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COLUNISTAS

Toda gravação é uma grande aula sobre música!

20/05/2021 - 12:49h
Atualizado em 20/05/2021 - 16:18h

 

Dois meses atras, o violonista André Siqueira, meu amigo de longa data, me propôs gravarmos seu novo álbum na Gravadora Experimental. O Projeto seria um álbum de 10 faixas com composições do acordeonista Toninho Ferragutti, executadas no violão e quatro delas com a participação do próprio Toninho.

 

O projeto desde o início orbitaria sobre dois aspectos importantes. O primeiro deles seria a gravação realizada com violão e acordeom juntos na nossa sala principal e o segundo seria que a performance aconteceria sem edições ou emendas. O objetivo seria em três dias gravarmos as 10 faixas da maneira mais orgânica possível apostando no tripé: instrumento, sala e performance.

 

 

A preparação

Sempre quando absorvemos um projeto como esse acionamos uma equipe de produção executiva, formada por nossos alunos mais experientes, para planejar com precisão toda a pré-produção técnica, a logística e o cronograma da gravação. Quando músicos se deslocam para Tatuí para um projeto de gravação nada pode dar errado nesse processo. Tudo deve ser checado e todas as possíveis falhas devem ser previstas, principalmente as falhas de recursos técnicos. Semanas antes inicia-se o planejamento da microfonação, a checagem das vias de fone, a substituição de cabos e conectores ruins e o funcionamento do computador que será usado. Também nesse momento discutimos sobre a estética sonora do projeto, pedimos as referências sonoras e fazemos uma pesquisa sobre a vida artística os músicos participantes. É importantíssimo que todos da equipe estabeleçam prontamente uma relação com os músicos e nada melhor que uma pesquisa sobre as últimas obras lançadas e os trabalhos mais relevantes.

 


Além do RCA, Neumann M-149 (tube) posicionado logo na frente do instrumento
a aproximadamente um metro de distância, combinado com um par de DPA 4015 em XY

 

 

 

Microfonar bem é o objetivo

Quando trabalhamos com músicos muito experientes em gravação, como é o caso, tanto do André Siqueira, como do Toninho Ferragutti, fica muito mais claro o alvo a ser atingido. Na concepção artística do álbum a sugestão técnica da sonoridade e da escolha dos recursos emerge nas primeiras conversas pela escuta das sonoridades de referência. André se interessou muito pelo Neumann m149 (tube) posicionado logo na frente do instrumento aproximadamente um metro de distância, combinado com um par de DPA 4015 em X/Y. Já o acordeom seria usado um par de Neumann u87 em X/Y e o restante seriam microfonações de ambiência de sala com DPA 4006. Para minha surpresa o André dispensou qualquer processamento prévio de compressão e equalização, resolveríamos o som somente com os microfones, o que me trouxe uma imensa tranquilidade. É muito comum, na ansiedade de “processar o som” para chegar na cor, estragar completamente o som da sala e dos microfones que por si só são primorosos.

 

 


AS microfonações de ambiência de sala foram feitas com DPA 4006

 

 

Seção Aurea

Tudo pronto, tudo planejado e checado, toda equipe seguindo protocolos de segurança, inclusive com o uso obrigatório de máscaras Pff2, abrimos o estúdio as 8h da manhã para receber os músicos que chegariam as 9h. Foi uma alegria a chegada deles, conheço o André desde os 12 anos de idade. Fizemos faculdade de Música em Londrina juntos  e também fomos professores na UEL em um mesmo período antes de eu voltar para o estado de São Paulo. Receber o Toninho Ferragutti pra gravar no nosso estúdio me encheu de orgulho, fiz muita propaganda mesmo, confesso. Quando estávamos eu e o André lá no fim dos Anos 90 fazendo faculdade, o Toninho já era uma grande referência do acordeom nacional e já tinha seu primeiro álbum. Apresentando a sala expliquei para ambos que nosso arquiteto e professor do curso, Davison Pinheiro, calculou e identificou os pontos da seção áurea da sala de gravação, o que traz para esse lugar um encaixe na ambiência muito mais homogêneo, quase místico! Decidimos que o acordeom ficaria nesse ponto e o violão 3 metros de distância para manter o contato visual e diminuir a interferência do acordeom na microfonação do violão. Mas eu ainda tinha uma carta na manga para esse projeto, algo que mudaria consideravelmente o plano, para melhor.

 


Acordeom com um par de Neumann U87 em XY e o restante

 

 

O elemento surpresa

No processo de planejamento da microfonoação, o André havia me falado que no seu último álbum pode usar um microfone de fita da Beyerdynamics e que ele gostou muito em conjunto com os outros. Sabendo disso, lembrei de um outro amigo que há muitos anos teve a sorte de tropeçar com um RCA 44BX (anos 50) em um antiquário e que depois de toda restauração ele estava plenamente em uso. Então semanas antes peguei o microfone para testar e fiquei completamente apaixonado pela sonoridade. Casei a compra do microfone, levei-o para a gravação e coloquei ele (quase) despretensiosamente a disposição do André.  Quando cheguei na sala técnica pra ouvir o som tivemos todos a mesma surpresa: era o som da referência que deveríamos alcançar, o som do violonista Paulo Belinatti no disco Afro–Sambas com a cantora Mônica Salmaso. Isso mudou tudo. O famoso Neumann m149 passou a ser coadjuvante na gravação, trazendo um pouco de brilho e definição, mas de fato o som do violão seria o do RCA. No acordeom a surpresa veio da soma dos Neumann u87 com a captação ativa do acordeom do Toninho o que também trouxe a definição necessária para o gosto do músico.  Tudo certo, vamos gravar!

