Bon Jovi no Madison Square Garden (NYC)

Divisoras de águas na história da Iluminação Cênica, as luminárias móveis (moving lights) permitiram a produção de conceitos e cenários dinâmicos, empolgantes e revolucionários. Estruturas móveis começaram a ser inseridas ainda na década de 1970, entretanto, na maneira como têm se apresentado ultimamente, começam a ser comparáveis com a revolução anterior. Seria essa uma nova tendência para a Iluminação Cênica?

 

Nesta conversa, a produção da turnê This House Is Not For Sale, da banda americana Bon Jovi, será analisada com base na proposta conceitual e de estruturas, com mecanismos móveis e dinâmicos, atrativos e extremamente instigantes, proporcionando constantes modificações nos recursos estruturais, contextualizados com uma produção perspicaz e fascinante.

 

 

A indústria do entretenimento e dos espetáculos teve sua mais expressiva evolução a partir da segunda metade da década de 1950, com o desenvolvimento das primeiras luminárias móveis – utilizadas em produções mais modestas, mas que também começariam a integrar shows e ‘excursões’ de artistas e bandas. Na década seguinte, teria ainda um salto mais expressivo com a criação dos refletores do tipo PAR, que permitiram a diversificação dos métodos e efeitos de iluminação cênica, em condições inimagináveis nas décadas anteriores.


Na década de 1970, repleta de inovações, outros recursos cênicos surgiram, conferindo aos palcos dimensões e configurações ímpares, que servem de referência até a atualidade, sob diversos aspectos. Turnês de artistas e bandas tais como David Bowie, Pink Floyd, Queen, Genesis e Yes, entre outros, tiveram intervenções visionárias de Lighting Designers tais como Mark Ravitz, Patrick Woodroffe, Arthur Max, Joe Travato e Michael Tait, que desenvolveram concepções cênicas espetaculares com estruturas impressionantes, imponentes e dinâmicas.

Na década seguinte, com o surgimento dos moving lights (da maneira pela qual são utilizados atualmente) e do conceito de IMAG, os espetáculos no estilo AOR (Album-oriented Rock ou espetáculos de arena) conduziram as produções dos shows à condição de megalomania. As turnês atingiram patamares de públicos nas casas dos milhares de espectadores, e o faturamento no setor também elevou essa categoria a níveis inimagináveis até então.
Foi neste período que surgiu a banda americana Bon Jovi. Formada em 1983 pelo vocalista (homônimo) Jon Bon Jovi (pseudônimo de John Francis Bongiovi Jr), o tecladista e guitarrista David Bryan, o baixista Alec John Such, Tico Torres na bateria e o guitarrista, compositor e backing vocals Richie Sambora. Esta banda, originada em Sayreville (New Jersey) destacou-se ainda no início dos anos de 1980 pelo estilo AOR e pelo carisma, principalmente do vocalista que, além de batizar o nome da banda, criou uma referência para o Hard Rock que viria a influenciar diversas bandas.

Com treze álbuns de estúdio gravados, lançaram This House is Not For Sale em novembro de 2016, e iniciaram a turnê com o mesmo nome do último álbum no dia 08 de fevereiro de 2017. No fim daquele mesmo ano foram indicados ao Rock and Roll Hall of Fame 2018. Como parte da celebração dessa conquista, estenderam a turnê para mais uma sequência de vinte e oito apresentações na América do Norte. Esta conversa será centrada na apresentação da banda no Madison Square Garden, na cidade de Nova Iorque (EUA), no dia 10 de maio de 2018.
Esta turnê, além de Jon Bon Jovi, Tico Torres, David Bryan, marca a oficialização de Hugh McDonald no baixo e backing vocals e do exímio músico Philip Eric Xenidis, conhecido como Phil X nas guitarras base e solo, além de talking box e backing vocals. Somam-se à banda os músicos John Shanks (guitarra e backing vocals) e Everett Bradley (percussão e backing vocals).

A This House is Not For Sale Tour foi dimensionada para ginásios e arenas poliesportivas, uma vez que as estruturas de iluminação foram idealizadas de maneira a utilizar todo o espaço cênico, inclusive no plano horizontal superior e com elementos suspensos.


