Foto: Divulgação / Riotur | Portela no Carnaval 2025.
Por Miguel Sá e Nelson Cardoso
Investimentos pesados, extensivos testes, abertura às inovações e uma crença inabalável na busca pela perfeição: esse foi o mantra que tornou possível a transição da sonorização do Carnaval carioca da era analógica para um sistema totalmente digital.
Para compreender plenamente as dificuldades, os riscos operacionais e as possibilidades de falhas técnicas e humanas envolvidas no desfile das escolas de samba, é fundamental estabelecer um paralelo com a sonorização de grandes shows, sejam eles realizados em ambientes fechados, abertos ou em arenas.
Desde o Festival de Woodstock, a indústria global de áudio desenvolve tecnologias, produtos e sistemas voltados ao live entertainment, formando um mercado estruturado e economicamente relevante. Dentre os eventos que acontecem no âmbito desse mercado, o desfile da escola de samba na Marquês de Sapucaí apresenta um cenário de complexidade única, sem paralelo direto com outros formatos de sonorização.
Nos shows comuns, o palco é fixo, ou seja, as fontes sonoras permanecem fixas durante todo o evento. O desfile é um “palco em movimento”, onde uma bateria com cerca de 250 a 300 ritmistas, acompanhada por 5 a 10 intérpretes, percorre aproximadamente 700 metros, com o público distribuído ao longo da avenida. O objetivo técnico é que o espectador tenha a percepção de que o som da bateria e da voz da escola de samba esteja sempre à sua frente, independentemente da posição real da escola no percurso.
Carnaval 2023. Foto: Divulgação
A complexidade aumenta com a dinâmica operacional do evento: assim que uma escola encerra seu desfile, a seguinte inicia praticamente sem intervalo, com pouco tempo disponível para qualquer reconfiguração de captação ou processamento.
O desenvolvimento técnico desse espetáculo passou por diversos estágios até que, em 2001, e até 2025, a Gabisom assumiu a sonorização da Marquês de Sapucaí. O desafio era incorporar as inovações tecnológicas do áudio às especificidades da avenida.
Entre os avanços que aconteceram durante esses anos destacam-se:
● A introdução das caixas do sistema line array V-DOSC na pista, estabelecendo um novo padrão de cobertura e inteligibilidade;
● A adoção de consoles digitais de alta performance, como a Yamaha Rivage PM;
● A implementação de um sistema de delays controlado por um console digital dedicado, com processamento baseado em dados de posicionamento via sistema GPS, monitorando a bateria;
● A utilização de, no mínimo, três sistemas autônomos operando em redundância (backup), garantindo alta confiabilidade operacional.
Yamaha Rivage PM: um dos consoles digitais de alta performance. Foto: Ernani Mattos
Um ponto especialmente sensível dessas mudanças era a retirada dos carros de som do desfile. Desde quando a Gabisom assumiu a sonorização já havia a intenção de aposentar os caminhões. Em caráter experimental, sob a concordância das escolas de samba, eles chegaram a ser desligados em alguns desfiles o decorrer dos anos. Os testes demonstraram que era possível retirar os carros de som. Por conta disso, ao final dos desfiles de 2025, Peter Racy já mencionava, em matéria da Revista Backstage essa possibilidade para 2026.
Figura central desde o início da modernização do carnaval, Racy detalhou, para a Revista Backstage, as principais transformações tecnológicas implementadas ao longo das últimas duas décadas na sonorização da avenida.
Peter Racy. Foto: Ernani Mattos
Visão geral das principais evoluções tecnológicas
Carnaval 2001 | Campeã Imperatriz Leopoldinense | Primeiro ano da Gabisom no comando da sonorização | Foto: Divulgação / Acervo Liesa
“Desde que a Gabisom iniciou a sonorização dos desfiles em 2001, a principal ruptura foi a melhora gigantesca do som final que todos ouviram. Isto se deu em termos de qualidade, intensidade, cobertura e homogeneidade. A princípio, isso foi em grande parte devido à excelente sonoridade e ao alto SPL do sistema de P.A. V-DOSC. Foi uma solução inovadora: uma caixa Line-Array empregada como Point- Source. Seu desempenho agradou às escolas de samba na avenida e ao público do sambódromo.
