Novas barreiras na Iluminação Cênica (parte 2)

 

Na iluminação cênica, a cena sempre será um paradigma, uma vez que todos os esforços e estratégias – conceituais, promocionais, operacionais, entre outras – estarão direcionadas a uma delimitação visual. Na conversa anterior sobre esse assunto, novos caminhos surgiam em direção à mobilidade e reconfiguração dos elementos e estruturas cênicas. No entanto, no mundo do entretenimento, não se pode omitir as recriações ou induções de elementos resultantes de recursos que proporcionam ilusões ou conexões com a memória afetiva. Nesta conversa, experiências e sensações serão discutidas como atrativos visuais e cênicos, inseridos de maneira a transpor as barreiras físicas e da imaginação.    

 

O desenvolvimento de um projeto de iluminação cênica ocorre pelo mapeamento e dimensionamento de intenções, estruturas, equipamentos e restrições, vinculadas à relação tempo-espaço que conduzirá as possibilidades e dinâmicas que envolvem luminárias, equipamentos e efeitos. Nesse contexto, amplo e generalista, muitas são as premissas de projetos. Premissas estas que se tornam distintas para os diversos tipos de espetáculos e shows.

Figura 1: ‘Mainstage’ do Festival Tomorrowland 2018. Fonte: Phixion.

 

No mundo do entretenimento, no entanto, cada vez mais a relação plateia-palco incorpora outros elementos. Festivais de música já não oferecem mais música somente, mas experiências diversas, atrações diversificadas, serviços múltiplos, sensações de status e exclusividade. O palco, muitas vezes, está acompanhado por uma estrutura que compreende espaços para lazer e descanso; brinquedos temáticos e instalações para a entrega, sorteio, e concorrência por itens colecionáveis dos patrocinadores; lojas e quiosques são instalados para a comercialização de souvenirs, merchandising, alimentos e bebidas. No entanto,  muitas vezes estes tipos de produtos são oferecidos em praticamente todos os festivais e shows em casas de espetáculos, ginásios e estádios. Mas, como oferecer algo diferenciado? Como surpreender e se destacar?

Figura 2: Banda americana Starset e interação com Realidade Aumentada (2018). Fonte: Den Of Geek.

 

As novas tecnologias digitais de informação e comunicação se desenvolvem intensamente e de maneira fascinante. Novas experiências surgem com a convergências de iniciativas, possibilidades e mídias aos conceitos e abordagens que proporcionam novas conexões às realizações já existentes, às sensações positivas já comprovadas, às expectativas já confirmadas e testadas de diversas maneiras. De forma mais abrangente, novos desafios e estímulos surgem no dia a dia para dimensionar a satisfação dos fãs, consumidores de novidades, exploradores de sensações exclusivas, disseminadores de mensagens, multiplicadores de marcas e estratégias promocionais. Mas mesmo com o acesso aos smartphones e plataformas digitais de compartilhamento dos conteúdos textuais, sonoros e visuais – e esses três, ao mesmo tempo – ainda persistem e resistem algumas (novas) barreiras nesse universo de contemplação e pertencimento.

Se por um lado muitos artistas e públicos se incomodam com a utilização dos smartphones como instrumentos de captação de imagens (fotografias e vídeos) e interações diversas realizadas durante as apresentações, torna-se irreversível esse processo de percepção mínima para o uso desses recursos nos shows e festivais. Em menos de vinte anos, máquinas fotográficas e filmadoras ‘amadoras’ eram itens proibidos; atualmente, smartphones possibilitam registro de imagens com excelente qualidade e captura de vídeos com 4K UHD de resolução. Qualquer atitude contrária à utilização desses recursos pode ser entendida como retrocesso e distanciamento à conjuntura que estimula o registro de imagens – também, como destacado várias vezes em conversas anteriores, como registro pessoal e memória singular, pertencimento e status que compreendem sensações de satisfação e atendimento às expectativas dos públicos e plateias.

Figura 3: Banda irlandesa U2 – interação com Realidade Aumentada na ‘Experience & Innocence Tour’

 

Entretanto, existe algum outro caminho? Sim, e pode-se identificar uma demanda significativa para novas abordagens com essas tecnologias, alinhadas a um novo patamar no mundo interativo da tecnologia da comunicação, como também para o desenvolvimento de novas soluções nos campos da Realidade Virtual e Realidade Aumentada. As performances, além de proporcionarem dinâmicas outras na reconfiguração dos elementos dispostos nos palcos – e como destacado na conversa anterior sobre esse tema, possibilitando novas percepções e sensações visuais – e novos conceitos, tais como ‘performance imersiva’ e ‘performance digital’, como referências para a oferta de outras interações possibilitadas pelas novas tecnologias digitais de informação e comunicação.

