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SUMÁRIO / Sumário

DeWayne "Blackbyrd" McKnight é entrevistado por Alexandre Algranti

19/11/2021 - 09:40h
Atualizado em 24/11/2021 - 15:15h

 

DeWayne "Blackbyrd" McKnight, o regente do funk,  já tocou com Miles Davis, Herbie Hancock e Parliament/Funkadelic. Como diretor musical de George Clinton , deu um novo gás ao coletivo psicofunk no início da década de 1990. Você provavelmente já dançou ao ritmo de uma música composta ou executada por ele ou até mesmo sampleada dele.

 

Alexandre Algranti - Quando você decidiu se tornar um músico profissional?

DeWayne "Blackbyrd" McKnight  - Vou retornar  à minha infância: crescendo em Los Angeles eu tinha parentes na cidade de Fresno e sempre visitava meus avós. A irmã da minha mãe morava ao lado e o marido dela tinha uma guitarra. Sempre que chegava lá eu ia na casa vizinha e começava a tocar guitarra. E foi aí que eu entendi a coisa. E desde então eu nunca parei de tocar. Meu tio, seu nome era "L.G.",  me deu aquela guitarra. Eu comecei a tocar e a coisa veio naturalmente. Eu escutava e pegava as coisas, hits como Secret Agent Man, Gloria, e foi aí que comecei a pensar em virar um guitarrista.

 

E agora a única pergunta estúpida desta entrevista. Prometo... (Risos). Porque o funk?

Porque o funk é tudo. O funk é tudo. O funk abrange muitos estilos. Eu tive três bandas favoritas crescendo, três objetivos desde o colegial. Os meus foram tocar com o Miles Davis, Herbie Hancock e Parliament/Funkadelic. De toda a música que eu escutava estes foram os três para os quais eu gravitei e gostei mais, e o Parliament foi o meu favorito, pois abarcava todo este material. Tinha humor e tinha seriedade nas letras. Era como nenhuma banda que eu já tivesse escutado. E a mensagem que eles estavam projetando ressoou muito comigo, então…

 

Qual o impacto de bandas como Band of Gypsies no seu trabalho? Como você sentiu em ver o Hendrix com uma banda só de negros tocando aquele som?

Foi o nascimento do funk and roll. Posso dizer que estes três caras fizeram algo com a música que não havia sido feito antes. Foi algo com o que todos sonhavam mas que nunca havia sido feito. Foi algo que nós músicos sempre sonhávamos, nós estávamos fazendo mas sem obter reconhecimento. Não dava para sair tocando funk e rock ao vivo, mas quando saiu o Band of Gypsies nós todos pulamos naquilo. O Band of Gypsies é o nascimento do funk and roll.

 

 

Foi um momento "Big Bang" não?

Definitivamente sim.  E não acho que obteve o devido reconhecimento.

 

O que é muito legal é que o show onde foi gravado o disco ocorreu em 31/12/1969. Você não acha que esta data é uma data histórica muito importante pela simbologia? Tipo o fim de uma era e o início de outra?

Sim. Tiveram dois shows, um no dia 31 e outro no dia 1. É engraçado, eu nunca pensei em me encontrar com ele, eu não saberia o que dizer. É o meu favorito entre muitas pessoas com a guitarra… Tudo o que ele fez com a guitarra, e não somente isto... Amúsica, as letras, o rhythm and blues, um guitarrista de rock tocando com um baterista de jazz, e o baixista que o Noel era... Não tinha nada como aquilo. E olha que tinham um trios fodásticos naquela época mas aqueles caras estavam cozinhando algo diferente.

 

Bach, Mozart e Hendrix. Para mim é o contínuo… Hendrix viria logo após Mozart.

Eu também acho… (risos).

 

E se fossem contemporâneos com certeza tocariam juntos.

Eu concordo! Seria uma jam bem legal. Muita gente, reconhecendo ou não, ele influenciou todo mundo. Ele mudou a atmosfera do que era a guitarra e no que ela é hoje em dia.

 

A faixa "God Made Me Funky" do seu disco com o Headhunters foi fortemente sampleada no hip hop. Você se sentiu lisonjeado ou ficou bravo com esse fato?

Está brincando? Me senti lisonjeado! Lisonjeado! Eu gostaria de ter tocado no trecho. Provavelmente é um dos sons mais sampleados do hip hop…(risos)

 

Provavelmente. Como você define o funk progressivo?