"A TV Globo também aprovou o perfil baixo da caixa, o qual interferia menos nas imagens. Tecnicamente, o sucesso desta solução se deveu à alta concentração de componentes em uma caixa de perfil discreto, tocada por processamento digital, com presets muito bem escritos, e também por um sistema de amplificação eficiente para a época (Lab Gruppen 4800).
“No início, seguimos com a microfonação utilizada em anos anteriores, por sugestão da TV Globo, devido ao seu histórico de suportar o intenso regime de trabalho. Uma grande inovação foi no sistema de transmissão desses microfones até o carro de som, quando, pela primeira vez, foi utilizado um sistema de transmissão por RF de alta potência, através do sistema LectroSonics, com 250 mW em cada transmissor.
“Nos bastidores, os sistemas seguiam os padrões da década, com controle, distribuição e transmissão de sinal 100% analógicos. Já no primeiro ano da Gabisom, empregamos um console digital para programar e controlar os delays, aquela tarefa complexa de manter o tempo das caixas da avenida sincronizado com a posição da bateria. No primeiro ano, se não me falha a memória, foi utilizado uma console Amek Recall analógica para mixar as escolas. Os carros de som também utilizaram consoles Ramsa analógicas.
"Ao longo dos anos em que a Gabisom atuou no Carnaval do Rio de Janeiro, apesar da constante melhora na confiabilidade e no desempenho das consoles digitais, a quantidade de inputs utilizados não sofreu grande mudança. Sempre esteve em torno de 24 canais. A quantidade de saídas para os racks e caixas também mudou pouco e sempre ficou em torno de 40 saídas. Houve mais saídas adicionadas para comunicação e casos particulares em função da conveniência disponível nas consoles.
"Em termos de marcas e sistemas, houve duas que dominaram: consoles DiGiCo e consoles Yamaha. As DiGiCo foram empregadas na época em que utilizávamos o anel de fibra Optocore destas para a transmissão do sinal de áudio às salas de rack. Com a adoção do sistema Dante, a linha Yamaha adequou-se melhor e passou a figurar em todas as posições. A transição do ambiente analógico para o digital no carnaval”.
Caixas de delay na concentração do carnaval 2001 | Ampliação e restauração de imagem por inteligência artificial
“É interessante salientar que a console que gerenciava os delays, com exceção de um ano em que foi usada uma SSL, foi sempre Yamaha, começando pela PM-1D usada por cerca de 10 anos, seguida pela PM-10 que nos trouxe aos dias de hoje. A escolha da PM1D inicialmente foi devida à sua grande quantidade de saídas como também à sua programabilidade, o que fez com que ela coubesse como uma luva para esta função.
"A PM-10 seguiu o caminho de sua antecessora, adicionando conectividade DANTE o que proporcionou uma praticidade, confiabilidade e interconectividade além do imaginado. Agora todas as consoles estavam conectadas à mesma rede, bem como a todas as salas de racks. Esta unificação trouxe praticidade e confiabilidade ao sistema, mas claro que também um grau de complexidade que não havia antes”.
Redundância (O show deve continuar)
“A chegada das redes de áudio digital (Dante, AES67, AVB) modificou o roteamento, a redundância e a escalabilidade do sistema do desfile. As redes de áudio digitais (Dante, AVB) apresentam redundância própria, caracterizada por redes primárias e secundárias e também pelo anel bidirecional de fibra, onde uma interrupção em uma perna direcionaria o tráfego no sentido contrário, mantendo a conexão. Contudo, nunca deixamos de manter os velhos e bons sinais analógicos passados e testados entre salas e também na avenida, entre o carro de som e a central, como stand-by.
Valtinho Silva: delay e distribuição
“Não menos importante foi o advento de amplificadores digitais, com alta potência, baixo consumo e maior densidade de canais por aparelho, além de controle digital à distância, com os geradores trabalhando em paralelo, com reversão automática entre Rede e Geração. Na transmissão crítica de instrumentos e vozes à console de mixagem na central, hoje há três caminhos: multicabo RF, fibra óptica (stand-by 1) e multicabo analógico (stand-by 2).
