Iluminação Cênica e Singularidade: New Order em Curitiba

 Apresentação da banda inglesa New Order na Live Curitiba, em 02/12/2018. Por Cezar Galhart

 

 

Determinados espetáculos se destacam dos demais por diversos aspectos: originalidade, ineditismo, inovação, raridade e singularidade. E vários elementos e características podem ser associadas a cada uma dessas expressões. 

 

esta conversa, alguns tópicos de destaque serão abordados a partir da apresentação da icônica banda inglesa New Order, realizada em Curitiba em dezembro de 2018, com ênfase na atmosfera e repleta de referências estéticas em um show caracterizado pela euforia e singularidade.
Dentre diversos aspectos musicais, a década de 1980 foi marcada por uma pluralidade de estilos decorrentes das influências da década anterior, mas que foram determinantes em dois aspectos principais: a disseminação da música como ‘produto’ pelos meios de comunicação em massa, pela produção dos espetáculos de arena e a consolidação dos festivais.


As transições não foram sutis, entretanto. Com uma maior rotulação dos estilos musicais (por interesses mercadológicos e mesmo ideológicos), fusões entre o Rock’n’Roll e outros estilos e movimentos permitiriam uma explosão de termos e designações: Pós-Punk, Ska-Punk, New Wave, New Romantic, NWOBHM, Glam Metal, Trash Metal, Speed Metal, Power Metal, Indie Rock, Techno Pop e Synth-Pop (entre tantos).

 

Nesse último (Synth-Pop), a banda inglesa New Order se destaca como pioneira e uma das bandas seminais da fusão entre Rock’n’Roll, Pop Music e música eletrônica – o que poderia ser uma simplificação das referências desse estilo. O grupo surgiu em 1980, com os remanescentes de outra banda edificante, Joy Division, surgida na segunda metade da década de 1970 com Ian Curtis (vocal principal e guitarra), Peter Hook (baixo e backing vocals), Bernard Sumner (guitarra e sintetizadores) e Stephen Morris (bateria). Esta banda foi uma das principais representantes do movimento Pós-Punk. Com o suicídio de Ian Curtis em maio de 1980, coube aos demais músicos seguirem outra direção e constituírem a New Order. Além da adição de sintetizadores e percussão eletrônica, complementariam a banda com Gillian Gilbert (teclados, sintetizadores e ocasionas guitarras).


Nesta que foi a sexta passagem da banda New Order pelo Brasil, e primeira em Curitiba, a banda inglesa trouxe um repertório que contemplou canções de praticamente todos os dez álbuns de estúdio (com a exceção do primeiro álbum, Movement, de 1981, e Silent Sirens de 2013), e que integram diversos momentos de uma carreira de trinta e oito anos de história. Para muitos fãs presentes, essa trajetória se espelha na formação cultural e musical de gerações, nas quais essa banda integrava a trilha sonora elementar dos ouvintes da extinta rádio curitibana Estação Primeira, que esteve no ar entre os anos de 1986 e 1995.

Na apresentação realizada na Live Curitiba, espaço de eventos e shows da capital paranaense, a formação atual teve três dos quatro integrantes originais: Bernard Sumner (vocais e guitarra), Stephen Morris (bateria), Gillian Gilbert (teclados e sintetizadores), além de Phil Cunningham (guitarras, efeitos e percussão eletrônica) e Tom Chapman (baixo), que complementam a banda com elevada competência.


A abertura do show com Singularity (do álbum Music Complete, de 2015), representou bem o que seria esse show: uma singular demonstração de possibilidades e interações diversas de iluminação cênica, vídeos e animações com as canções (humor e ritmo). Sequências intencionalmente repetidas despertavam intensos e atrativos estímulos em contraponto às melodias, melancólicas e perturbadoras (muito similares às das canções da banda Joy Division).

