Celebração e grandiosidade com U2

March 29, 2018

Com todas as soluções tecnológicas presentes e repetidas nas produções de espetáculos, ainda seria possível surpreender e oferecer algo novo na conjuntura atual do mainstream? Em se tratando de U2, a resposta sempre será, sim! 
 

Conceitualmente ou estruturalmente, a cada nova turnê, essa banda irlandesa consegue superar expectativas, musicais e visuais. Na celebração pelos trinta anos do lançamento de um dos mais importantes discos da sua história, esta conversa abordará aspectos e recursos inseridos na turnê The Joshua Tree Tour 2017, realizada em outubro do ano passado, em São Paulo, com imponência e grandiosidade.

Poucas são as bandas que conseguem consolidar uma trajetória de quarenta anos com a mesma formação, produzindo álbuns interessantes e relevantes, além de realizarem grandiosas e espetaculares turnês, que atraem milhares de fãs em todos os lugares por ondem passam.


A banda irlandesa U2 dispensa muitas apresentações. Formada em Dublin em 1976, teria na sua formação definitiva a liderança, carisma e presença de Paul David Hewson ou “Bono” nos vocais, guitarras e harmônicas; David Howell Evans ou “The Edge” nas guitarras, teclados e backing vocals; Adam Charles Clayton no baixo; e Lawrence “Larry” Joseph Mullen Jr na bateria e percussão.

Mesmo após o lançamento de quatro ótimos discos ‘de estúdio’ (Boy, 1980; October, 1981; War, 1983; e The Unforgettable Fire, 1984), e uma singular participação do concerto Live Aid (1985), a banda ainda buscava uma identidade. Mesmo com uma direção musical conflituosa, buscaram inspirações na música irlandesa, nos elementos do experimentalismo e também do rock’n’roll, mas, principalmente, no gospel e blues americanos, para as composições de um novo disco. Somados a esses elementos, uma viagem aos Estados Unidos, cujas imagens e referências culturais se fizeram presentes no processo de composição.


Foi com esse preâmbulo que gravaram The Joshua Tree, trilha sonora definitiva da banda, sendo também um divisor de águas, pois se consolidaria como o maior sucesso comercial, com mais de 25 milhões de discos vendidos e responsável por dois prêmios Grammy Awards, nas categorias Melhor Álbum do Ano e Melhor Performance de Rock, de 1987. Além disso, esse álbum aparece em diversas listas e seleções como um dos melhores discos da década de 1980, por diversas publicações de música.

Na celebração pelos trinta anos do lançamento desse iconográfico álbum, promoveram a turnê The Joshua Tree Tour 2017, com 51 shows realizados em 15 países diferentes. Essa turnê foi produzida mundialmente pela Live Nation Global Touring, iniciada em 12 de maio do ano passado no BC Place Stadium, em Vancouver (Canadá), e encerrada no dia 25 de outubro de 2017 no Estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi), em São Paulo.


Para esta turnê comemorativa, a banda contou mais uma vez com a genialidade de William Peter Charles “Willie” Williams, que, além da direção criativa da turnê, desenvolveu o projeto de iluminação cênica e o conjunto de palcos, atuando também como diretor de iluminação. Os palcos (principal, com 59 metros de largura, e secundário, conectado por uma passarela de 23 metros a uma base em forma da árvore de Josué) foram idealizados e elaborados em associação com a empresa inglesa Stufish Entertainment Architects (fundada pelo brilhante Lighting Designer Mark Fischer, falecido em 2013). 

Da mesma maneira que foi produzida a U2 360º Tour, os palcos foram construídos pela empresa americana Tait Towers, reproduzindo, parcialmente, a estrutura do palco utilizado na turnê original, realizada em 1987. Como diferencial, a árvore de Josué (The Joshua Tree) foi reproduzida, sendo a copa desse vegetal construída com altura de 9 metros acima da tela de vídeo. Além disso, para o palco secundário, com a forma da projeção ilusória relativa à sombra da árvore no plano horizontal, elevadores dispostos para ocultar um kit de piano e bateria abaixo dessa plataforma, de maneira a não prejudicar a linha de visão do público quando a banda se apresentava no espaço cênico principal.

 

Além da banda e desses elementos cenográficos, a turnê foi marcada por outra protagonista: uma enorme tela de vídeo fornecida pela empresa americana Production Resource Group, L.L.C. (PRG), com uma leve sinuosidade, causando a ilusão dos efeitos visuais em 3D. Projetado por meio de painéis com LEDs integrados, desenvolvidos em fibra de carbono para serem leves, desmontáveis e resistentes aos ventos e intempéries, esse sistema, intitulado ‘Spaceframe®’, foi utilizado pela primeira vez nessa turnê para construir uma tela de vídeo LED com 61 metros de largura e 14 metro de altura. 


