Pensando aleatoriamente em música...

 

Existem várias espécies de compositores. Há, por exemplo, aqueles que teoricamente são os mais “completos”, os “cantautores” - termo originariamente hispânico que define com clareza quem canta e compõe, faz letra ou música, ou ambos, e as interpreta. Alguns desses não são propriamente cantores no sentido técnico da palavra, mas sim intérpretes, que sem o estudo ou a garganta dos verdadeiramente cantores, trocam a técnica pelo carisma, ou pelo charme, ou ainda por uma emissão particularmente agradável aos ouvidos. Como a poesia ou a melodia, ou ambas, saem de sua cabeça e do seu coração, alguns desses – digamos assim – menestréis, conquistam sem maiores problemas um grande número de fãs, que se apaixonam pelas características do seu eleito. Já os melodistas precisam de um parceiro, de uma letra, de uma poesia. Desses, uns preferem ir ao encontro da letra e outros escolhem serem encontrados por ela, ou seja, o letrista chega com o trabalho pronto e o melodista viaja no assunto. E eles, letristas, são poetas. No mais das vezes não se preocupam com métrica musical e essas coisas, exceto aqueles que trilham o caminho mais difícil, encaixando poesia em divisões aleatórias apresentadas pela melodia proposta. Enfim, se pensarmos em combinações matemáticas de parcerias de todos os tipos e gêneros – o letrista, o melodista, o que joga nas onze, canta e compõe, mal chegaremos a compreender de longe essa deliciosa balbúrdia que é a arte de compor, cantar e tocar. E todo esse preâmbulo me serviu para dissecar essa profissão que é resumida em documentos legais como “das artes”, ou mais levianamente “autônomo”. Sou das artes. E “em artes” posso chamar-me simplesmente “Sá” ou “Luiz Carlos Sá”. Não é de admirar que o moleque “peralta” fosse também o “arteiro”: mesmo o artista melhor sucedido, a bordo de seus carrões ou aviões particulares, continua até hoje sendo olhado com uma desconfiança toda particular, diversa daquela admiração povoada de ohs! e ahs! reservada para os executivos em patamar semelhante.

 Vou então falar aqui dos efeitos e defeitos da profissão.  Começando pelas origens musicais da minha geração, dos anos 70. A grande maioria de nós vinha do violão, dos acordes finais da bossa nova, do começo da influência de Beatles & cia, das guitarras e dos instrumentos eletrônicos não mais vistos como “inimigos da brasilidade”, mas sim como aliados para uma renovação de nossas raízes. Éramos autodidatas a princípio e só alguns de nós estudaram música a fundo, ficando íntimos de claves, mínimas, semínimas, compassos compostos, dissonâncias, etc.. Muitos deles – como Zé Rodrix, Maurício Maestro, Nelson Ângelo, Wagner Tiso, David Tygel e outros que – como dizemos – “metem a caneta” - tornaram-se brilhantes arranjadores, bebendo na fonte dos talentos que os antecederam, como Gaya, Luiz Eça, Carlos Monteiro de Souza, Radamés Gnatalli, Guerra Peixe, Oscar Castro Neves, Rogério Duprat e dezenas de  maestros de estúdio que comandavam as orquestras em nossos discos. Num tempo em que as gravadoras prosperavam e a utilização de grandes orquestras era comum não só nos estúdios como também nos programas de TV, a vida de arranjadores e músicos competentes era um mar de rosas. Atenção: isso não implica em nenhuma nostalgia barata de minha parte, é só uma constatação, até porque a fascinação pelas orquestras de verdade é facilmente detectável no público jovem, que – acredito eu – torna-se mais exigente à medida em que a mídia insiste em jogar lixo barato em seus ouvidos. A compreensão de que estamos sendo manipulados cresce dia a dia. Ninguém mais é ingênuo. Todos podemos escolher nossa própria mediocridade. Ou desprezá-la e partir para novas aventuras.


A impressionante escalada geométrica da tecnologia aplicada às artes atirou-nos a todos a uma terra ainda pouco explorada. Manter-se a par das novas técnicas, das miríades de novas possibilidades artísticas já é por si só um trabalho gigantesco, que antecede a criação propriamente dita: antes de fazer, você já tem que saber onde aquilo vai terminar e de que maneira você vai chegar lá. E o cuidado para não deixar que a elaboração minuciosa desmanche a autenticidade do seu trabalho é coisa de louco. No sentido literal da palavra.


Mas é esse tipo de desafio que nos mantém vivos. A cada dia ficamos mais livres e desamarrados daquele monte de cabos e fios, mais capazes de fazer da tecnologia a bordo de zapps e bluetooths uma preciosa aliada, singrando com destreza as perigosas águas dos Melodynes e Protools, fazendo com que uma certeza seja indelével: a competência criativa ainda reina soberana. A mediocridade pode enriquecer, mas o sonho empurra a Humanidade a outros planetas e paragens. E a agora amiga tecnologia abre para nós novas fronteiras da Criação.

 

Coluna publicada na edição 292 da revista Backstage.
 

Please reload

Destaque

IATEC promove a grande confraternização do som ao vivo, iluminação e produção musical

December 10, 2019

1/10
Please reload

Posts recentes

October 7, 2019

October 3, 2019

Please reload

Nossas Redes
  • Facebook Classic
  • Twitter Classic
  • Instagram
SOBRE

REVISTA BACKSTAGE

 

A Revista Backstage é um publicação da Editora H. Sheldon e pode ser adquirida online através do site da editora, por assintura ou avulsa.

 

ANUNCIE

IMPRESSA OU DIGITAL

 

Clique aqui e se informe sobre as condições de anúncios em nossa revista ou site.

CONTATO
  • w-facebook
  • Twitter Clean
  • Instagram

Todos Direitos Reservados

Rua Iriquitiá, 392 - Taquara

Rio de Janeiro - RJ - CEP:22.730-150 

Telefones: (21) 3627-7945 /  2440-4549

E-mail: adm@backstage.com.br

© 2017 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS • REVISTA BACKSTAGE