Na sequência, a ótima canção Regret (do álbum Republic, 1993), cuja iluminação foi predominantemente desenvolvida a partir de fachos marcantes, embora lentos, nas cores dominantes do padrão RYB e também CMYK, estabilizados em cenas estáticas e assimétricas, vívidas e reflexivas. O setlist ainda contemplaria Age Of Consent (do álbum Power, Corruption & Lies, lançado em 1983), Crystal (do álbum Get Ready, de 2001), além de Academic e Restless (ambas de Music Complete, de 2015). 


Nessas canções, a predominância de exposições monocromáticas (intercaladas com fachos em cores complementares) ora contrastavam ora harmonizavam com as imagens e vídeos projetados nas telas de LEDs, proporcionando dinâmicas empolgantes e vibrantes.


Nesse aspecto, a animação do público se superava a cada nova canção, contagiando os músicos que correspondiam de maneira recíproca e surpreendente. Assim, canções como Your Silent Face (Power, Corruption & Lies, 1983), Tutti Frutti (Music Complete, 2015) e Sub-culture (Low-Life, 1985), foram apresentadas em um crescendo frenético, com variações diversas e maior diversificação nos instrumentos de iluminação utilizadas para cenas, além de variações para cores análogas e mais intensa saturação.

 

Na versão estendida e alternativa de Bizarre Love Triangle (do álbum Brotherhood, 1986), havia várias referências visuais à década de 1980. Nesse sentido, além das cores presentes na iluminação e nas imagens projetadas nas telas de LEDs, que remetiam aos padrões daquele período, mosaicos morfológicos se sobrepunham, ora criando elementos geométricos simétricos e harmoniosos, ora transpondo elementos visuais complexos, contextualizados com a temática neoplasticista e cubista. 


Ao mesmo tempo, as canções seguintes - Vanishing Point (Technique, 1989), Waiting for the Sirens’ Call (álbum homônimo, lançado em 2005), Plastic (Music Complete, 2015) – criavam uma unidade sonora e visual com múltiplas variações de cores e mais intensas dinâmicas nas alternâncias dos instrumentos de iluminação, nos efeitos e nas formas, com gobos padrões criando texturas e sutis contrastes para as demais projeções.
Em mais uma versão estendida para uma das mais conhecidas canções da banda, The Perfect Kiss (Low-Life, 1985), houve sequências de cenas vibrantes e hipnóticas, complementadas com blinders sincronizados com os elementos de percussão eletrônicos. Se as cenas se repetiam em looping na execução dessa canção, initerruptamente, sutis alterações eram introduzidas até o momento de transição, com predominância de luzes em tonalidade âmbar e movimentos suaves, para outra passagem – com predominância de luzes azuladas e análogas (em clara passagem de um padrão monocromático para o respectivo complementar) - criando conforto visual e preparando para a parte final, apoteótica.

 

Na última sequência, três singles essenciais na história da banda: True Faith (1987), Blue Monday (1983) e Temptation (1982). Principalmente na segunda canção dessa série, e um dos mais importantes hits da história da banda, por referência direta ao título da faixa, variações de luzes azuladas eram somadas a fachos saturados intensos, ou temperados com cores análogas, do ciano ao violeta. Moving lights com gobos faziam varreduras no espaço cênico, revelando detalhes e emoldurando os músicos, sensivelmente.

No bis, um momento especial para todos os fãs. Em homenagem à própria história da banda, covers de Joy Division, com as canções Atmosphere (single), Decades (do aclamado álbum Closer, de 1980) e Love Will Tear Us Apart (single), sendo esta considerada como um hino da década de 1980. Neste momento, imagens históricas da década anterior e principalmente do vocalista Ian Curtis comoveram o público, em uma apresentação memorável e emocionante para todos os presentes, indubitavelmente.

 

Tão singular quanto uma apresentação musical, caracterizada por interações imprevisíveis e espontâneas, únicas e incomparáveis, destaca-se a iluminação cênica, capaz de estimular essas relações entre os protagonistas e públicos, que pelas percepções visuais, estabelecem conexões emocionais e marcantes, eufóricas e singulares.

 

Abraços e até a próxima conversa!

 

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