"Resumindo, entregamos a sonorização no último ano com consoles digitais com recall e automação, redes de áudio digitais redundantes trafegando sobre fibra óptica e tecnologia de switches de rede com desempenho e largura de banda superiores, permitindo o compartilhamento de redes diferentes sobre o mesmo meio. Construímos também sistemas de RF digitais que permitem a operação mesmo em ambientes difíceis"
A transição do ambiente analógico para o digital no carnaval
“Com o inevitável progresso da tecnologia, todos os consoles passaram a ser digitais, tanto na mixagem como no carro de som. O total recall das digitais foi muito útil para gravar cenas de cada escola durante os ensaios e dispará-las durante os desfiles. Por diversos anos, procuramos formas de controlar e monitorar remotamente os equipamentos nas salas de rack ao longo da avenida. A distância entre as salas era enorme, e o acesso ficava ainda pior em dias de desfile, quando o sambódromo estava cheio. Era difícil saber o que se passava em uma sala localizada em outro setor.
"O Wi-Fi foi uma das primeiras tentativas, mas, na época, era lento, limitado e instável. Com o advento das redes digitais de áudio, abria-se um novo potencial para isso, mas, ainda sem um histórico confiável, evitamos adotar no início. A princípio, em caráter de teste, adicionamos fibra óptica à transmissão entre o carro de som e a central de mixagem, mas com o cuidado de manter o velho e bom multicabo analógico como titular.
“No primeiro ano em que implementamos a distribuição e transmissão de sinal digital entre a central e as salas de racks, utilizamos um sistema já bem conhecido e testado por nós: o anel de fibra Optocore embarcado nos racks e consoles DiGiCo. Muito estável e confiável, foi uma ótima solução. O áudio, agora em forma digital, era distribuído e transmitido limpo, sem os tradicionais ruídos e maus contatos do ambiente analógico. A melhora na qualidade da reprodução foi instantânea e massiva.
"Os relatos de ruídos e falhas pontuais na reprodução praticamente zeraram. Contudo, ainda não era possível monitorar ou controlar os equipamentos distantes. Com o aumento da confiabilidade dos sistemas de áudio em rede digital, e já com um histórico bem definido, começamos a trafegar o áudio sobre rede IP usando o protocolo Dante. Como a distância entre os pontos a serem interconectados era superior aos 100 m permitidos para conexões LAN, a nossa rede trafegava sobre fibra óptica.
"Neste primeiro momento, o áudio trafegava em uma fibra, enquanto o controle e o monitoramento trafegavam por outra rede, em outra fibra separada. Depois, com switches Ethernet de alto desempenho para gerenciar as redes, já era possível utilizar VLANs independentes dentro do mesmo switch, permitindo que o áudio digital e o controle e monitoramento trafegassem sobre a mesma fibra. A nossa vida melhorou muito”.
Criação e adaptação de tecnologias às condições do desfile das escolas de samba
“Foram desenvolvidas diversas soluções, adaptando a tecnologia e os materiais disponíveis.
“Nos primórdios, empregamos um kit de body-packs de 250 mW para transmitir a mix direto da mesa do carro de som para a central, como backup.
“Foram desenvolvidas peças específicas para adaptar as caixas de som às torres de som.
“A rede Optocore nos consoles DiGiCo e SD Racks foi usada para distribuir sinais digitalmente entre a central e as salas de rack ao longo da avenida. Também foi montado um cabeamento especial, de bitola larga, para as caixas, devido às grandes distâncias (100 metros ou mais) que precisavam ser percorridas entre as salas de rack e as caixas.
“Nos últimos anos. fizemos um sistema de RF usando equipamentos existentes no mercado para formar o ‘multicabo RF’. Isso aposentou o multicabo analógico, e até a fibra óptica acabou ficando como reserva.
A questão da Fase
“Fase é um assunto complicado no carnaval. Num evento normal, teríamos um grande conjunto de caixas (PA) produzindo alto SPL à distância, com boa coerência de fase, em função da proximidade e do alinhamento entre as fontes sonoras. No carnaval, pela natureza singular do evento, os grandes PAs acabaram sendo fragmentados em 74 torres ao longo do percurso.
“Dessa forma, cada torre de som já exibia uma resposta de fase complexa por conta do posicionamento e da orientação dos diversos sistemas montados em cada estrutura. Os efeitos de pontos vizinhos, bem como das torres do lado oposto, somavam-se a esse cenário. Felizmente, pudemos trabalhar isso de modo que, ao caminhar a avenida de ponta a ponta, o que fazíamos com frequência, era notável a estabilidade do volume e do timbre. Mesmo em movimento, com passada larga, não se ouvia comb-filter”.