Acho que é uma coisa que é melhor não tentar decifrar ou analisar. Nós fazemos o que fazemos. Nós utilizamos as experiências pelas quais passamos na vida, nós juntamos elas e deixamos a plateia, ou quem for, dizer o que eles acham o que é. Para mim é música, boa música. Mas eu não tento analisar, eu não coloco rótulos nas coisas, eu só curto elas.

 

 

 

 

Seus dois últimos projetos para mim são fenomenais. De um lado a banda SociaLybrium, um som muito espacial, e do outro o seu disco solo "'Bout funkin' time" que é mais cru e muto poderoso. De onde vem a inspiração para uma música tão fantástica?

Com o SociaLybrium foi um trabalho com o J.T. Lewis (baterista), Melvin Gibbs (baixista) e o Bernie Worell (tecladista). Eles na verdade fizeram muita coisa antes de eu chegar na banda, escreveram muita coisa. Nós gravamos ao vivo, sem overdubs e coisas boas assim. Só me chamaram. O J.T. tem um estúdio em casa e fizemos o disco.

 

Qual sua tecnologia de produção musical favorita? Você é um artista mais analógico ou mais digital?

Ambos. Uso analógico e digital. Neste momento o meu rig no estúdio é composto de um HX Stomp da Line 6, um sintetizador SY1 da Boss e um pedal wah wah da Dunlop. Voltando ao Bout Funkin' Time, foi uma declaração após deixar o Parliament/Funkadelic, pois tive que sair. Fazer um disco quando você está somente duas semanas em casa e você tem que voltar para a estrada é muito difícil. Foi muito difícil comigo. Eu gravei tudo sozinho, e essa foi a reação. Foi o que me comprometi a fazer, tocar guitarra mais que qualquer coisa. Espero ter conseguido.

 

O disco é monstro, muito instrumental. A faixa de abertura, Funkarockaholic, é digna de um filme de surf com ondas monstras…

É muito bom.

 

Além do seu rig de estúdio, o que você usa ao vivo?

Eu também uso um RP360 X3 da Digitech que eu uso no lugar do HX Stomp da Line 6. E na amplificação nos shows do George (Clinton) eu uso os Mesa Boogie Triple Rectifier tirados da embalagem.

 

 

 

 

E com todo este arsenal musical como você cuida da sua audição?

Não cuidei…(risos)

 

Acho que ninguém cuida…(risos)

A gente tenta… Eu procuro onde o volume estiver mais baixo, tento ficar longe dos amplificadores. Eu me movo muito no palco. Neste aspecto eu tento cuidar da minha audição. Tocamos bem alto. Somos muito altos...(risos)

 

Tem algumas dicas musicais para nossos leitores, algumas bandas funk obscuras?

Eu na realidade estou escutando coisas mais velhas, Eric Satie, Mozart, Miles, Cannonball Adderley... Hoje antes de você ligar estava escutando Jan Hammer em The First Seven Days, que alguém me falou no Facebook. Quanto às coisas novas? Eu não me lembro, eu escuto bastante coisa para me inspirar mas eu não me lembro, não consigo nomear as bandas agora.

 

Tem tanta coisa ruim, e difícil achar algo que você diga wow…É terrível (risos).

Eu gosto de onde  a tecnologia de gravação chegou, e eu escuto mais por causa disto. Quanto às letras, OK, talvez, mas com a emergência do estúdio digital e todo mundo gravando com iPhones e etc., as DAWs e por aí. Mas eu ouço por estas coisas e pego ideias e lugares para ir na próxima aventura.   Mas eu não me fixo nos nomes das bandas, eu ouço tudo que eu consigo ouvir e roubo as coisas! (risos)

 

Não é roubar, é lisonjear, pegar emprestado, prestar um tributo…

É isso aí, eu vou começar a usar isto! (risos)

 

Quais foram suas impressões sobre os seus primeiros shows no Brasil no Free Jazz em 1996?

É engraçado, me lembro vagamente. Lembro de ter visto meu primeiro show com a   Meshell Ndegeocello, fizemos muito shows juntos, mas para mim o máximo foi ter visto a Bjork, nunca tinha visto ela. Os nossos shows são divertidos, o que rola com a nossa banda é que não temos um set list, então você não sabe o que vai acontecer de uma noite até a próxima. Lógico que tem as músicas que você sempre toca, algumas vezes fazemos experiências, algumas vezes fazemos uma jam, e é muito divertido. Tocar música é muito divertido. Melhor que dirigir uma empilhadeira. Não fica repetitivo.

