SemanÁudio 2019: de técnicos para técnicos

October 5, 2019

redacao@backstage.com.br | Fotos: Nelson Cardoso (Revista Backstage) / João Adefran Santana (Sound Maker) 
 

 

 

SemanÁudio reuniu alguns dos maiores profissionais do áudio em Salvador em quatro dias de imersão com o tema Lazer, Conviver e Aprender

 

O SemanÁudio é um evento que acontece, no Nordeste, já desde 2017. Desde então, já aconteceram 11 edições em capitais como Fortaleza(CE), Salvador(BA) e Natal(RN). Também houve uma edição em Mossoró(RN). O evento que aconteceu em agosto, no Hotel Sol Bahia Sleep, entre os dias 12 e 15, em Salvador, foi a décima segunda edição.
Quem está acostumado aos eventos tradicionais que envolvem o mercado de áudio, como a Expomusic e a convenção anual da AES Brasil, talvez estranhe o fato de este já ter 12 edições em pouco mais de dois anos. Mas o SemanÁudio é um pouco diferente. Não há a ideia de ter um “lugar principal”. Cada edição, seja em que local for, é uma edição específica e única, que atende a determinadas demandas do público que, por sua vez, tem uma interatividade grande com a organização.


O SemanÁudio se propõe a ser uma imersão, misturando o caráter educativo do evento com entretenimento, formação de redes de contato e lazer, possibilitando assim uma maior interação entre os participantes – tanto os palestrantes como os espectadores – no mesmo espaço. Os organizadores são Fernando Maia, músico e técnico em áudio pós-graduado em engenharia de som e o engenheiro de som Tito Menezes, formado em música e técnico de diversos artistas. Ambos dividem bastante as responsabilidades e decisões, sempre no sentido de atender aos objetivos do evento e promover intercâmbio de conhecimentos e experiências.

 

História e desenvolvimento
Tanto Fernando como Tito já tinham uma história com eventos educativos anteriores. Eles se conheceram há muitos anos, quando Tito, que é de Salvador, foi operar o som de uma banda em um programa da TV Diário, do qual Fernando Maia era o técnico responsável. “Depois disso ficamos muito amigos. Diversas coisas foram fazendo com que nossos caminhos se cruzassem. Uma delas foi a Segunda Técnica: um movimento de encontro técnico na área de áudio que eu organizava em Salvador, há uns 10 anos”, comenta Tito. Na época, o evento se espalhou pelo Brasil. Fernando era responsável pelos encontros em Fortaleza, o que fez com que estreitassem as relações pessoais e profissionais.


Em 2016, a roda do SemanÁudio começou a girar. Após uma ligação de Kadu Melo (monitor de Jorge Benjor e P.A. de Fábio Junior, entre outros trabalhos), Fernando decide fazer, com ele, um programa de treinamento logo no início de 2017. “Na mesma hora liguei para Tito convidando-o para ser palestrante também. Em menos de 45 dias, formatei, organizei, e produzi o então inédito SemanÁudio ocorrido de 9 a 12 de janeiro”.


Nesta primeira edição, o evento teve o apoio logístico e suporte técnico da RTAudio, com Ricardo Tavares e Erlon Damasceno e equipe, além do apoio de duas pessoas que o SemanÁudio coloca como importantíssimas neste evento: Alexandre Eidt e Pedro Gehring. “Foram 4 dias de um evento inédito em Fortaleza com a participação de mais de 100 técnicos”, ressalta Fernando. Em 2017 aconteceram ainda duas edições grandes em Natal, também com cerca de 100 participantes, nos meses de julho e dezembro. Em 2018, no mês de janeiro, aconteceu uma grande edição em Fortaleza, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. “Foi um marco. Um formato diferente, com mais de 15 palestrantes convidados e 150 participantes de todo o Brasil”, relembra Fernando Maia.

 

 

 

Flexibilidade
O SemanÁudio tem a característica de se adaptar a cada necessidade, e pode ser realizado em um formato Express, que acontece em um ou dois dias com temas específicos. O local é escolhido de acordo com as demandas de cada encontro. “Sou formado em administração e nós fazemos um estudo e mapeamento, desde o acesso do participante do aeroporto até o possível local, as condições climáticas do período a ser realizado, o perfil dos participantes, as facilidades em chegar e sair e ficar hospedado e a logística das empresas para conseguirem chegar e sair do evento”, detalha Fernando. 


