Luiz Carlos Sá e o roquerrural

 

Ok, você hoje é um artista com carreira consolidada. Suas gigs são 90% de avião. Desfruta de uma infraestrutura que lhe permite subir ao palco com tudo pronto, sem que você tenha que se preocupar com coisanenhuma a não ser consigo mesmo. Seu camarim tem frutas, salgados, toalhas, chuveiro quente, farta variedade de refrigerantes, sucos ou bebidas alcóolicas de qualidade, sofás onde você pode esticar as pernas...Enfim, você é feliz antes e depois do show.


Mas isso não foi sempre assim. Então, quero contar a história das origens do moderno Show Business brasileiro, pelo menos aquela que eu vivi. Porque querer ser sucesso nacional num país enorme como o nosso na década de 70 do século passado tinha seu preço, e não era barato. Pra começo de conversa, você cantava com o equipamento que existia. A importação de eletrônicos sofria taxas proibitivas e a indústria nacional engatinhava. As guitarras desafinavam; os violões, submetidos a repetidas mudanças de temperatura e aos maus tratos de pessoas inexperientes nesse particular, empenavam e quebravam. Os teclados... que teclados? Rezava-se por um piano acústico no local, nem que fosse aqueles tipo armário. Tudo aquilo que não fosse muito, muito, muito caro simplesmente não aguentava a pedreira da estrada.

Bem, aí, à custa de muito trabalho e um endividamento eterno com alguma gravadora, você conseguia um adiantamento e comprava – na mão de contrabandistas – um equipo respeitável. No nosso caso, Sá & Guarabyra, conseguimos um advance e compramos, de segunda mão, uma pequena mesa de oito canais, dois microfones Shure e duas imensas caixas de PA, cada uma delas com dois subwoofers Altec e dois falantes de médio. Falavam bem. O problema – quando começamos a ter sucesso e consequentemente ter que viajar - era transportar esse peso total de quase setenta quilos, Brasil afora. Entenda: essa facilidade de locar equipos completos e de razoável qualidade na grande maioria das cidades brasileiras, não existia. Ou você arriscava a fazer com o quebra galho local ou pagava uma nota pra seu equipo chegar de caminhão, visto que a carga aérea tinha seu limite financeiro literalmente nas nuvens. Os empresários viam-se a braços com logísticas dignas de um safari e muitos shows deixavam de ser realizados por completa inviabilidade.

Claro que os heróis existiam. Festivais à la Woodstock, como o de Águas Claras, enfrentavam dificuldades aparentemente intransponíveis e conseguiam concretizar o impossível. Num deles, chegamos no palco detrator e tivemos que interromper nossa apresentação depois que um dilúvio desabou sobre nós e nos livramos – por milagre divino – de sermos precocemente eletrocutados. No dia seguinte, o festival foi em frente, seu público composto por cerca de três mil pessoas remanescentes parecendo, ahn... “criaturas da lama”, saídas de um filme de ficção científica.

Com os músicos da banda, éramos cinco. Viajámos muito de carro. Ficávamos muitas vezes hospedados em casas de amigos, pois tudo era fator de economia. Os shows comprados eram raros e não era difícil tomarmos uma volta dos empresários locais, quase sempre amadores querendo dar a impressão de profissionais. Uma vez tivemos um empresário que bancou montes de shows Brasil afora. Estávamos achando ótimo, até descobrirmos que o cara era um estelionatário profissional, bancando tudo com um cartão de crédito estourado e ficando com nosso dinheiro. O mais engraçado é que um belo dia ele nos confessou tudo na cara dura, prometendo nos pagar em quinze dias e – claro, como éramos ingênuos – desaparecendo da face da Terra nos quinze minutos seguintes.


O problema de todos nós, músicos dos primórdios estradeiros dos anos 70, é que a paixão que tínhamos pela profissão obnubilava totalmente nossa noção do real. Fazíamos dez shows para receber três ou quatro, trabalhávamos em condições que hoje em dia seriam inimagináveis, viajávamos noites a fio (até hoje duvido das minhas “façanhas” de estrada e me pergunto como sobrevivi a tudo aquilo), montávamos nossos palcos carregando os pesados amplificadores, éramos – além de músicos – pau pra toda obra. Sem dinheiro para roadies, tínhamos que contar com a boa vontade dos fãs, que não raro trabalhavam lado a lado com a gente na montagem e na divulgação dos shows.


Hoje, quando depois de um bom sono chego descansado ao local do show e encontro o som passado, a banda a postos, o camarim suprido, o empresário com o pleno controle do que acontece e do que possa acontecer, lembro dos meus anos heroicos de roquerrural e me parabenizo: eu segurei aquela onda porque meu sonho estava ali, não amarelei, não chorei, resisti e segui em frente, às vezes contra todas as probabilidades.


Aí, deito-me naquele sofá confortável, relaxo e digo de mim para mim: “Eu mereço”. E como.
 

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