 

Na mesma noite do seu show teve o do AC/DC e todos meus amigos foram ver eles. Implorei para eles irem no seu, falei que até poderiam ver o  AC/DC em outro país e tal. “É o PFunk, vai ser um show monstro!”. No dia seguinte todos ficaram putos… (risos). "Eu avisei vocês". Foram três horas e meia daquela energia funk monstra, eu levei uma semana para me recuperar da experiência. Foi a minha experiência psicodélica mais intensa mesmo estando sóbrio…Foi transformacional, não tenho palavras para descrever. Não tenho palavras para descrever…

Você não precisa, você já descreveu. Nós fazemos isso todas as noites. Pense nisso, no que você acabou de falar. Eu me sinto igual, mas fazemos isso todas as noites, sem roteiros, sem set lists. Já tivemos set lists, mas quando entramos no palco o George tem uma forma de ler a platéia, então ele dá uma olhada e vê que alguns querem ouvir as músicas mais antigas do Funkadelic, ou o material dançante, e aí no meio ele coloca um solo de guitarra ou de metais só para misturar,  então dá naquele saco de guloseimas mescladas que você nunca se cansa.

 

 

 

 

Em quantos shows você já tocou com o PFunk? Milhares, centenas?

Não sei se milhares, diria as centenas superiores. Eu parei de contar.

 

Você foi convidado a tocar em Marte e leva nove meses para chegar lá. Fala cinco discos que você levaria para ouvir.

Isso é tão injusto!

 

OK, eu abro uma exceção, você pode levar dez.

Eu levaria dois ou três HDs com 5 GB cada porque eu tenho que ter esta quantidade de música. Eu tenho que ser capaz de selecionar o que eu quiser escutar na hora. Graças a Deus pela minha assinatura da Amazon Music eu posso escutar qualquer coisa de todo o mundo, de todos os lugares. Mas OK. Em primeiro lugar o Band of Gypsies, muito Miles, muito PFunk.

 

São as regras, a agência espacial não deixa você levar um HD.

Issó é muito hardcore! Mas vamos lá:  Band of Gypsies, Wheels of Fire, do Cream, Bitches Brew e Miles at the Fillmore, do Miles, tem muitos álbuns do PFUNK... Não consigo parar em cinco, mas tem o Dope Dogs e o Cannonball Adderley With Strings.

 

Você acredita que o rock and roll evoluiu? O rock and roll não é um conceito antigo, não deveríamos hoje estar falando em black and roll ou funk and roll?

Foi assim lá no início, quais foram os artistas que você conheceu primeiro?

 

Os padrinhos, Little Richard, Chuck Berry, Fats Domino…

Para, para!  Little Richard, Chuck Berry, Fats Domino... O rock and roll é negro. Não mudou, ele fica igual. Tudo o que eu ouço no rádio e em outros locais deriva do que era o blues, então é o mesmo. Quando ouço artistas falarem da música que eles fazem, a descrevem como derivada do blues. Independente do quão obscura a música, sempre dizem ser derivadas do blues. Sempre foi assim, Son House, Leadbelly, John Lee Hooker, foi daí que veio tudo. Até o AC/DC. Todo mundo.Os Rolling Stones...

 

Qual conselho você daria às meninas e meninos que querem entrar no funk e se tornarem músicos profissionais?

Comece, persevere e não deixe nada deter você. Siga o seu sonho e não deixe ninguém dizer nada. Minha primeira lição com a música. Nunca deixe algúém dizer que você não pode fazer. E nunca diga a você mesmo que você não consegue fazer algo com a música. Você pode. Dá trabalho. Só dá trabalho. É só isso. Qualquer coisa que você ame, só dá trabalho. Você tem que trabalhar ela. Foi o que eu fiz.

 

Em qual disco do Funkadelic você se divertiu mais na gravação e na turnê?

Dope Dogs. Você sabe que tem três versões: a versão americana, a européia e a japonesa. Todos tem a maioria das mesmas músicas, mas não todas. Eu coloquei muito a mão naquele disco. Naquela época o George me deixou entrar no estúdio e fazer o que eu queria fazer. Naquela época tínhamos gravado umas coisas durante uma estadia na casa dele, juntamos uns equipos de gravação e na privacidade de um quarto podíamos gravar o que a gente quisesse. Dope Dogs é um dos meu favoritos.