A edição de janeiro de 2018, em Fortaleza, foi a que começou a gerar o formato imersivo, ainda que não o tenha sido. Mas foi após os eventos no formato Express que aconteceram em Mossoró (RN), Natal (RN) e, novamente, Fortaleza, que Tito entra, de forma mais efetiva, na história do SemanÁudio. “Após um dos eventos que participei (Natal), quando Fernandão estava me levando ao aeroporto, falei sobre a minha vontade de fazer um evento nacional de áudio em Salvador, justamente por já organizar a Segunda Técnica na cidade. Falei sobre as ideias que tinha para o evento e o chamei  para fazermos juntos. E então decidimos usar o mesmo nome SemanÁudio, que Fernando já usava. Juntamos as forças e as ideias e começamos a formatar o de agosto de 2018, em Salvador”, rememora Tito. “Em agosto do mesmo ano reformulamos a estrutura do SemanÁudio e mais de 250 participantes estiveram na edição de Salvador, e nesta edição foram inseridas as empresas apoiadoras, o que proporcionou  ainda mais evolução ao evento. Em Fortaleza, ainda aconteceram mais duas edições no mesmo ano, sendo uma Express e mais o SemanÁudio Solidário, no qual mais de 60 técnicos se reuniram em uma noite para aprender novas tecnologias e ajudar as crianças desnutridas da Instituição IPREDE com mais de 100 latas de leite em pó” acrescenta Fernando.

 

 

O ano de 2019 já está se configurando como fundamental no desenvolvimento do SemanÁudio. Mesmo antes da primeira edição, já havia o objetivo de fazer o formato imersivo. “Até chegar neste formato traçamos as metas e fomos, de forma consciente e sem pressa, realizando todas as etapas, porque isto não é imposto ao participante. Ele é quem faz a programação, sugerindo temas, ideias, faz a avaliação final sobre tudo o que aconteceu, sobre as necessidades atendidas e as que não foram atendidas”, coloca Fernando. Foi a cidade de Fortaleza que assistiu, no início do ano em janeiro de 2019, a cerca de 400 profissionais de todo o país no primeiro evento de imersão de áudio em um ambiente onde o lazer e o conhecimento caminharam lado a lado a partir do tema Lazer, Conviver e Aprender. “Foi um formato super leve e descontraído, com piscina, área de lazer, três palcos montados, estúdio, salas master class, auditório e a grande novidade, que foi a prática de show em palco, ou seja, toda dinâmica de um show desde o ponto zero”, explica Tito, completado por Fernando: “além de todas as formações com palestras, Master Class e práticas de show, pudemos conviver 24 horas com todos os participantes e palestrantes hospedados no mesmo ambiente, sem sair do local, em momentos de lazer na piscina, em partidas de futebol e até mesmo jogando vídeogames. À noite, tivemos programação direcionada à convivência com uma food truck gourmet servindo churrasco e cerveja artesanal, tudo isso com música ao vivo”.

 

O evento de agosto de 2019 em Salvador teve um formato mais tradicional. Foram oito salas com programações de palestra simultâneas e a demonstração de sistemas ao ar livre. O workshop de som ao vivo foi relacionado ao áudio no trio elétrico. “Pela primeira vez em 70 anos de história do trio elétrico, inovamos e fizemos uma inédita prática de show em um, mostrando e explorando todo o processo e as especificidades deste tipo de trabalho”, enfatiza Fernando. “O SemanÁudio sempre busca inovações, e a deste ano foi a prática de show em trio elétrico. Talvez o grande desafio tenha sido colocar um dentro da área do hotel para que tivéssemos tudo (palestras, workshops, etc.) acontecendo no mesmo ambiente. Além disso, queríamos fazer com que toda dinâmica do evento proporcionasse que todos os participantes pudessem estar próximos de tudo. Queríamos que, desde a audição, salas especiais, máster classes, salão de expositores, tudo ficasse próximo, exatamente pelo objetivo do evento que é a imersão”, aponta Tito. “Sabemos que este formato é muito difícil de levar a todas as cidades, por isso sempre informamos em nossas divulgações que não esperem o SemanÁudio chegar em sua cidade. Talvez ele não vá. Cada edição é inédita e única, ou seja, não se repete. Por isso trabalhamos e fazemos de tudo para que cada pessoa vivencie este momento”, ressalta Fernando Maia. “Pelos feedbacks que estamos recebendo vemos o quanto o evento está sendo proveitoso pra quem participa, seja como organizador, palestrante, inscrito ou expositor”, completa Tito.