Relação entre sonorização e transmissão de TV
“Por diversos anos a entrega do áudio para a televisão foi analógica, sendo através de splitters. Enviávamos os sinais dos microfones separados à TV, bem como sinais já mixados dos grupos de Bateria, Harmonia e Voz, assim como a mixagem completa. É interessante lembrar que durante os primeiros anos em que atuamos no carnaval, a TV Globo vinha utilizando um sistema de transmissão via micro-ondas, conhecido como Mosley. A mixagem feita no carro de som, era transmitida por um canhão de micro-ondas localizado em cima do carro de som que mirava numa antena receptora no final da Avenida. Este sinal era o stand-by do stand-by caso houvesse uma contingência adicional para superar eventuais falhas na transmissão.
"Com o passar dos anos, o Mosley foi abandonado, assim como o splitter analógico. Passamos a entregar o sinal em rede DANTE, com redundância, o que facilitou a vida de todos e proveu uma melhora quântica no áudio que a TV recebia”.
Evoluções no delay
“O sistema de telemetria que transmite a posição do carro de som para a central de delays teve algumas atualizações na forma como este sinal foi transmitido, porém o sistema em si, que era simples, prático e elegante, mudou pouco.
Gabisom colocou V-Dosc na Avenida
“Nos primeiros anos a transmissão destes dados desde o carro de som até a central, era feita através da rede de telefonia Nextel. Funcionava, mas com ressalvas, pois era frequente acontecia a perda do sinal devido ao ambiente de RF muito denso e imprevisível na avenida.
"Passamos a utilizar o multicabo analógico para transmitir os dados de telemetria, mas como era necessário fazer a troca de multicabo durante a progressão do desfile, perdia-se a conexão neste momento. Quando a fibra ótica substituiu o multi analógico, tentamos passar a telemetria pela fibra, mas aconteciam as mesmas falhas na conexão durante as trocas de fibras.
Inovação na Sapucaí: elementos de line array empregados como point source
“Surpreendentemente, com o desenvolvimento do multicabo RF, houve mais estabilidade e as quedas de sinal foram menos frequentes, mas ainda ficamos reféns da qualidade do ambiente de RF na avenida que nunca foi regulamentada adequadamente”.
Uso do RF e desenvolvimento tecnologico: lá vem a I.A.
“De fato, o ambiente de RF da avenida é muito desafiador. Durante a montagem e os testes, temos um cenário relativamente estável. Contudo, com o início dos desfiles, o ar acaba sendo invadido por incontáveis frequências adicionais, entre serviços de segurança, emergência e inúmeros serviços internos do próprio Sambódromo.
“Além disso, há o crescimento dos grandes camarotes, com shows de artistas famosos, que utilizam frequências sem coordenação alguma. Vale destacar ainda o encolhimento do número de frequências disponíveis ao mundo do áudio devido à chegada da TV digital, que mordeu uma grande fatia do nosso espectro.
“A complexidade cresceu muito e, como não poderia deixar de ser, a curva de aprendizado ficou mais acentuada. Tudo ficou menor e mais leve do que era. Veja os cabos de sinal, por exemplo: multicabos de 56 vias por 100 m pesavam cerca de 500 kg, enquanto uma fibra óptica com o triplo da extensão não passa de 50 kg. Amplificadores ficaram mais leves e compactos, com mais potência, mais canais de saída e controláveis à distância. Os consoles digitais ficaram com menos da metade do peso e com mais do que o dobro de canais e funções.
“Eu não gostaria nem um pouco de voltar ao modo como trabalhávamos no início de tudo. Era muito mais trabalhoso, ineficiente e incerto. Saímos de simples conexões de in e out analógicas para o gerenciamento de múltiplos IPs e VLANs.
\ Mangueira no Carnaval 2025
“Com os sistemas digitais, a coisa melhorou bastante, a ponto de ser possível montarmos o tão sonhado ‘multicabo de RF’. Ainda faltam regulamentação e ordenamento no uso do espectro durante o desfile para que haja segurança no emprego dele como solução, mas já é possível vislumbrar um futuro mais estável.
