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COLUNISTAS

Noites Pandêmicas

30/10/2020 - 14:35h
Atualizado em 30/10/2020 - 15:44h

 

Acordei ofegante e sentei-me na cama, ainda assustado. Reclamando da agitação, minha mulher murmurou qualquer coisa, mas acabou por apenas virar de lado, sem despertar de todo. 

 

- Que pesadelo... – sussurrei em seu ouvido, mas ela não se mexeu. Insisti:

- Ouve só.

Nada de resposta. Mas eu precisava desabafar e saí falando:

 

 - Imagina: eu lá no banheiro me preparando pra sair pro estúdio. Estava até decorando uma letra.

(Parei um pouco para tentar lembrar melodia e letra que povoaram o sonho. Não lembrei, pena).

 

Aí, toca o celular. Era o Chico. Vai me dizendo que encheu a agenda de shows: “Estamos lotados, cara. Vai reforçando a mala porque este ano não vamos parar em casa”. “Que beleza”, respondi, “você é mesmo um super empresário, a não ser que tenha feito uns abatimentos indecentes”. (Amor, acorda aí um pouquinho, tá me ouvindo? Nada. Acho que ela já voltou ao sono r.e.m.) Vamos em frente: desliguei e fui escolher uma roupa no armário. O armário estava vazio! nem uma camisa, nem uma cueca sequer! que é isso! (Estremeço com a lembrança da cena. Quase levanto pra conferir) Mas, no sonho, corri para a área de serviço, esperando encontrar alguma peça salvadora no varal... vazio!  Abri a lavadora de roupas e fui bafejado por um cheiro de mofo. Nada lá dentro também. Fui para a sala e você, amor, estava lá, placidamente sentada à mesa, comendo uma torrada e mexendo no celular. “Querida”, falei, “não tenho nada pra vestir”! você respondeu que “tinha sim”, estava justamente agora vestido com o pijama do Mickey, trazido da Disney por sua tia Eudora. Só aí reparei que estava de fato com aquele pijama horroroso. (Nossa, nem assim ela acordou, deve estar ferrada no décimo sono). Já um tanto atrasado para a gravação, engoli o café – sem sequer merecer uma segunda atenção sua, meu bem! – e saí pra garagem. E aí começa o pesadelo de fato: a garagem estava lotada, ninguém ainda havia saído, isso às dez e tanto. E os carros?! os carros, empoeirados, pneus arriados, para-brisas com elaborados “me lave” escritos pela molecada do condomínio. “Táxi”, pensei, já sacando do celular e discando para o ponto. Ninguém atendeu. Resolvi ir a pé mesmo, não seriam três quilômetros que me impediriam de gravar aquela pequena obra prima que eu ia trauteando pela rua estranhamente deserta. De repente, uma freada, um guincho, um barulho de portas de carro batendo: sou brutalmente empurrado de encontro a um muro, com um berro nos ouvidos:

 

- Polícia! mãos pra trás!

Obedeço e sou logo algemado. O meganha me vira de frente. Para meu espanto e temor, ele está com uma touca ninja e uma máscara cirúrgica preta:

 


- Documentos! E cadê a máscara?


 

Aos poucos vou fazendo o cara entender que seria impossível carregar documentos num pijama de Mickey sem bolsos. 

- Mas e a máscara? como você sai sem máscara?

- E sem luvas também! – acrescenta o dupla dele, me olhando com um ar penalizado. 

- Acho que deve ser mais um doidão daqueles que fogem de casa – continua o dupla

- É! – concorda o “bad cop”, rindo – aqueles que fogem da mulher! 

- Isso! saem escondido! e de pijama!

 

Os dois começam a gargalhar descontroladamente. Tiram-me as algemas, entram no carro e saem cantando os pneus. Eu fico ali, encostado naquele muro. Máscara? Luvas? o que estava acontecendo? acabo por decidir que trabalhar é o melhor remédio e sigo pelas avenidas quase desertas, ocasionalmente cortadas por uma ou outra ambulância ou viatura de bombeiros. Chego afinal no estúdio. Toco o interfone:

- Sim? – respondem

- Oi, é o Sá.

