O Futuro da Iluminação Cênica?

January 19, 2018

 

 

A iluminação cênica se desenvolveu, e evolui continuamente, a partir de duas demandas básicas: imaginação e tecnologia. Se pela imaginação delineiam-se as premissas que permitem a adoção de processos criativos para a concretização de ideias, o desenvolvimento tecnológico também facilita e agiliza esses meios de produção. 

 

Nesta conversa, outras referências e insumos serão discutidos, como possíveis caminhos para um futuro que a iluminação cênica trilhará, com fundamento em elementos reais e conhecidos, ou perspectivas surreais e desafiadoras.

 

Ao contrário de outras segmentações produtivas, para bens e serviços diversos, a ‘indústria do entretenimento’ apresenta desempenhos positivos e significativos, traduzidos na comercialização de entradas, merchandising, streaming e outros elementos vinculados a essa área. Se em uma primeira análise os números demonstram resultados expressivos (por exemplo, ingressos para megaespectáculos e festivais esgotados em poucas horas), os critérios qualitativos também acompanham esse desenvolvimento, com produções cada vez mais sofisticadas, impactantes e incomparáveis.

 

Apresentação da cantora americana Ariana Grande, durante o evento “One Love Manchester”, realizado em 04/06/2017 no Old Trafford Cricket Ground, Manchester, Inglaterra. Mais de um milhão de expectadores, via streaming. Fonte: NBC News

 Naturalmente, um número ainda maior de espectadores também tem por opção a busca de alternativas para a visualização desses eventos, e também muitas pessoas naturalmente escolhem as formas virtuais de transmissão e veiculação dos espetáculos como preferência, evitando os elevados investimentos em passagens e contratação dos mais diversos meios de transporte, diárias nos meios de hospedagem, e a própria participação presencial, pelos custos envolvidos (ingressos, alimentação). Em outros casos, como eventos singulares, essa pode ser a única possibilidade.

 

Definitivamente, há mercado e interesse para o atendimento de todos os públicos. Entretanto, para os participantes presenciais, diversos são os significados e requisitos que devem ser correspondidos – relacionados à fisiologia, segurança, importância, satisfação e exclusividade, entre outros.
Afinal, o que ainda poderia ser oferecido após tudo o que já existe nesse setor e, em muitos casos, torna-se previsível e minimamente esperado? Talvez seja esse ainda um dos diferenciais que a iluminação cênica tem a ofertar – e ‘brindar’, com empolgação e envolvimento.

 

Em diversas conversas com artistas e Lighting Designers, a importância dada aos públicos participantes tem sido um dos temas mais recorrentes, conhecidas as expectativas, características e comportamentos dessas plateias, que reagem diferentemente, de acordo com os aspectos regionais, sociais e mesmo em função do tipo de espetáculo e estilo musical.

 

Apresentação da banda americana Guns N’ Roses no T-Mobile Arena em Las Vegas (EUA), integrante da “Not In This Lifetime… Tour” (08/04/2016). Fonte: Three Match Breeze

 

Dessa maneira, dinâmicas diferentes também determinam e induzem comportamentos, em concordância ou com estímulos específicos e pontuais. Inevitavelmente, ‘explosões’ de fogos de artifício causam reações apoteóticas, em quaisquer que sejam os tipos de espetáculos. Esses efeitos são escolhidos para momentos de clímax ou esplendor. Também, nessas situações, além dos cuidados e zelo com a estrutura e forma de manipulação dos recursos envolvidos, são definidas todas as circunstâncias para a utilização desses tipos de artefatos explosivos.

 

 

 

Entretanto, outros dispositivos, também visuais e com alguns recursos sonoros complementares, são utilizados em projetos de iluminação cênica como elementos dinâmicos, acionados em determinados momentos para estimular o público e causar reações e incentivos à participação das plateias. Normalmente, são roteirizados e ‘cronometrados’, sendo, muitas vezes, previsíveis. Os Blinders são os instrumentos de iluminação cênica mais comuns, também utilizados em chamadas ou para influenciar a atuação dos públicos, entre outros recursos. 

 

Apresentação da banda inglesa Coldplay durante a Mylo Xyloto Tour. Destaque para as ‘Xilobands’, utilizadas em algumas canções. Fonte: Cezar Galhart

 

Algumas dinâmicas dependem exclusivamente das interações dos públicos envolvidos. Especificamente, uma experiência diferenciada ocorreu na ‘Mylo Xyloto Tour’ da banda inglesa Coldplay, iniciada durante o Rock In Rio em 2011, e finalizada na véspera do Réveillon de 2012, em Nova Iorque. Esta turnê apresentou um diferencial inusitado – e interativo – para as apresentações que sequenciaram a segunda apresentação, em Madri. Pulseiras com LEDs, chamadas de ‘Xiloband’, acionadas com suporte em receptores controlados por radiofrequência, eram ativadas e manipuladas pelas plateias, além de sincronizadas com as intenções das canções, formando cenários únicos.
Ainda, outras formas de interação poderiam ser estimuladas como consequência de ações espontâneas, embora coordenadas e programadas. Nesse contexto, os públicos agem com naturalidade, e continuamente, tendo como referência determinados dispositivos, disponibilizados para serem usados ‘em qualquer momento’.