O local da apresentação analisada dispensa mais argumentos. O Madison Square Garden (MSG ou também conhecido como “The Garden”) é a “arena mais famosa do mundo”, tendo sido ‘palco’ de apresentações históricas, registradas nesse local para a posteridade, como o emblemático Concerto para Bangladesh, organizado por George Harrison e realizado naquele local em 1971. Estrutura ímpar, com acessos seguros e bem iluminados, além dos serviços (triagem, orientação e alimentação) prestados com competência e profissionalismo.

 

O principal conceito da turnê - “a casa” – esteve presente desde a primeira cena - uma casa estilizada em construção, com o apoio de treliças e torres de iluminação. Dinamismo, design e uma homenagem ao Rock’n’Roll estiveram presentes como recursos e instrumentos que ajudaram a contar uma história, roteirizada e programada com um console full-size grandMA2 – responsável pela automação, iluminação e vídeo -, sendo este equipamento também integrado com o sistema TAIT Navigator para controle de movimento. O rig de iluminação foi estruturado com peças móveis e torres hexagonais contornando todo o palco, propiciando também um fechamento cênico e elementos estéticos simétricos.

Todo o projeto da turnê foi concebido pelo Designer de Produção e Iluminação Doug “Spike” Brant, que já trabalhou com Beastie Boys, Beck, Mary J. Blige, Beyoncé, Dr. Dre, Ice Cube, Lil Wayne, Soundgarden e Pearl Jam, entre outros. Também para a turnê, o diretor de iluminação e programador de automação, Joe Bay, em sua primeira turnê.
Ainda sobre o conceito, diversos elementos visuais identificados no show remetem à capa do último disco - uma casa dilapidada com raízes. Com enfoque mais minimalista, o projeto gráfico e visual claramente esteve centrado na valorização das canções, em detrimento da produção visual, sendo os elementos cênicos centrados nas mensagens musicais, mesmo que introspectivas em alguns momentos; em outros edificantes, contextualizados com a ideia de casa, sugerindo uma construção contínua com evolução sutil e atemporal, em um show envolvente e dinâmico. 
No repertório, canções de onze álbuns, em um total de vinte e três, cada qual com uma estrutura cênica única, e múltiplas dinâmicas inseridas em cada número do espetáculo.


Na abertura, a faixa título do último álbum, e a visualização da ‘casa’, propriedade esta que fechava a banda em um cenário intrigante e mágico. O mais importante álbum da banda (Slippery When Wet, de 1986) abriria a sequência de hits, com Raise Your Hands e You Give Love a Bad Name (que no bis ainda teria Wanted Dead or Alive e Livin’ on a Prayer - marca registrada da banda). 

Como destaques complementares, canções que dominaram as programações das rádios em três décadas de sucessos seriam conduzidas com maestria e carisma. Álbuns como New Jersey (1988) (com as canções Born to Be My Baby, Lay Your Hands on Me, Bad Medicine) e Keep The Faith (1992) (com I’ll Sleep When I’m Dead, Keep the Faith, Bed of Roses e In These Arms) formaram uma coletânia de sonoridades que marcaram gerações, ilustradas por imagens construídas a partir das referências anteriormente citadas, com nítida homenagem à própria história e à maturidade da banda percebida pela evolução musical.


Referências à arquitetura também estiveram presentes nos fachos de luzes, volumétricos e definidos, e nas formas, pela ‘reconstrução’ da casa em planos que se alternavam nos elementos geométricos básicos e reconhecíveis, ou em formas abstratas transitórias e mensagens metafóricas. Neste sentido, o palco se reduzia a uma casa itinerante, cercada de componentes visuais e alinhados à própria história da banda e do Rock’n’Roll, além dos ‘vizinhos’ – fãs, espectadores e local de realização – que viabilizam as sugestões de ‘lar’ e ‘conforto’ como elementos sugeridos e visualmente percebidos, pelas cores, pela interação da banda com o público, pelo envolvimento coletivo e emocional. Se essa for uma das tendências na produção de shows, essa turnê da banda americana Bon Jovi já se destaca como uma referência prodigiosa e surpreendente. 


Finalmente, evidencia-se com louvor o comprometimento da banda em oferecer um espetáculo musical memorável, com uma performance formidável, além de uma proposta visual fascinante e repleta de criatividade, tornando o show ainda mais significativo, desconstruindo padrões e abalando qualquer ceticismo sobre o futuro da banda e da iluminação cênica!


Abraços e até a próxima conversa!
 

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