústico dos violões, pluguei meu microfone Audio Technica ATM410 na entrada de voz do meu Roland AC60, com uma beirinha de reverber e contenção de frequência suficiente para evitar o acoplamento, o que balanceou bem o equilíbrio entre voz e instrumentos. A coisa começou bem, duas lives por semana, boa recepção, bom público, até que um belo dia... furo: a internet nos deixou na mão! Não desanimamos: entramos no site da provedora e partimos para uma faixa de 240Mb. Mas ainda enfrentávamos problemas no YouTube. Minha mulher lembrou então daquela filmadora Sony HDR XR520, escondida no armário, humilhada pela praticidade videomaker dos celulares 4K. A Sony se revelou a cereja do bolo! Com som e imagem HDR à beira do impecável (não estamos falando de níveis profissionais) e um tripé apropriado, ela não parece ter seus dez anos de idade, num tempo em que a tecnologia atropela a si própria sem piedade. Seus 240Gb cumprem com folga a hora da live num HD interno, fora a capacidade proporcionada pelo SD disk que você escolher.

 

Acertado o aparato técnico, parti para pensar no que fazer. Enquanto ia pensando e fazendo, ia assistindo também. As super lives , aquelas que são um verdadeiro show filmado, não podiam ser meu objetivo. Com o handicap de ser uma dupla dividida entre duas cidades, o que limita e dificulta nossa capacidade técnica, tive que partir para o individual, para o intimista, para o olho no olho. Minha mulher teve a ideia de fazer uma live para cada disco gravado pelo trio, Sá, Rodrix & Guarabyra e pela dupla Sá & Guarabyra, o que me levou ao delicioso paradoxo de ser um pesquisador minucioso da própria obra e me tornou um especialista em mim mesmo... Fora isso – que já valeria a pena a trabalheira técnica e artística de fazer duas lives por semana – comecei a viajar na nova capacidade de entender de imediato, através dos comentários, o impacto que causa o que você fala, canta ou toca. Ter um feedback imediato do seu desempenho é particularmente fascinante. É óbvio que nada vai substituir um show ao vivo, a vibração do público, a empatia da presença, mas os comentários e emojis que vão surgindo na tela fazem com que você se sinta um intrometido, plateia adentro, ouvindo aqueles sussurros, participando das surpresas, entendendo os momentos de entusiasmo e mesmo os de decepção pela ausência de uma música favorita no setlist.

 

 

As lives chegaram para ficar? acho que não. Já falaram isso do trabalho em home office – que funciona – mas já estão surgindo as primeiras contestações, baseadas simplesmente na natureza humana, saudosa do contato físico, da interação mesmo mascarada, daquilo que nos faz o que sempre fomos. Olhar para o - ou do - palco e ver - ou fazer -coisas acontecerem é coisa que existe há milhares de anos. O ser humano não inventa nada que não seja pressionado a inventar, e desinventar é uma tarefa ingrata.

 

Então, para não me sentir dead, sigo nas lives. Elas podem ser vistas no nosso canal do YouTube, Sá & Guarabyra Oficial, onde estão todas e cada uma, editadas com carinho pelo meu compadre Zé Antonio Tonelo, para que no futuro eu mesmo as assista e lembre de um tempo estranho, desafiador, que nos pôs todos à prova. Mas que também terá feito de nós, tomara, seres mais criativos e prontos a responder à altura quando o imprevisível mostrar de novo sua cara... feia?...

 

Live-se quem puder!
Luiz Carlos Sá

COMENTÁRIOS

Depois de um ano de empresa 3M pude fazer o bendito carnê e comprei uma vitrolinha (em 12X) e na mesma hora levei Pirão, Quatro (Que era o novo), Es´pelho Cristalino e Vivo do Alceu, fiquei um ano ouvindo e pirando sem parar, depois vi o show do Quatro em Campinas. Considero o mais equilibrado de todos, sendo que sempre pendendo pro rural e nem tanto pro urbano, um disco atemporal podendo ser ouvido em qualquer situação, pois levanta o astral mesmo. No momento, Chuva no campo é ''a favorita'', mas depois passa e vem outra, igualzinho à aquela banda de Liverpool, manja????

- Ademilson Carlos de Sá

B R A V O!!! Paulo Farat não esqueça: “Afina isso aí moleque!” Hahahaha Tremendo profissional, sou teu fã, Grande abraço!

- Dudu Portes

Show é sensacional. Mas a s sensação intimista de parecer que a live é um show particular, dentro da sua casa, do seu quarto, é impagável. Parabéns família, incluindo Guarabyra e Tommy...

- Ricardo Amatucci

Paulo Farat vai esta nas lives do Papo Na Web a partir de amanha apresentando "Os Albuns Que Marcaram As Nossas Vidas"" Não percam, www.facebook.com/depaponaweb todas as terças-feiras as 20:00 horas

- Carlos Ronconi

Caro Luiz Carlos Sá, as canções que vocês fazem são maravilhosas, sinto a energia de cada uma. Tornei-me um admirador do trabalho de vocês no final dos anos 1970 com o LP Quatro e a partir de então saí procurando os discos de vocês, paguei um preço extorsivo pelo vendedor, os LP's "Casaco Marrom" do Guarabyra e "Passado, Presente e Futuro" (primeiro do Trio), mas valeu. tenho todos em LP's e CD's até o Antenas, depois desse só em CD's e o DVD "Outra Vez Na Estrada" exceto o mais recente "Cinamomo" mas em breve estarei com ele para curtir. A última vez que vi um show da dupla (nunca vi o trio em palco), foi no Recife no dia 16/04/2016 na Caixa Cultural, vi as duas apresentações. Levei dois bolos de rolo pra vocês, mas o Guarabyra não estava. Quero registrar que tenho até o LP "Vamos Por Aí", todos autografados, que foi num show feito no Teatro do Parque, as apresentações seriam nos 14,15 e 16/10/1992 mas o Guarabyra perdeu o voo e só foram dois dias, no dia do seu aniversário e outro no dia 16. Inesquecível. Agora estou lendo essas crônicas maravilhosas. Grande abraço forte e fraterno e muita saúde e sucesso pra vocês, sempre. P.S. O meu perfil no Facebook é Xavier de Brito e estou lá como Super Fã.

- Edison Xavier de Brito

Me lembro de ter lido algumas destas crônicas dos discos quando voce as publicou no Facebook em 2013, Sá. Muito emocionante reler e me emocionar de novo. Voces foram trilha sonora importantíssima dos últimos anos da minha vida. Sou de 1986, portanto de uma geração mais nova que escuta voces. Gratidão e vida longa a voces!

- Luiz Fernando Lopes

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

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