 

A faixa Dogstar/Fly On é fantástica, é muito psicodélica e está na minha playlist com mais de 3000 músicas funk. Outra faixa matadora é Fifi que também é linda, melodicamente falando.

Ah, sim!

 

Eu amo esse disco.

Obrigado! Eu também amo esse disco. Tinha me esquecido de Fifi.

 

Dogstar é um hino psicodélico…

Você sabe de onde veio, certo? Dogstar saiu num projeto tributo a Hendrix do P-Funk Guitar Army onde eu a gravei originalmente. O George ficou meio puto mas ele queria ter a faixa no álbum, então ele fez o que tinha de ser feito para adquirir os direitos e aí acabou saindo no Dope Dogs. E estou feliz com isto. O George Clinton gosta das minhas músicas.

 

Você também faz parte da Miles Electric Band. Vai rolar uma turnê?

Esta é a criança do Vince Willburn. Toquei com Miles creio que no inverno de 1986 em quatro shows por volta do Natal e ano novo.  Foi onde o conheci junto com o Bobby Irving. Eu durei quatro shows com o Miles e anos depois não sei como ele conseguiu o meu número e me chamou sobre este projeto que ele estava começando. Não sei o que está rolando agora, mas tem turnês planejadas. Ainda estamos no meio da pandemia que prendeu todo mundo. Estando esperando ver a luz no fim do túnel, o George está fazendo alguns shows.

 

Espero que o P-Funk passe pelo Brasil.

Sabe de uma coisa? Eu também. Ele fez uma turnê de aposentadoria.

 

Graças a Deus eu mudou de idéia e vai voltar no ano que vem, certo?

Como ele poderia se aposentar sem antes ter tocado no Japão, na Europa, América do Sul? Você não pode ser aposentar antes de ir nestes lugares. Ele viu o quão bom tudo estava ficando, a resposta que obteve nos shows e tal e então decidiu fazer mais uma turnê. E chamou ela de Fuck Retirement Tour. (risos)

 

Eu gosto do nome…(risos)

E é aí que ele está agora, dentre em breve!

 

Espero que seja uma turnê de despedida de mentirinha.

Todo mundo espera. As pessoas me abordam na rua quando me reconhecem e começam a chorar. "Eu entendo que o Sr.Clinton está se aposentando… Por favor, por favor…Não deixe ele se aposentar". (fazendo voz de choro)

 

Vocês não podem, não devem se aposentar nunca.

Não pretendo nunca me aposentar. A não ser que ocorra algo inesperado por mim. Fora isso, estou dentro.

 

Se e quando o parliament/Funkdelic se aposentar, e espero que isto nunca aconteça, espero que as novas gerações tomem conta e que isto se torne um movimento. Mas se acontecer, qual será o legado deixado pela banda?

Para mim o P-Funk já é um legado em si. Começando lá atrás, quando eram um grupo de Doo Wop. Desde os anos anos 60, 70, 80, 90 e até hoje o legado já foi construído e continua se reinventando. Se acabar, e não acredito que ocorra, creio que os filhos e netos já estão se preparando para continuar. Então não vai morrer. Vai crescer e ficar maior do que qualquer outra coisa musicalmente. Isto já é para mim porque quando você escuta outras bandas, muitas delas prestam tributo ao tocar algo, seja um lick, um verso ou algo que foi introduzido pelo P-Funk. Muitas bandas que eu escuto prestam um tributo ao P-Funk então isto por si só faz parte do legado. Ainda não morreu e creio que não irá. Penso que vai viver mais e mais e as pessoas vão curtir a música. O P-Funk é a hora certa.    

 

 

Para saber mais:   

Discografia sugerida

Headhunters:

Straight From The Gate

Survival Of The Fittest

 

Parliament/Funkadelic:

Dope Dogs

R&B Skeletons In The Closet

By The Way Of The Drum

Urban Dance Floor Guerillas

 

P-Funk Guitar Army:

A Tribute to Jimi Hendrix

SociaLybrium:

SociaLybrium

 

Solo:

'Bout funkin' time

 

 

Ouça o Podcast Black and Roll aqui https://open.spotify.com/show/2akI4SGZHiW4uXW2TwX0sW

 

 

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