 

Palestras
É claro que em um evento de troca de conhecimentos, as palestras são parte fundamental. E o SemanÁudio tem um caminho bem próprio para defini-las: “sempre fazemos uma enquete onde os técnicos escolhem palestrantes pré-estabelecidos e espaço para sugerir nomes, assim como os temas”, conta Fernando. Em Salvador, foram mais de 20 palestras com cerca de 30 palestrantes entre alguns dos mais tarimbados profissionais do país, como Beto Neves, Carlos Ronconi, Manoel Tavares, Marcelo Claret, Rosalfonso Bortoni, Daniel Reis, Fabio Zacarias, Renato Carneiro, José Carlos, Emidio Braga, Martin Buffer, Maurício Pinto, Flávio Goulart, Denio Costa, Alexandre Rabaço, Fernando Fortes, Matheus Madeira, Pedro Gehring, Gustavo Bohn, Alexandre Eidt, Lucas Sallet, Kadu Melo, Tiago Borges, Levinton Nascimento, Igor Pimenta, Jaksandro Silva, Roque Fausto, Lazzaro Jesus, Arnaldo Junior, os organizadores Tito Menezes e Fernando Maia, e também dois convidados internacionais: o engenheiro de som Robert Scovill, cuja palestra teve tradução simultânea para 400 pessoas e Thiago Terra, engenheiro de aplicações, vindo da Itália.

 


De acordo com Manoel Tavares, que ministrou palestra com Carlos Ronconi a respeito de mixagem de musicais para a TV, o retorno foi o melhor possível. “São quatro dias de imersão com os melhores profissionais do áudio. E o feedback que o Robert Scovill deu foi extremamente positivo. Falou para uns amigos que ele nunca viu nada parecido em nenhum lugar do mundo. As perguntas estão muito bem formuladas. E foram mais de 500 pessoas por dia circulando lá”, comenta.

 


Ele e Ronconi já participaram de outro SemanÁudio. “O impressionante para nós do mundo de TV era ter mais ou menos 80 pessoas na palestra interessadas no que é diferente no mundo da televisão”.


De acordo com Tavares, a intenção foi desmistificar um pouco a mixagem de musicais para TV. “A nossa palestra diz para todo mundo que o tratamento em TV é em nível de DVD, com tudo o que tem direito. Com a abertura da faixa de transmissão, hoje  temos, efetivamente, de 20 a 20 mil Hz para brincar”. Manoel acredita que o formato do SemanÁudio tem boas indicações para outros eventos mais tradicionais.

 

Fabio Zacarias, da FZ Áudio, falou sobre o desenho de sistemas usando simulações de software. “A palestra foi mais uma troca de experiências na montagem de sistemas, com os problemas típicos e a simulação de software para melhorar, porque ainda tem muita gente com resistência a usar software, que é muito necessário especialmente em Line Array”, comenta. Fabio preparou a palestra de forma a atender às demandas do público mais básico. “O objetivo é atender a todos.  Então trabalhamos em uma concepção bem no nível mais básico, porque a maior parte são técnicos jovens que ainda estão aprendendo. O evento teve uma presença muito grande, uma coisa massiva mesmo. Já tinha ido a duas versões anteriores. Já estava grande antes, mas aumentou”, comemora.

O engenheiro de estúdio e som ao vivo Beto Neves exalta o formato do evento. “Acho que está cada vez mais bem organizado. Começaram pequenos, hoje está com uma quantidade de palestras e participantes bastante alta. É interessante que o evento tenha um cunho de seminário, apesar de não ser, com uma grade bem extensa. E a diferença entre ele e os outros eventos, principalmente outros grandes do sul do Brasil, é que eles são mais acessíveis a uma categoria de técnicos mais iniciantes, tanto na linguagem como financeiramente. Isso em um país como o nosso, no qual a educação está em segundo plano, e em uma profissão como técnico de áudio, que não tem uma formação acadêmica, faz com que uma grande parte desses profissionais empíricos iniciantes se sintam acolhidos com o formato do SemanÁudio. O conhecimento do áudio no mundo é 80 % em outra língua, e isso bloqueia o acesso aos brasileiros. O SemanÁudio começou a trazer isso para um público que não tinha acesso às feiras do sul e do sudeste. Foi realmente uma imersão.  As pessoas acordam e dormem juntas no mesmo hotel, com uma grade extensa. Isso cria uma comunidade entre a pessoas que se conhecem no mesmo local”, diz.