Esses conceitos não são, de fato, tão recentes; atualizaram-se em função dessas novas tecnologias, mas têm sido assunto no campo artístico (e nos estudos de teatro e entretenimento) desde o início da década de 1990, quando vinculados às experiências com ‘ambientes virtuais’ e outros, como ‘telepresença’ e ‘presença virtual’ (conceitos esses discutidos por Thomas Sheridan). No entanto, naquele período, ainda eram incipientes as capacidades de recepção, controle e manipulação. Contextualizando com as tecnologias vigentes, exemplos práticos não faltam. Na realização da turnê Experience & Innocence Tour da banda irlandesa U2, em 2018, a utilização do smartphone foi incorporada nos shows de uma maneira que, em determinado momento, um conteúdo tridimensional extra e Realidade Aumentada era revelado ao público que havia instalado um aplicativo integrado à câmera dos aparelhos, e não podia ser visto sem esse equipamento.

Figura 4: Experiência com Realidade Aumentada – Festival Coachella (2019). Fonte: Julian Bajsel/Billboard.

 

Com esse mesmo recurso e neste ano (2019), o festival de Coachella (cujo nome completo é ‘2019 Coachella Valley Music and Arts Festival’ realizado anualmente em Indio, California, EUA), também ofereceu um recurso exclusivo para os públicos participantes, intitulado Coachella Camera e incluído no aplicativo oficial do evento. Ele foi disponibilizado para que os expectadores pudessem acessar uma experiência interativa de Realidade Aumentada associada à temática espacial – com astronautas, objetos planetários, estações espaciais – capturados com o direcionamento dos smartphones para as telas de vídeo localizadas perto do palco, cuja dinâmica das imagens respondia e reagia às apresentações musicais ao vivo em tempo real.

O próprio conceito de ‘Bootleg’ foi atualizado, em decorrência das diversas possibilidades que os recursos atuais compreendem. Se na década de 1980 havia uma busca incessante pelos ‘discos piratas’ (muitos produzidos como péssima ou questionável qualidade), atualmente se pode acessar vídeos em plataformas digitais com excelente qualidade, por diversas fontes de captação e publicação dessas mídias. Alguns músicos e performers já aderiram (exemplo, Slash) e solicitam a publicação desses materiais para posterior edição e compartilhamento nos canais oficiais desses artistas.

Figura 5: Banda inglesa Queen com ‘VR The Champions’ (Realidade Virtual)(2017). Fonte: Digital Trends

 

Se a iluminação cênica tem a capacidade de revelar, emoldurar e enaltecer, torna-se ainda mais factível que ela se torne elemento conceitual central da estimulação visual pela representação eternizada das memórias e registros de imagens. Com essa inegável e irreversível oferta de opções para o uso do smartphone e seus aplicativos, novas perspectivas podem surgir com propostas de novas experiências e novas performances. Mesmo que muitas vezes seja discutível uma certa subdivisão da experiência como um todo, há muito para se desenvolver com pesquisas e criatividade.

 

Se ainda há resistência, limitações, restrições – e barreiras – para a inclusão de novos meios, mídias e recursos, tecnológicos, visuais/virtuais e ilusórios, surgem com isso novas oportunidades para Lighting Designers explorarem e descobrirem caminhos alternativos, financeiramente viáveis, operacionalmente acessíveis e ecologicamente sustentáveis.

 

Abraços e até a próxima conversa!!!

 

Para saber mais:

redacao@backstage.com.br

 

Leia a parte1 desta matéria:

https://www.revistabackstage.com.br/single-post/novas-barreiras-iluminacao-cenica

 

Please reload

Destaque

Som nas Igrejas: Introdução ao Sistema de Sonorização

December 13, 2019

1/10
Please reload

Posts recentes

October 7, 2019

Please reload

Nossas Redes
  • Facebook Classic
  • Twitter Classic
  • Instagram
SOBRE

REVISTA BACKSTAGE

 

A Revista Backstage é um publicação da Editora H. Sheldon e pode ser adquirida online através do site da editora, por assintura ou avulsa.

 

ANUNCIE

IMPRESSA OU DIGITAL

 

Clique aqui e se informe sobre as condições de anúncios em nossa revista ou site.

CONTATO
  • w-facebook
  • Twitter Clean
  • Instagram

Todos Direitos Reservados

Rua Iriquitiá, 392 - Taquara

Rio de Janeiro - RJ - CEP:22.730-150 

Telefones: (21) 3627-7945 /  2440-4549

E-mail: adm@backstage.com.br

© 2017 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS • REVISTA BACKSTAGE