“Conforme a tecnologia progride, ela se retroalimenta e acaba crescendo num ritmo alucinante. Não é mais possível relaxar achando que já se sabe alguma coisa. As coisas mudam muito rápido e continuarão a acelerar. A própria IA deve ajudar num primeiro momento, com seu poder de fazer muitas coisas em pouco tempo e com máxima eficiência. Contudo, esse avanço também torna mais difícil manter-se atualizado e relevante.
“No meu caso particular, sou formado em áudio, mas hoje utilizo mais conhecimentos primários de TI adquiridos aqui e ali ao longo do tempo. Na minha opinião, hoje os conhecimentos de áudio têm a mesma importância que conhecimentos digitais e de TI. Fica claro que precisamos dominar as duas áreas para trabalhar com áudio. Não sou um visionário, porém é fácil prever que a IA entrará com tudo este ano em todos os setores da nossa vida.
“O escopo para a IA no carnaval é imenso, desde coordenação de RF, monitoramento de sinais, controle do tráfego de dados e áudio sobre redes e, provavelmente, até a mixagem propriamente dita. Com certeza, ela não irá passar cabos ou montar caixas, nem interligar tudo. Este já é o campo da robótica, que virá logo em seguida à consolidação da IA. Provavelmente eu não irei testemunhar este fato, mas com a velocidade em que as coisas andam hoje, quem saberia dizer?”
Por Miguel Sá
Engenheiro de áudio com mais de três décadas de atuação em transmissões ao vivo, Carlos Ronconi esteve à frente da evolução tecnológica do som do Carnaval na TV Globo entre 1988 e 2019. Nesse período, participou da transição do sistema analógico e das conexões manuais de delay para operações com fibra óptica, transmissão remota e outras experiências pioneiras. Após se aposentar da Globo, seguiu atuando em projetos ligados à Dolby e realiza transmissões para a TV Cultura. No depoimento, Ronconi revisita, com detalhes técnicos, as transformações do áudio do Carnaval nas últimas décadas.
Evolução do áudio da transmissão
“A minha primeira tarefa quando entrei na Globo, em fevereiro de 88, foi o desfile. Meu chefe falou: “E aí, tudo bem? Já fez o exame? Já tá tudo OK? Já tá contratado? Então vai para a Avenida” (risos). Aí eu fiquei até sair da TV Globo em 2019.
“A captação das escolas era uma coisa muito simples, porque o som na avenida era basicamente a voz. O público ouvia primeiro a voz do puxador, depois a harmonia e mais tarde a bateria. Era uma coisa muito estranha, mas é o que tinha naquela época. Começamos então a criar uma certa evolução no sistema. A primeira coisa que fizemos foi a captação (da bateria) das escolas.
“No começo, dividíamos a transmissão com a Manchete. A Globo cuidava da imagem, a Manchete cuidava da captação do som, e havia dois operadores de microfone de cada lado da avenida com um cabo. Eles vinham acompanhando a bateria até certo ponto. Aí eles encontravam com os outros dois que seguiam dali por diante, porque não dá para você puxar um cabo de microfone em grandes distâncias.
“Do segundo recuo para frente não tinha mais a captação da bateria. Então, quando estávamos para chegar nele, começávamos a gravar. Antes da saída da bateria do segundo recuo parávamos de gravar, voltávamos a fita com a gravação até a paradinha da bateria. Quando ela dava a paradinha novamente na avenida, soltávamos a gravação e aí não tinha mais captação: era o som da fita (na transmissão da TV) até o final. A bateria saía, ia embora do recuo, e a fita ficava rodando.
“No carnaval, você está com as câmeras captando em lugares diferentes. A não ser no ponto zero, que é o ponto do recuo, no resto você não tem muito sincronismo (entre áudio e imagem). Também não tem muito close. É muito plano geral, muita alegoria. Então, facilitava para a gente não precisar ter esse sincronismo todo entre som e imagem.
“Depois começamos a pegar um mix da bateria com um equipamento da Sony chamado PCM F1, que era um dos primeiros conversores digitais de PCM. Isso no começo dos anos 1990. A Sony não tinha trazido para o Brasil ainda. Eles trouxeram para testarmos, e a primeira vez que eu usei foi no carnaval. Até então, a TV era totalmente em mono. Ela só foi ser estéreo em 93, 94. Não tenho certeza exatamente, mas foi nessa época que começamos a transmitir com esse PCM F1, que é um sinal que codificava o áudio digitalmente num canal de vídeo.
