Vivendo e aprendendo a jogar

 

 

Em meio à década de 70 um grupo de autores, intérpretes e instrumentistas da linha de frente da música brasileira criou um movimento denominado “SomBrás”, que visava arrumar a bagunça que meia dúzia de “chefões” impunha à arrecadação de direitos autorais no Brasil. A consequência desse movimento foi a criação do ECAD (Escritório Central de Arrecadação de Direitos) que unifica sob sua égide as diversas arrecadadoras, evitando assim que meia dúzia de “mandatários” distribua a seu bel prazer e a poucos o que era ganho pela criatividade de muitos. O ECAD – fato só negado ou por quem não conhece a história anterior, capenga e pilantra, do Direito Autoral brasileiro ou por integrantes dos vários lobbies que procuram surripiar dos criadores sua justa remuneração – foi um gigantesco avanço em direção à justa correção dos nossos mecanismos de distribuição. Hoje em dia, as grandes sociedades brasileiras utilizam ferramentas tecnológicas de ponta e são referência para instituições semelhantes de várias partes do mundo, para desgosto dos lobistas profissionais a serviço de grupos empresariais que, no afã de ganhar um troco em cima dos autores/compositores/ intérpretes, alegam uma inexistente “caixa preta”. Sei disso, porque eu - e todos os autores que assim o desejarem – posso acessar o site da minha sociedade ou do ECAD e saber em tempo real quanto, quando, onde e como estão sendo arrecadados meus direitos. 


No entanto, enquanto o Ser Humano segue a pé, a Tecnologia vai de trem-bala. A cada dia que passa o/a artista tem que ser duas vezes artista, uma no sentido estrito e outra latu-sensu, cuidando da sua carreira pessoalmente ou com assessores de confiança, para não ficar pelo caminho, à margem de ferramentas que poderiam proporcionar a ele/a uma maior e melhor liberdade de criação. E o advento do streaming provou a todos nós, criadores provenientes do “tempo do LP/CD”, o quão despreparados estávamos para a cavalaria tecnológica que, em tempo recorde, tomou nosso ambiente de assalto. De repente nos vimos diante de toda uma estrutura diferenciada que propunha uma aproximação completamente diversa à que estávamos acostumados. O bom (?) e velho esquema cria-grava-edita-vende-faz show sofreu uma brutal reversão. As gravadoras não são mais as startups de uma carreira: transformaram-se em olhos vigilantes, escravos do YouTube, esperando obedientemente surgir aquele/a conquistador/a de milhões de likes que talvez possa tirá-las da penúria em que acreditam encontrar-se, não fossem parte de gigantescos conglomerados trilionários que têm na arte seu pedaço menor. Mas mesmo em seu stress de fim de mundo, elas foram espertas o bastante para desde antes enxergarem no streaming um futuro brilhante e guardarem para si, junto com as editoras, o melhor e maior pedaço do bolo: um avantajado percentual. Bem, então todos nós, criadores de todas as raças, credos e modos de arte da Terra, fornecedores de todo esse conteúdo sem o qual os Spotifys, Deezers, Tidals, Amazons, YouTubes, Instagrams, FaceBooks e quetais da vida seriam – desculpem o desabafo coprofílico – merda n’água - estamos apenas rapando o mais modesto dos tachos. Isso porque, preocupados em expressar publicamente nossas mais íntimas emoções, nos esquecemos de pensar na sobrevivência: o leite das crianças, o combustível do Fusca (exagerei, rs?), o casaco do inverno, o aluguel e... a mensalidade do Spotifys, da Net, a quantidade que pagamos de gigabytes internéticos para termos acesso ao que NÓS fizemos, NÓS criamos, NÓS montamos, adaptamos, corremos atrás...


Não pensem que vai nessa constatação algum ressentimento: o pêndulo tem ida e volta e pessoas que de outra maneira seriam anônimas para sempre conseguem hoje ter dez – às vezes mais – minutos de fama. Se são medíocres ou brilhantes, não importa, é o filtro pessoal de cada um que comanda. A Internet colocou em prioridade a expressão “questão de gosto”, e isso me parece justo e democrático. Não podemos delegar a nenhum tipo de censura a educação dos nossos filhos: nosso papel tem que limitar-se a debater com eles quais serão os valores necessários à sua (deles) felicidade. 

Tudo isso que falei pode ser resumido numa só história que aconteceu com um de meus filhos no ensino fundamental, turminha de sete para oito anos: a professora propôs aos alunos falarem sobre a profissão dos pais. Meu filho chegou em casa e rolou mais ou menos o seguinte diálogo:
- Pai, a professora me perguntou no que você trabalha.
- Ué, filho, sou músico. Você vai aos shows. Sabe o que eu faço.
- É... mas o que é que você faz de verdade, de verdade mesmo?
Ali, entendi tudo. Todo o entorno de uma cultura que considera o prazer no trabalho uma espécie de pecado, um destrabalho... Abracei meu garoto:
- Você não acha legal eu cantar, tocar violão, fazer música? Ver como as pessoas gostam e batem palmas no final do show?
Seus olhos se arregalaram:
- É mesmo!


E ele me abraçou bem forte. Como me abraçam muitos conhecidos e  desconhecidos quando os recebo no final dos shows. E essas pessoas que me abraçam, que têm por mim um sincero apreço, que pagaram para estar ali, são meu alimento de corpo e alma e sabem que artista não vive de brisa. Têm prazer em tirar do seu para  o que quer que eu possa proporcionar e adicionar à sua vida.


Sem o criador e o consumidor de arte nenhuma corporação do ramo, por gigantesca que seja, consegue sobreviver. Respeitem-nos.

 

luizcarlossa@uol.com.br

 

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