Eu e a música

January 5, 2018

 

Capítulo 1 - Quem nasce lá na Vila...

 

A Vila Isabel de meados dos anos 40 ainda respirava Noel Rosa, que havia menos de uma década partira pro céu dos boêmios incorrigíveis. Naquela zona norte de moços de chapéu e senhoritas de saias rodadas, o bairro se distinguia por ter a maioria de suas ruas já cobertas de asfalto, embora paralelepípedos ainda ralassem os joelhos dos garotos nas peladas pouco interrompidas pelos raros automóveis que circulavam fora da 28 de setembro, esta sim, uma avenida vibrante, coalhada de gente apressada e bondes estrepitosos.

 

Foi lá que eu nasci. Ou melhor, não foi lá que nasci: foi lá que morei desde o meu quinto dia de vida, oriundo da longínqua Laranjeiras, mais precisamente da Casa de Saúde São Sebastião onde uma cesariana de urgência salvara a mim e minha mãe de uma passagem precoce para o que quer que exista, se existir, do outro lado da parede. Postos bebê e Zuleika em estado de voltar pra casa, lá fomos nós no Chevrolet 42 paterno para a rua Major Barros, 32, apartamento 201. Lar, doce lar, onde morávamos, eu, Sylvio, meu pai, Zuleika e Sylza, meia-irmã do primeiro casamento de Sylvio, dezessete anos mais velha que eu e encantada pela perspectiva de ter um bebê em casa. Não tive uma primeira infância modorrenta: ai-jesus da família, caçula geral da primalhada do lado materno, acabei por ser criado - e mimado! - por cinco mulheres que se revezavam em fazer ou pedir para minha mãe acolher as menores vontades do pimpolho. Porque lá pelo meu terceiro ano de vida moravam também com a gente minha prima-irmã Heydir e duas figuras não menos essenciais da minha infância: Helena - que viera de um orfanato Kardecista onde meu pai trabalhava como voluntário - e Naná, sobrinha da nossa funcionária doméstica de muitos anos, a Geralda, que a puxara para fora da pobreza endêmica de um arrabalde da cidade mineira de Pirapetinga.


Minha irmã trabalhava no Ministério da Aeronáutica, mas a azáfama das mulheres restantes na casa enchia o tempo. O rádio gritava o dia inteiro, esforçando-se por ser ouvido em todos os cômodos por aquela mulherada sempre ocupada com alguma coisa. Tudo naquele tempo era artesanal, não existiam máquinas disso ou daquilo para o trabalho doméstico e sob a batuta de Zuleika a casa era mantida impecável: você poderia lamber seu chão, o que eu ocasionalmente fazia, porque não era de parar quieto. Quando eu conseguia cansá-las a todas, elas me colocavam no cercadinho. De lá, eu berrava o que acreditava ser música, que ouvia da boca de Marlene, Emilinha Borba, Sílvio Caldas, Jamelão, Luiz Gonzaga, Dick Farney, Jorge Goulart, Nora Ney, Jackson do Pandeiro, Cauby, Ângela Maria e todo o resto do cast da rádio Nacional, presença diuturna nas minhas orelhas. Boleros lamentosos, sambas sacudidos, rumbas, guarânias, baiões, tangos, emboladas, tudo junto e misturado nos programas de César de Alencar, Manoel Barcelos e outros menos votados. Helena, por exemplo, era apaixonada por Ivon Cury, cantor melífluo de um belo timbre abaritonado (Cesar de Alencar o apelidara de “ator da canção”, pelo excesso gestual que colocava nas interpretações) chegado a versões de cançonetas francesas e foxes americanos trazidos à moda pelo pós-guerra que ainda vibrava no ar. Se Cesar ou Barcelos anunciavam Ivon, Helena pulava em gritinhos e ais, até que a censura de minha mãe pusesse um ponto final no espetáculo. Na área das cantoras, Naná era Marlene; Helena, Emilinha. Uma rivalidade que levava as duas ao extremo de deixarem de falar-se por horas, até que começasse o próximo programa de auditório e a trégua imperasse, para que pudessem ouvir as novidades, como o jovem Cauby Peixoto em começo de carreira.

 

Meu pai era escrevente em cartório e não raro trazia trabalho para casa. Eu ficava fascinado por aquela máquina imponente onde ele datilografava com impressionante rapidez escritura após escritura. Bastava ele sair para que eu me sentasse com minha irmã diante da Underwood estalando de nova e saísse escrevendo qualquer coisa que me viesse à cabeça. Nós nos divertíamos juntos nessas horas, com ela me propondo palavras cada vez mais difíceis. Com isso somado aos tijolinhos de letras que Naná arrumava pacientemente para ensinar-me as sílabas, cheguei ao então chamado Jardim de Infância - na escola pública, a República Argentina, lá na Vila mesmo - aos quatro anos já sabendo ler com certa fluência. Minha professora e vizinha da casa em frente, d. Maria Julia, gostava de me levar às salas do primeiro ano para fazer-me ler para os alunos. Isso me deixava profundamente encabulado, mas como eu a adorava, faria tudo que ela me pedisse. Ter uma primeira professora carinhosa como tive não tem preço.

 

Desde o primeiro ano primário, no ensino público, tínhamos aula de Canto Orfeônico. D. Carolina regia nosso coral com energia e precisão. Dos hinos, meu preferido era o Cisne Branco, da Marinha. Cantávamos também uma peça de Villalobos, que dizia “ó manhã de sol, Anhangá fugiu, Anhangá, eê, ah, foi você...”, inspirada, segundo nos foi dito, numa melodia tribal do folclore amazônico. O nacionalismo pós-guerra mostrava sua cara e era contagiante. No Cisne Branco eu me sentia navegando por outras terras; na peça de Villalobos eu me embrenhava nas matas com as tribos isoladas do Xingu que volta e meia as notícias dos semanários sobre os irmãos Villas-Boas traziam a público. Sem que eu percebesse, a Música ia exercendo um papel cada vez mais importante na minha vida e determinando o caminho acidentado que ia da cabeça ao coração.

 


 

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