 

 

A importância da direção musical

Foram três dias e meio de gravação, começamos pelas músicas junto com acordeom e toda a produção e orientação da performance dirigida pelo próprio André e Toninho sempre buscando o melhor take integro e evitando qualquer tipo de edição e montagem. O som que já estava definido quase não sofreu alterações e, nesse sentido, o álbum se encaminhou pra uma mixagem quase pronta no momento da gravação. No segundo dia Toninho não gravou e ficou ocupado com aulas na EMESP Tom Jobim e por isso não acompanhou as gravações. Gravar sem o compositor orientando a performance deixa o clima menos descontraído justamente pela incerteza da direção musical. Retomando a sua participação no terceiro dia os alunos também notaram que, apesar de mais cansado fisicamente, o André estava mais leve na execução, provavelmente pelo trabalho de direção musical indispensável nesses momentos mesmo para músicos muito experientes. O quarto e quinto dia ficaram destinados a pré-mix que já saiu com cara de mix finalizada faltando poucos ajustes antes da master. Para nós da FATEC todo trabalho concluído é uma vitória grandiosa, principalmente nesses momentos de pandemia, isso fora o aprendizado nos momentos entre sessões e a formação curricular dos nossos alunos que segue cada vez mais irretocável.

 

 

Participaram dessa gravação os alunos

 

 

Produção Executiva

Rafael dos Santos Costa

Marjorie Macário Maximiano

 

 

Assistente de Gravação

Ana Paula Kelm Soares

Andresa Ramos de Assis

Bruno Diogo Leme Loureiro

Letícia Campos de Oliveira

 

 

Engenharia de Áudio

Naamã de Moraes Maragno

Léo de Souza Mazzuia

 

 

Toda gravação é uma grande aula sobre música!
José Carlos Pires

COMENTÁRIOS

Depois de um ano de empresa 3M pude fazer o bendito carnê e comprei uma vitrolinha (em 12X) e na mesma hora levei Pirão, Quatro (Que era o novo), Es´pelho Cristalino e Vivo do Alceu, fiquei um ano ouvindo e pirando sem parar, depois vi o show do Quatro em Campinas. Considero o mais equilibrado de todos, sendo que sempre pendendo pro rural e nem tanto pro urbano, um disco atemporal podendo ser ouvido em qualquer situação, pois levanta o astral mesmo. No momento, Chuva no campo é ''a favorita'', mas depois passa e vem outra, igualzinho à aquela banda de Liverpool, manja????

- Ademilson Carlos de Sá

B R A V O!!! Paulo Farat não esqueça: “Afina isso aí moleque!” Hahahaha Tremendo profissional, sou teu fã, Grande abraço!

- Dudu Portes

Show é sensacional. Mas a s sensação intimista de parecer que a live é um show particular, dentro da sua casa, do seu quarto, é impagável. Parabéns família, incluindo Guarabyra e Tommy...

- Ricardo Amatucci

Paulo Farat vai esta nas lives do Papo Na Web a partir de amanha apresentando "Os Albuns Que Marcaram As Nossas Vidas"" Não percam, www.facebook.com/depaponaweb todas as terças-feiras as 20:00 horas

- Carlos Ronconi

Caro Luiz Carlos Sá, as canções que vocês fazem são maravilhosas, sinto a energia de cada uma. Tornei-me um admirador do trabalho de vocês no final dos anos 1970 com o LP Quatro e a partir de então saí procurando os discos de vocês, paguei um preço extorsivo pelo vendedor, os LP's "Casaco Marrom" do Guarabyra e "Passado, Presente e Futuro" (primeiro do Trio), mas valeu. tenho todos em LP's e CD's até o Antenas, depois desse só em CD's e o DVD "Outra Vez Na Estrada" exceto o mais recente "Cinamomo" mas em breve estarei com ele para curtir. A última vez que vi um show da dupla (nunca vi o trio em palco), foi no Recife no dia 16/04/2016 na Caixa Cultural, vi as duas apresentações. Levei dois bolos de rolo pra vocês, mas o Guarabyra não estava. Quero registrar que tenho até o LP "Vamos Por Aí", todos autografados, que foi num show feito no Teatro do Parque, as apresentações seriam nos 14,15 e 16/10/1992 mas o Guarabyra perdeu o voo e só foram dois dias, no dia do seu aniversário e outro no dia 16. Inesquecível. Agora estou lendo essas crônicas maravilhosas. Grande abraço forte e fraterno e muita saúde e sucesso pra vocês, sempre. P.S. O meu perfil no Facebook é Xavier de Brito e estou lá como Super Fã.

- Edison Xavier de Brito

Me lembro de ter lido algumas destas crônicas dos discos quando voce as publicou no Facebook em 2013, Sá. Muito emocionante reler e me emocionar de novo. Voces foram trilha sonora importantíssima dos últimos anos da minha vida. Sou de 1986, portanto de uma geração mais nova que escuta voces. Gratidão e vida longa a voces!

- Luiz Fernando Lopes

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

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