Carnaval 2009. Foto: Divulgação / Riotur
“Colocávamos bateria e voz no canal digital e a harmonia no canal analógico de um transmissor. Esse transmissor ficava dentro do carro de som que transmitia para uma antena que ficava lá na unidade móvel. Recebíamos o sinal e decodificávamos. Então, conseguimos fazer uma transmissão remota. Mesmo assim, ainda tínhamos o cabo como segurança, porque ele era usado pela sonorização da avenida e o sistema de transmissão PCM servia para a TV como base. Mas a gente tinha sempre um backup caso houvesse algum problema de RF.
“Mais tarde, evoluímos para um sistema de Link Studio, transmissor, que era muito usado para a televisão, que normalmente era em um lugar bem distante. No Rio de Janeiro, por exemplo, você tinha o transmissor lá em cima do morro do Sumaré. Então, essa conexão antigamente era feita via RF. O que fizemos? Alugamos quatro desses transmissores, abrimos para eles passarem com mais banda de áudio e, em cada transmissor desses, conseguimos colocar quatro canais de transmissão. Então, havia 16 canais vindo da Avenida para o Sumaré. Tínhamos bateria, percussão e harmonia separados.
“Nessa época já havia conseguido mais canais de bateria na captação, porque com a recepção sem fio no caminhão dava mais possibilidades. Então, se não me engano, eram 10 canais de bateria, mais dois de voz, mixado, e dois de harmonia. Andamos com isso um certo tempo, só que isso exigia uma certa operação em cima do caminhão. Era necessário ficar apontando a antena do caminhão lá para o morro. De lá, descíamos o sinal já dividido para a gente.
“Antes da Gabisom, nós (da Globo) desenvolvemos também, junto com a Transasom, uma forma de controlar os delays através do GPS, no qual tinha um GPS dentro de cada carro que mandava a posição dele na Avenida para a central técnica da sonorização. Pegávamos o sinal também para podermos acertar os delays e os nossos microfones de acordo com o ponto de captação. Então, conseguíamos casar os ambientes todos com a escola através da posição do delay. O carro ia andando, notificando a posição e acertando os delays das caixas para dar o mesmo tempo de acordo com a posição do carro. Tinha delay para frente e delay para trás.
“Quando a Gabisom assumiu a sonorização, pegou também essa coisa do GPS. Como primeiro backup, tínhamos a contagem de quilômetros do carro. O segundo backup era um cara na cabine dizendo em qual torre o carro estava. Se falhasse todo o sistema, ele falava: ‘eu tô na torre’. O cara já preparava o delay da torre 3 e assim por diante. Com o passar do tempo, isso começou a ser mais automatizado.
“Sempre a Globo teve uma parceria muito boa com a Gabisom com relação à captação. Começamos a dividir a captação com eles. Depois, a Gabisom começou a assumir, mas a coordenação sempre foi nossa. Sempre tinha alguém da Globo coordenando as equipes de captação.
Unidos da Tijuca no Carnaval 2010. Foto: divulgação / Acervo LIESA.
“Depois de um tempo, a Gabisom resolveu investir em fibra óptica. Eles começaram a ter um multicabo como primeiro backup, mas a fibra era o principal. Aí abandonamos toda a parte de RF, porque a fibra era muito mais confiável e acabamos dividindo essa operação com eles, que recebiam o sinal via fibra numa mesa onde era feita a comutação (alternância entre os sinais dos cabos da primeira e da segunda parte da avenida).
“O segundo backup era sempre um microfone apontado para uma caixa qualquer na avenida. Tínhamos esse aí só para não ficar sem nada mesmo (caso houvesse algum problema). A próxima evolução foi obtermos nossa própria unidade móvel. Teve um ano em que houve problemas com a unidade móvel que contratamos. Então, partimos para a nossa própria unidade móvel de áudio. Isso em 2010.
Microfones preparados para captar a bateria
“Logo depois dos anos de 2016 e 17, a Gabisom começou a trabalhar com um RF (o ‘multicabo RF’), o que foi um ganho muito grande. Eles começaram a colocar os receptores digitais. Nesse momento já se recebia todos os sinais digitais, a Gabisom fez um investimento muito alto nisso. Para nós ficou muito bom, porque a qualidade do áudio melhorou bastante. Também aumentamos o número de microfones na avenida, com 16 na bateria, mais oito puxadores e quatro de harmonia, então tinha bastante canal vindo”.