 


O portão se abre e eu corro direto para sala da técnica, como que fugindo daquelas ruas sinistras. Meu amigo Paulo Farat está sentado diante de uma enorme console Neve, cheia de pequenas luzes que se acendem e apagam como se estivessem gravando, o que não parece acontecer, visto que o “aquário” está vazio e o silêncio é sepulcral.


 

- E aí, Paulinho, vamos lá? roda a base aí.

Farat me olha, surpreso:

- Base? 

Vira a cadeira em minha direção:

- Que base?

Fico desconcertado:

- Ué, a base daquela música... da...

 

O nome da música não me vem à cabeça. Dou uma solfejada na melodia, mas a letra também me fugiu. Farat se levanta lentamente e vai vestindo o casaco para sair:

- Não tem nada pra gravar não.

 

Depois de Farat ir embora fiquei ali olhando as luzes da mesa, tentando decifrar algum caminho que fizesse com que tudo funcionasse automaticamente e eu pudesse gravar. Afinal desisti. Sentei na poltrona da técnica e fui pouco a pouco sendo embalado pelo pisca- pisca multicor da Neve...

 

- Acordei nesse susto! Ouviu, amor? Caraca, que pesadelo! mesmo sendo só sonho é de matar um!

A narrativa intensa despertara minha mulher por completo. Sentada na cama, ela me olhava com um misto de pena e carinho. Colocou minhas mãos entre as suas e falou:

- Acho melhor você ligar pro Chico.

 

 

 

Noites Pandêmicas
Luiz Carlos Sá

COMENTÁRIOS

Só li verdades! Parabéns pela matéria Farat

- Guile

Ótimo texto Zé parabéns !!!!! Aguardando os próximos!!!

- Marco Aurélio

Adoro ver e rever as lives do Sá! Redescobri várias músicas da dupla valorizadas pela execução nas "Lives do Sá". Espero que esse trabalho volte de vez em quando. O Sá, juntamente com o Guilherme Arantes e o Tom Zé, está entre os melhores contadores de casos da MPB. Um livro com a história da dupla/trio escrito por ele seria muito interessante!

- Bruno Sander

Ontem foi um desses dias em que a intuição está atenta. Saí a caminhar pela Savassi sabendo que iria entrar naquela loja de discos onde sempre acho algo precioso em vinil. Já na loja, fui logo aos brasileiros e lá estavam o Nunca e o Pirão de Peixe em ótimo estado de conservação, o que é raríssimo. Comprei ambos. O 2º eu já tinha, meio chumbado. O Nunca eu conhecia de CD, e tem algumas das músicas que mais gosto da dupla, p. ex. Nuvens d'Água (acho perfeita), Coisa A-Toa (alusão à ditadura?), e outras. Me disseram que o F. Venturini é fã do Procol Harum, e realmente alguns solos de órgão dele fazem lembrar a banda inglesa.

- João Henrique Jr.

Que maravilha de matéria. Me transportei aos anos de ouro da música brasileira

- Sidney Ribeiro

Trabalho lindão. Parabéns à todos os envolvidos!

- Anderson Farias de Melo

O que dizer do melhor disco da música nacional(minha opinião). Tive o prazer em ver eles como dupla e a volta como trio em um shopping da zona leste de sampa. Lançamento do disco outra vez na estrada. Espero poder voltar a vê-los novamente, já que o Sa hoje mora fora do Brasil. E essa Pandemia, que isolou muito as pessoas. Obrigado por vocês existirem como músicos, poetas e instrumentistas. Vocês são F..., Obrigado, abracos

- Luiz antonio Rocha

Que maravilha Querido Paulinho Paulo Farat!! Obrigado por dividir conosco momentos tão lindos , pela maravilha de pessoa e imenso talento que Vc sempre teve, tem e terá, sempre estará no lugar certo e na hora certa ! Emocionante! Tive a honra de trabalhar muitas vezes com Vc, em especial na época do Zonazul , obrigado por tudo, parabéns pela brilhante carreira e que Deus Abençõe sempre . Bjbj

- Michel Freidenson

Mais uma vez um texto sensacional sobre a história da música e dos músicos brasileiros. Parabéns primo e obrigado por manter viva a memória dessas pessoas tão especiais para nós E vai gravar o vídeo desta semana! Kkkk

- Carlos Ronconi

Grande Farat!!! Bacana demais a coluna! Cheio de boas memorias pra compartilha!!!