 

A palestra de Beto foi semelhante à outra que ele deu em um SemanÁudio anterior. Uma palestra que, segundo o feedback que a organização teve, ainda foi curta apesar das três horas de duração. “Conheço o Tito e fui convidado no anterior, em Fortaleza, para fazer uma palestra de abertura sobre mixagem em P.A. Mas como sou um engenheiro que trabalha mais com estúdio, falei sobre técnicas de estúdio que a gente tem condições de utilizar no mundo do live, porque as mesas digitais proporcionam isso. Essa em Fortaleza teve duas horas, mas foi pouco, então o Tito me convidou para fazer uma de três horas podendo me aprofundar mais”.  

Desde os antigos Encontros Nacionais dos Profissionais de Áudio – os antigos EMPA, que se tornaram a AES Brasil, que Roalfonso Bortoni estava um pouco afastado desse tipo de evento. Ele gostou do que viu. “Por 12 anos fiquei afastado, em parte fora do Brasil, em parte imerso nos trabalhos para as olimpíadas, ainda que indo a uma ou outra AES. Minha palestra foi focada no amplificador, como ele entra no sistema, as considerações que podemos fazer para especificar bem o amplificador e relacionar a potência do amplificador com o alto falante. Também abordei temperatura, porque, a pedido da organização do evento, o foco era o trio elétrico, e me perguntaram como fica a temperatura do amplificador dentro do trio elétrico, que é um lugar enclausurado”, coloca. “As gerações vão se renovando, a tecnologia vai mudando, e sempre a informação de base tem espaço nesse tipo de evento”, conclui o engenheiro.

Marcelo Claret percebeu uma evolução clara na postura dos profissionais brasileiros e gostou muito da organização. “Acho que eles encontraram uma fórmula que concilia o útil ao agradável sem adicionar custos exorbitantes por causa disso. Fiquei muito feliz e impressionado com a postura extremamente positiva dos participantes em relação ao aprendizado. Todos se mostraram muito abertos e interessados em aprender. Isso me chamou a atenção porque indica uma mudança de perfil da galera de sonorização, pois no passado o que víamos eram profissionais que não tinham tido formação alguma além da prática, mas que juravam de pé junto que não tinham mais o que aprender. Isso mudou e o SemanÁudio está provando isso. Pra mim, essa foi a melhor parte de tudo, porque é óbvio que qualquer um de nós que não estude, que não se atualize e que não tenha a base fundamentada, corre sérios riscos de se tornar rapidamente um profissional defasado. Essa mudança de postura mostra muita maturidade dos profissionais”.

 

 


A apresentação de Claret teve como base um dos cursos que ministra no IAV, em São Paulo sobre efeitos e mixagem. “A ideia é mostrar os conceitos por de trás da criação de ambientes sonoros para que a mixagem, ao vivo ou em estúdio, tenha profundidade, lateralidade etc. Ou seja: como deixar sua mixagem estéreo com imagem 3D”.

Tito Menezes ministrou palestra sobre equalização e afinação musical de instrumentos percussivos enquanto Fernando Maia fez uma apresentação sobre o áudio nas igrejas com Martin Buffer sobre os desafios da iniciação técnica. Também com Kadu Melo, desenvolveu o tema “Construindo uma mix para transmissões em redes sociais”. Analisando a própria criação, Fernando deu uma explicação definitiva sobre o que é o SemanÁudio “Não é feira, não é congresso, não é exposição, não é escola, não é nada do que se imagina em relação ao formato de eventos. Ele é imersão, ele se preocupa com quem vai ao evento. Por isso que trabalhamos muito o antes e o depois também. Não queremos que a pessoa apenas pague sua inscrição. Por isso nos diferenciamos de tudo. Cada participante, cada contato é feito quase que pessoalmente por nós. Sabemos como o profissional está na vida real, das suas dificuldades e temos empatia por isso. Sabemos que para fazer um evento deste porte é necessário uma movimentação financeira e temos que ser prudentes nessa administração. É um evento pago, não gratuito, porque acreditamos que podemos trabalhar esta valorização, mas queremos que este investimento possa ser prazeroso ao participante. Nas duas últimas edições, em Fortaleza e Salvador,  tivemos um participante chamado Kildeir Monteiro, de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, fronteira entre Brasil, Venezuela e Colômbia, que passou por 27 horas de barco a jato, na ida e na volta, pois de barco normal são três dias, além de um voo cheio de escalas e com preços altos. E mesmo assim ele falou que foi o melhor investimento que já fez na vida. E para esta edição ele ainda trouxe

mais dois amigos da região”, resume Fernando.

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