Zé Rodrix era muitos!

June 27, 2019

 

Dia 22 de maio completamos 10 anos sem Zé Rodrix. Uma pena essa regra geral de festejar o artista depois de morto. Não que Zé tenha primado pelo anonimato: ele gostava de e sabia como aparecer. Mas estranhamente os caminhos que o teriam levado a ser visto como a pessoa e o artista diferenciados que era, se truncaram e acabaram por não deixar que fosse feita a devida justiça a essa figura multicelular, mistura de enguia elétrica com polvo, às vezes incompreensível até mesmo para os mais próximos.


Acredito que isso ocorresse porque Zé Rodrix – parafraseando o dito de Guimarães Rosa sobre Minas Gerais – era muitos. Alguns deles eu podia compreender por sermos ambos filhos únicos, se é que isso pode significar algo além de psicanálise de botequim. Nossa teimosia em manter posições que às vezes sabíamos frágeis, nossa vontade de voar além dos horizontes possíveis, nossa solidão dentro de nós mesmos... Mas enquanto eu recorri a Lacan para procurar minhas soluções, Zé preferiu encarar um caminho mais difícil e solitário para o auto entendimento. Lembro-me de vezes em que ele debochava das minhas certezas Freud/Lacanianas e de outras onde ele partia para conclusões absolutamente psicanalíticas sem jamais admitir esse “detalhe”. Talvez isso fizesse parte do que ele poderia achar imperdoável nele mesmo, embora Zé jamais deixasse transparecer nenhum traço de arrependimento em suas decisões. Me vi perplexo quando num de nossos primeiros shows depois da ressurreição do trio Sá, Rodrix & Guarabyra no Rock’n’Rio de 2001, ele  parou pra dizer ao público do seu “arrependimento brega” e - modificando a letra do seu hiper-sucesso “Soy Latino Americano”, cantou: “Fui (Soy, no original) latino-americano mas vi que era engano, mas vi que era engano...”. (parênteses para explicação: depois de deixar nosso trio, Zé partiu para uma carreira solo. Pressionado pela gravadora, gravou um hit-instantâneo e – na época – apelativo, chamado “Soy Latino-Americano”. A música explodiu nas rádios, mas tirou dele uma boa parte da credibilidade que ele conseguira com o trio. Naqueles tempos de ditadura e patrulhamento de lado a lado, o sucesso comercial podia ser bem traiçoeiro). O mais engraçado é que tocada anos depois, nos shows do trio, a música retomou seu charme de sátira inteligente e bem urdida. O que o tempo e as circunstâncias não fazem...

 

 
Enfim, essa música, aliás, foi pivô de uma amarga discussão no icônico bar paulistano Lei Seca, quando nos reencontramos casualmente depois de uns anos de separação sem palavras. Ainda amargurado pelo desmanche do trio que eu amava, quis acusá-lo de tudo o que era possível, viável, visível e invisível, de “traidor” a “vendido”, esvaziando a mesa de amigos que preferiram levantar-se, constrangidos diante da virulência do bate-boca. Zé esgrimia de volta com a habilidade de polemista profissional que o acompanhou vida afora, repetindo que “fizera o que fora necessário fazer”. Acabei por ir embora do bar, indignado com o que achava ter sido um caso de indiferença e frieza, mas que na realidade me atingia de outra maneira, com a saudade de nossas harmonias vocais e da química que fazia de nós verdadeiras máquinas de compor músicas.


Mas como o Tempo é um bandeide poderoso, acabamos por nos ver de novo juntos no palco, no lançamento do “10 Anos Juntos”, disco da dupla. Chamamos o Zé para uma participação especial e nos abraçamos diante de cerca de cinco mil pessoas apertadas na tenda circense montada num terreno baldio da Martinho Prado, espécie de circo voador paulistano. Dali em diante, continuamos amigos, embora distantes: Zé, morando em São Paulo, abandonara a “vida de artista” e dedicava-se exclusivamente à propaganda, exaurido que fora por intermináveis viagens devidas justamente ao sucesso popular que ele tanto desejara (o paradoxo fazia parte integrante da sua existência) e eu – gato escaldado, morando no Rio - ainda tinha dúvidas quanto ao nosso entendimento futuro, mais por mim que por ele. Mesmo assim, em fins da década de 90 e a bordo de inumeráveis reaudições dos dois discos do trio, fui procurá-lo. Daí, continuamos nos falando e acabamos por refazer a parceria. Eu viajava frequentemente a São Paulo e ficava hospedado em sua ampla “casa no campo”, no Pacaembu, onde voltamos a compor como coelhos, parindo músicas em série. Dali a refazer o trio foi só uma questão de convencer o Guarabyra.


No início do novo século já estávamos os três compondo juntos de novo, nossa engrenagem parecendo ter sobrevivido, intocada. Gravamos dois CDs e um DVD, prosseguindo juntos até aquela madrugada fatídica em que um telefonema do Tavito me acordou com a inacreditável notícia da morte do Zé.


Nós três, adeptos do humor negro, brincávamos seguidamente com a ideia da morte. Aquilo não nos incomodava de perto, porque - mesmo já sexagenários - nossas cabeças e nossos corpos  não acompanhavam a cronologia “normal”. Desmentindo Belchior, não seríamos como nossos pais e provavelmente viveríamos ad eternam.
Mas, segundo Guarabyra, a pilha do Zé gastou. Justamente porque ele tinha essa intensidade espiritual. Careta convicto, jamais cultivou drogas. Não bebia. Pouco fumou. Mas era um Polvo Elétrico, queimando-se na água e afogando-se em terra, tentando abarcar num curto espaço de tempo todas as possibilidades de vivência artística ao alcance de um ser humano.


E como isso é impossível...

 

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