- Luciana Lee

Valeu Paulo Farat por registrar nosso trabalho com tanto carinho e emoção sincera. Foram momentos profissionais muito importantes para todos nós. Inesquecíveis ! A todos os membros de nossa equipe,( e que equipe! ) Nosso Carinho e Saudades ! ???? ???????????????????? Guilherme Emmer Dias Gomes Mazinho Ventura Heitor TP Pereira Paulo Braga Renato Franco Walter Rocche Hamilton Griecco Micca Luiz Tornaghi Carlão Renato Costa Selma Silva Marilene Gondim Cláudia Zettel (in memoriam) Cristina Ferreira Neuza Souza

- Alberto Traiger

Depois de um ano de empresa 3M pude fazer o bendito carnê e comprei uma vitrolinha (em 12X) e na mesma hora levei Pirão, Quatro (Que era o novo), Es´pelho Cristalino e Vivo do Alceu, fiquei um ano ouvindo e pirando sem parar, depois vi o show do Quatro em Campinas. Considero o mais equilibrado de todos, sendo que sempre pendendo pro rural e nem tanto pro urbano, um disco atemporal podendo ser ouvido em qualquer situação, pois levanta o astral mesmo. No momento, Chuva no campo é ''a favorita'', mas depois passa e vem outra, igualzinho à aquela banda de Liverpool, manja????

- Ademilson Carlos de Sá

B R A V O!!! Paulo Farat não esqueça: “Afina isso aí moleque!” Hahahaha Tremendo profissional, sou teu fã, Grande abraço!

- Dudu Portes

Show é sensacional. Mas a s sensação intimista de parecer que a live é um show particular, dentro da sua casa, do seu quarto, é impagável. Parabéns família, incluindo Guarabyra e Tommy...

- Ricardo Amatucci

Paulo Farat vai esta nas lives do Papo Na Web a partir de amanha apresentando "Os Albuns Que Marcaram As Nossas Vidas"" Não percam, www.facebook.com/depaponaweb todas as terças-feiras as 20:00 horas

- Carlos Ronconi

Caro Luiz Carlos Sá, as canções que vocês fazem são maravilhosas, sinto a energia de cada uma. Tornei-me um admirador do trabalho de vocês no final dos anos 1970 com o LP Quatro e a partir de então saí procurando os discos de vocês, paguei um preço extorsivo pelo vendedor, os LP's "Casaco Marrom" do Guarabyra e "Passado, Presente e Futuro" (primeiro do Trio), mas valeu. tenho todos em LP's e CD's até o Antenas, depois desse só em CD's e o DVD "Outra Vez Na Estrada" exceto o mais recente "Cinamomo" mas em breve estarei com ele para curtir. A última vez que vi um show da dupla (nunca vi o trio em palco), foi no Recife no dia 16/04/2016 na Caixa Cultural, vi as duas apresentações. Levei dois bolos de rolo pra vocês, mas o Guarabyra não estava. Quero registrar que tenho até o LP "Vamos Por Aí", todos autografados, que foi num show feito no Teatro do Parque, as apresentações seriam nos 14,15 e 16/10/1992 mas o Guarabyra perdeu o voo e só foram dois dias, no dia do seu aniversário e outro no dia 16. Inesquecível. Agora estou lendo essas crônicas maravilhosas. Grande abraço forte e fraterno e muita saúde e sucesso pra vocês, sempre. P.S. O meu perfil no Facebook é Xavier de Brito e estou lá como Super Fã.

- Edison Xavier de Brito

Me lembro de ter lido algumas destas crônicas dos discos quando voce as publicou no Facebook em 2013, Sá. Muito emocionante reler e me emocionar de novo. Voces foram trilha sonora importantíssima dos últimos anos da minha vida. Sou de 1986, portanto de uma geração mais nova que escuta voces. Gratidão e vida longa a voces!

- Luiz Fernando Lopes

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

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