Eu e a música - Meneios e Requebros

 

Fotos: Divulgação / Internet / Luiz Barros / Rubens Seixas

 

Passei boa parte da minha pré-adolescência fabricando instrumentos fajutos de papelão: saxes, guitarras, teclados pintados encima de mesas... o que quer que assistíssemos nos filmes de rock que passavam nos cinemas da tijucana praça Saenz Peña – capital federal do lazer dos jovens de Vila Isabel - servia de modelo para a fabricação dos “instrumentos” e para as coreografias e mímicas que eu e meus amigos criávamos na garagem de casa. Algumas vezes tínhamos ocasião de apresentar nossos “talentos” nas festinhas de aniversário do bairro, para horror e desconsolo dos anfitriões, que tratavam de tirar nossos vinis e bolachões da vitrola logo que possível, evitando assim a maligna e muito provável contaminação de seus pimpolhos e pimpolhas que – já previamente preparados para tal virose – gritavam e batiam palmas para nós. Lembrar dessa fase me faz concluir que o rock’n’roll é marginal de origem, porque trata-se de uma música que não permite controle ou limites. A extrema repressão comportamental oriunda da Segunda Guerra, talvez necessária enquanto durou a conflagração, deu lugar à volta do pêndulo, ou seja, o desejo de liberdade oriundo de jovens de 18 a 25 anos que haviam sido literalmente atirados aos campos de batalha como bois de piranha. Aqueles que conseguiram escapar da carnificina exigiram então sua recompensa: a possibilidade de criar uma coisa diferente daquela que havia atirado o Mundo ao caos. Como agravante, a Guerra Fria começava sua caminhada inconsequente, que iria culminar nas revoltas de 68, com a recusa da juventude a ser comandada por regras que provavelmente levariam a Humanidade a uma catástrofe atômica de consequências imprevisíveis. E o rock brilhou de vez em seu papel de trilha musical da contracultura.


Mas para nós, meninos de 12, 13 anos, nascidos e crescidos na zona norte da então capital do mais promissor país subdesenvolvido da América Latina, aquela música era apenas uma promessa de liberdade, uma possibilidade de cuspirmos nossa energia reprimida para fora de nossos corpos e mentes disciplinados por rotinas conformistas. Não queríamos nos distanciar de nossas famílias, mas queríamos, sim, que elas respeitassem nossos desejos de uma existência diversa, não porque fôssemos – nós ali, daquela rua em particular – infelizes, mas porque queríamos algo a mais da vida, algo que nem sabíamos ainda o que era, uma coisa que pressentíamos existir alguns passos adiante. Isso nunca foi novidade, jovens sempre foram assim, responsáveis pelas mudanças, pelos abalos, pelos erros e acertos de gerações, às vezes só tardiamente prestando atenção às benesses da experiência. Faz parte.


Enfim, loucos para assistirmos alguns musicais e oprimidos pelo noticiário de quebra-quebra de cinemas que chegavam de São Paulo, onde a galera do rock’n’roll era barra-pesada, resolvemos que improvisar seria a melhor solução. Seríamos do contra, sim, mas por debaixo dos panos. Tendo sido sempre um atento observador da datilografia de meu pai, eu era o mais apto de nós a lidar com máquinas, carbonos, corretores e etc., acabando por me tornar um hábil falsificador de carteirinhas escolares. Em menos de uma semana depois do lançamento de Sementes de Violência com proibição até 14 anos, tínhamos nossos “documentos” em mãos.

 

 

Então, como bons rebeldes da pesada, vestimos nossos jeans de bainha dobrada com – chamavam-se assim – sapatos de tênis, nossas melhores e mais coloridas camisas (preto nesse tempo era luto, rsrs), pegamos o bonde Aldeia Campista, saltamos na Saenz Peña e saímos estalando os dedos ao ritmo de um rock imaginário rumo ao cine Olinda, onde passava o filme. Mas aí, decepção! uma multidão na porta protestava contra a mudança da censura: agora, só pra maiores de 18 anos, consequência do quebra-quebra paulistano. Num átimo de esperteza, resolvemos correr pro cine Carioca e assistir Marcelino, Pão e Vinho, um filme caretamente religioso, mas Julinho deu a dica:
- Se a gente conta a história, eles vão confiar mais em nós!
Foi assim que cheguei em casa contando pra minha mãe:
- E aí tem a hora em que ele fala com Jesus!


Dali em diante nossas idas aos cinemas da praça Saenz Peña foram liberadas. Viajámos nos estribos dos bondes, escapando da cobrança para guardar dinheiro e comprar cigarros, entrávamos nos cinemas com carteiras de estudante falsificadas, saíamos dançando até a lanchonete Café Palheta, onde comíamos cachorros-quentes com a grana que tinha sobrado dos nossos pequenos trambiques.

 

 
Nada disso difere muito do que rola hoje em dia com os garotos, tirando o agravante das drogas, etc... Mas nós, adolescentes, sabemos que somos incontroláveis, porque o Mundo não nos satisfaz com suas propostas, porque não sabemos aonde os donos do Mundo querem chegar.


E isso periga perpetuar-se per omnia secula seculorum, amém. Para o bem ou para o mal, como todos os grandes erros e acertos da Humanidade.

 

 

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