O dia da decisão

January 25, 2018

Luiz Carlos Sá

redacao@backstage.com.br
Fotos: Divulgação

 

Primeiro show de Sá, Rodrix & Guarabyra, no teatro Opinião, Rio de Janeiro, 1972. Os produtores, a dupla Bayer & Coutinho, levam-nos ao palco, uma arena, para resolver a difícil questão de colocar-nos em posição convenientemente visível ao público, missão difícil para um quinteto. As outras pessoas envolvidas com o espetáculo vão chegando e apresentando as soluções cabíveis no nosso curtíssimo orçamento. 


O cenógrafo, Waltercio Caldas – anos antes de tornar-se um artista plástico internacionalmente respeitado – expõe-nos sua primeira ideia: trançar no teto do palco uma teia de luzes azuis que se acenderiam durante uma só música, Serena. Para que fosse possível não darmos todos as costas para a parte da plateia acomodada em um lado do quadrado, ele providencia um grande espelho encaixado no apoio de partituras do piano de armário tocado por Zé Rodrix, o que proporcionaria aos espectadores menos favorecidos uma visão nítida - e mais original - da sua (dele, Zé) movimentação. 

O espelho em questão era uma peça barrocamente deslumbrante, sabe Deus onde o Waltercio descolou aquilo... Mas nosso maior problema era o contato visual uns com outros, essencial para a boa dinâmica da banda, dado o curto período de ensaio que conseguíramos com nossa dupla de apoio, Sergio Magrão no baixo e Luiz Moreno na bateria. Depois de algumas horas de tentativas, conseguimos bolar um posicionamento conveniente. 
Resolvidos iluminação, enquadramento do grupo na arena e repertório, partimos para o som. Nas primeiras passagens percebemos o quão difícil era nivelar a amplificação de nossos instrumentos, dois violões e uma viola de 10 eletroacústicos, um baixo e uma bateria, bateria essa que parecia tomar conta do espaço sonoro do teatro. Não sei quem bolou isso, acho até que trouxemos a ideia das gravações em estúdio, onde já tínhamos abafado a excessiva ressonância dos bumbos com cobertores enrolados dentro dele. Nada estético, mas muito eficiente. A princípio, Moreno ficou meio ressabiado com a gambiarra, mas depois acabou se acostumando ao perceber que não tinha que limitar a pancada do pedal. É bom esclarecer também que nossos sistemas de amplificação eram primários: uma pressão no volume significava distorção e esse não era o foco do nosso rock rural, mais dedicado à harmonia e às letras das músicas que ao peso instrumental. 

 

Pilotando a mesinha – também primária – de som, nosso até hoje parceiro Ricardo “Franjinha” Carvalheira. Ricardo nos fora apresentado por seu patrão, o Veras, dono da firma que locava o PA. A princípio ficamos de pé atrás com o Franja, um garoto então mal chegado aos 18 aninhos, mas já nos primeiros ensaios aprendemos a confiar em sua sintonia fina e ouvido apurado, dons que ele desenvolveu com brilho e que partilhamos até hoje em várias parcerias de discos e shows.


Na véspera da estreia, cadê o sono? Minha cabeça repassava acorde por acorde, nota por nota. Dos três eu era o mais inexperiente em espetáculos públicos. Na verdade, eu nunca havia tocado antes num evento tão importante para minha vida. Minha decisão era ali: lançado o disco – Passado, Presente, Futuro, já com boa carreira de crítica e público – chegava a hora de provarmos que podíamos ser tão bons ao vivo quanto no estúdio. Todos estavam de olho em nós, querendo perceber se éramos para ficar ou se nos tornaríamos em pouco tempo mais um pipoco estéril igual a tantos outros que apareciam e aparecem até hoje no cenário musical. Eu também dependia dessas apresentações para convencer-me de que poderia seguir como profissional na carreira que escolhera. Não era pouco o que eu deixara para trás, não era pouco o que eu apostava: aos vinte e seis anos uma derrota na música iria atirar-me na pouco atraente burocracia de uma vida que eu arrogantemente considerava “comum”.

Entrei naquele palco como o toureiro entra na arena, e eu tinha quatro lados de público para tourear. A princípio hesitante, inspirei-me na inabalável autoconfiança do Zé, que me abraçara na coxia:
- Vamos botar pra quebrar!

 

Então eu olhava para aquele espelho barroco e tocava, e tocava, e tocava como nunca, com gana, com vontade, sentindo que cada palavra saía de mim com um significado jamais sentido antes. E aí, para arrematar, chegou a vez da Serena. Como eu não tinha comparecido aos ensaios de luz, não esperava por aquele deslumbre de luzes azuis sobre nós, como se mil estrelas tivessem se acendido ao mesmo tempo, enquanto cantávamos:
“Fiquei te olhando dormir
Em vez de dormir também
Fiquei ligado em você
Na mesma frequência de sonho...”
E o público – como se ensaiado estivesse – soltou um prolongado “ooooohhh” de admiração quando os cometas azuis do Waltercio iluminaram o palco. A custo, emocionado, continuei:
“Fiquei junto do teu corpo
Dentro do teu pensamento”
E aí, com o vocal de Rodrix e Guarabyra arredondando a harmonia, chorei:
“Ah, Serena
Você dorme tão serena...
Ah, Serena, dormindo que nem criança
Você dorme tão serena...”
Terminado o show, aplausos de pé. Fui acabar de derramar minha alegria no banheiro, temendo parecer amador ao chorar diante de meus companheiros.

 

Agora, sim, eu era um Músico.


 

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