 

 

Foi com esse pensamento que o cineasta, produtor e roteirista inglês Danny Boyle idealizou um dos mais contundentes momentos da cerimônia de abertura dos Jogos da XXX Olimpíada, ocorrida em Londres, em 2012. Mais de setenta mil dispositivos (chamados de ‘pás luminosas’, e formados por nove HP LEDs RGB), desenvolvidos pela empresa inglesa Tait Stage Technologies (empresa integrante da companhia Tait Towers), foram instalados junto aos espectadores participantes do evento, realizado no London Stadium, acionados e controlados pela empresa Crystal CG, mas manipulados e movimentados pelos espectadores, formando um gigantesco painel orgânico de LEDs, com 360º de amplitude, sendo um marco no desenvolvimento de projeção em larga escala.

 

Cerimônia de Abertura da XXX Olimpíada, em Londres (2012). Tela em 360º, formada por pixels constituídos por ‘pás’ com nove LEDs RGB. Fonte: Daily Mail Online

 

Nesses dois exemplos, a participação ativa do público foi determinante para o desempenho projetado e esperado, e substancialmente significativa para cada participante, pela experiência única e exclusiva. Não somente pelas lembranças, mas também pelos registros que eternizam um evento único, e mesmo em uma turnê, os resultados, também incomparáveis (afinal, mesmo para configurações idênticas em espaços diferentes, as dinâmicas são ainda únicas).

 

Mas, ainda há muito para ser explorado. A transição dos sistemas conectados por meios físicos para outros, com a utilização de sistemas sem fio (wireless), com suporte de infraestruturas estáveis e com elevada performance poderão ativar aplicativos em smartphones, entre outras maneiras de acionamento, para outras formas de comunicação e também intensificar e diversificar o uso de aparelhos celulares, e com outros propósitos (não somente para registros de imagens, vídeos ou simulações de luzes pontuais). Por mais simples e viável que possa parecer, isso ainda não ocorre com plenitude, pois o elevado tráfego de dados em eventos e festivais com milhares de participantes normalmente acarreta em congestionamento no acesso aos sistemas, e consequente insatisfação para todos os envolvidos. 

 Além dessas possibilidades, outros dispositivos ou tecnologias, tais como o uso de OLEDs poderia ainda propiciar outras concepções, e de maneira criativa e inovadora, oferecer outros formatos e dimensões para luminárias móveis, exclusivas e associadas apenas a um determinado show ou turnê, que poderiam ainda fomentar universos e práticas ainda a serem explorados, em condições também específicas e passíveis de viabilidade – técnica, operacional e econômica.

 

Utilização de smartphones na captação de imagens e vídeos. Fonte: Sounds Like Nashville

 

E se esses aparatos fossem também acionados pelos participantes, em diversos momentos e de acordo com sensações e emoções diferentes? De fato, as evoluções tecnológicas ainda permitem que a imaginação crie expectativas e estimativas a partir de soluções existentes, ou com condições de implementação com base em aplicações pre-existentes. Nesse sentido, a compatibilização de dispositivos, sistemas e projetos ainda necessitará de algum tempo; mas, quando acontecer, as perspectivas redundarão em cenários fantásticos e inacreditáveis. Abraços e até a próxima conversa!! 

 

 

Please reload

Destaque

IATEC promove a grande confraternização do som ao vivo, iluminação e produção musical

December 10, 2019

1/10
Please reload

Posts recentes

October 7, 2019

October 3, 2019

Please reload

Nossas Redes
  • Facebook Classic
  • Twitter Classic
  • Instagram
SOBRE

REVISTA BACKSTAGE

 

A Revista Backstage é um publicação da Editora H. Sheldon e pode ser adquirida online através do site da editora, por assintura ou avulsa.

 

ANUNCIE

IMPRESSA OU DIGITAL

 

Clique aqui e se informe sobre as condições de anúncios em nossa revista ou site.

CONTATO
  • w-facebook
  • Twitter Clean
  • Instagram

Todos Direitos Reservados

Rua Iriquitiá, 392 - Taquara

Rio de Janeiro - RJ - CEP:22.730-150 

Telefones: (21) 3627-7945 /  2440-4549

E-mail: adm@backstage.com.br

© 2017 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS • REVISTA BACKSTAGE