Experiências
“Em 2017, fizemos a primeira experiência de transmissão em Dolby Digital, que foi só uma coisa interna, mas que resultou na primeira mixagem remota do carnaval. Nossa unidade móvel estava na avenida ainda, então a gente pegou o sinal da UM, entrou via um conversor Dante numa fibra corporativa, que levava tudo da Avenida para o Projac (complexo de estúdios da TV Globo em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro).
“Entramos com o sinal já convertido para Dante numa sala de mixagem dentro do Projac, que tinha infraestrutura pronta para 5.1. Fizemos uma pequena conversão para ter Dolby Atmos e testamos mixagem remota com o sinal vindo da Avenida até o Projac. Ou seja, recebemos 40 canais no Projac da Marquês de Sapucaí e mixamos. Fizemos um teste de devolução também para ver latência. Vimos que dava menos de um frame.
Mocidade Independente de Padre Miguel no Carnaval 2017. Foto: Divulgação / Riotur.
“Poderíamos ter colocado esse sinal no ar tranquilo. Mas, como era uma experiência, não queríamos compromisso nenhum com o que estava indo ao ar, porque a ideia era experimentar mexer, testar, tirar de um lugar, botar no outro, usar, testar todas as opções que o Dolby Atmos dava para a gente.
“Fizemos uma experiência muito interessante, mixando como se a pessoa estivesse dentro da bateria. Você tinha a bateria toda em volta, mixada em 5.1, mais os dois canais de cima, onde você tinha um puxador em cada caixa. Nos canais superiores, colocamos os comentaristas como se fosse alguém falando com você de outro ponto”.
Captação do público
“Ao longo desse período, para a transmissão, tínhamos um negócio que era complicado: captar o público. O público não canta, porque a maioria são turistas que vêm de fora, então eles não sabem samba. O único lugar que canta o samba é o setor 1, liberado para as escolas.
“É muito complicado porque, quando a bateria começa a se afastar muito do setor 1, o delay começa a ficar muito grande. Então, o que começamos a fazer? A gente comprava… sei lá… 100, 150 ingressos ali no setor 4, que é bem em frente à bateria, e distribuía esses ingressos nas comunidades com a condição do cara ir lá para cantar. Então, colocávamos os microfones em volta daquela turminha que estava lá.
“Quando trazíamos o som do ambiente, abríamos esses microfones com o público cantando, mas quando passava a escola da pessoa ela ia embora. Depois da a última, ficavam uns gatos pingados. Era até coerente com a dinâmica do público do desfile, mas ficava chato, porque às vezes a escola estava levantando arquibancada, mas você tinha muito pouca resposta de som.
“Então tive uma ideia. Perguntei ao técnico de som que fazia a gravação do CD do carnaval, o Mario Jorge, como estavam gravando o público. Eles levavam um coro da escola pra gravar lá no estúdio. O que fizemos? Pegamos só o áudio do povo cantando e um produtor amigo nosso, Jorge Fonseca, que era também DJ, usava o Ableton Live para sincronizar esse áudio. Então, quando a gente precisava do povo cantando na avenida, colocava o áudio gravado totalmente sincronizado. Era só para transmissão. Não sei se ainda acontece, porque já estou afastado há algum tempo”.
Para o espectador de TV
“Eu acho que do outro lado, que é o lado do público, também evoluíram as televisões. Elas foram para formato digital, melhorou a qualidade de som e melhorou a qualidade da rercepção. Apesar de terem diminuído as caixas acústicas das TVs, se consegue manter um som bom nelas. Acho que o Dolby Atmos trouxe um ganho grande para quem gosta. É claro que não é para todo mundo. Nem todo mundo tem possibilidade de colocar isso em casa, de ter um soundbar.
Na TV, Viradouro no Carnaval 2025. Foto: Divulgação / Riotur.
“Uma coisa que me incomoda até hoje no carnaval são os narradores, que não param de falar. Podia ouvir mais o samba. Fica numa fronteira entre espetáculo musical e um audiovisual mais voltado para o visual e o jornalístico, uma fronteira muito específica do evento carnaval”.