Composta por 1040 painéis individuais para a reprodução de vídeo de alta definição, essa tela teve uma resolução de 7200 × 1560 pixels, sendo a maior neste aspecto e em dimensões usada em uma turnê, similar em tamanho somente àquela utilizada na Pop Mart Tour (1997-1998), também da banda U2, mas com qualidade quatrocentas vezes maior. 
A PRG forneceu ainda o sistema de câmeras de transmissão em 4K (UHD), utilizados também pela primeira vez em uma turnê. Uma combinação de vários dispositivos para a conexão de câmeras e processadores para vídeo wall de LED por meio de cabos de fibra óptica, projetados para operar com os padrões de transmissão mais precisos, possibilitando a captação/geração de vídeo a 60 quadros por segundo a uma resolução de 3840 × 2160 pixels.
Como requisito essencial à turnê, a elevada definição e qualidade dos elementos visuais reproduzidas na tela de vídeo tinham como intenção principal o envolvimento do público com a proposta conceitual do espetáculo, implementada com a projeção de imagens magníficas e exuberantes de paisagens e personagens, cujo conteúdo personalizado fora produzido pela empresa inglesa The Third Company Ltd, pelo fotógrafo e cineasta holandês Anton Corbijn e pelo artista e ativista francês JR.

 

Outra inovação de destaque, relativa à iluminação cênica, foi idealizada por Willie Williams e implementada pela empresa PRG. Canhões seguidores com câmeras acopladas, controlados por meio de joysticks no console principal, permitia o direcionamento de diversos instrumentos simultaneamente sem a necessidade de operadores manuais, uma vez que o ponto de vista desses equipamentos poderia ser identificado em um monitor de vídeo convencional.
Com essa impressionante estrutura, cada show foi concebido para ser realizado em quatro momentos. No primeiro, na abertura do espetáculo, a banda se apresentava no palco menor (secundário) para quatro canções. Em São Paulo, no dia 19 de outubro, a sequência de Sunday Bloody Sunday, New Year’s Day, Bad (com trechos incidentais) e Pride (In The Name Of Love), canções que remetem aos álbuns anteriores do magistral The Joshua Tree. Nesse mini-set, referências à própria história e ao caráter mais dramático, associado às temáticas sociais e politizadas que essas músicas proporcionam.

 

No segundo momento, a execução na íntegra do álbum celebrado e homenageado com essa turnê, na ordem em que as canções aparecem nos dois lados do disco lançado em 9 de março de 1987. Nesse contexto, vídeos contextualizavam as mensagens contidas em cada canção, ou exploravam cenas e imagens instantâneas, com luzes nas cores primárias, enérgicas e dominantes. A banda fornecia apenas a trilha sonora, nos mesmos moldes no qual o cinema se desenvolveu na História, fornecendo a musicalidade essencial para a percepção dos cenários insólitos, desolados e melancólicos, ou mesmo provocativos e irreverentes, complementados com sonoridades e texturas pesadas e envolventes.


Todas as canções se destacam por ser The Joshua Tree um álbum coeso e singular, referência de uma conjuntura musical pluralista, mas segmentada. Tornou-se um disco icônico e essencial para a compreensão das linguagens e mensagens adotadas pela banda, em tons espiritualizados ou críticos, resultando em uma obra-prima eclética e seminal.

No terceiro momento, canções mais atuais - Beautiful Day, Elevation e Vertigo -, trechos incidentais que homenageavam David Bowie (com Starman e Rebel Rebel) e mensagens mais fortemente ligadas aos aspectos políticos e sociais presentes nas canções. Animações mescladas com Image Magnification (IMAG) também proporcionavam outras interações, cativando a plateia, em todos os locais do estádio. Deve-se ainda destacar o sidelighting cuidadosamente utilizado para a dramaticidade e emolduramento, revelando expressões e emoções.
No último momento (bis), a inédita You’re the Best Thing About Me (oficialmente lançada em pouco mais de um mês antes do show), Ultraviolet (Light My Way) e para finalizar esse épico show, One, executada com emoção e júbilo, por uma banda que consegue oferecer uma apresentação inigualável e repleta de composições esplêndidas.
Enfim, uma celebração única, visual e musicalmente, em reverência e homenagem a um álbum extraordinário, porta-voz de um contexto histórico repleta de conflitos e desilusões, cujas metáforas ou referências explícitas aparecem na forma de poesias e sonoridades únicas. Um show memorável, ricamente ilustrado e iluminado com texturas ora suaves, ora impactantes; idealizado com esplendor e grandiosidade.

 

Abraços e até a próxima! 
 

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