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#TBT Backstage Milton Nascimento

21/05/2020 - 17:16h
Atualizado em 21/05/2020 - 19:43h

Em setembro de 2010, na edição 190, a Revista Backstage cobria a gravação e mixagem do novo álbum de Milton Nascimento que seria lançado naquele ano. O cantor e compositor apresentava o pessoal de Três Pontas, sua cidade natal, para o mundo, e deu também uma entrevista exclusiva para a Revista Backstage.

 

Miguel Sá
redacao@backstage.com.br
Fotos: Ernani Matos / divulgação

 

Milton Nascimento revela jovens músicos da cidade mineira em seu novo disco, ‘E a gente sonhando’

 

No início dos anos 1990 foi lançado o The Billboard book of brazilian music: samba, bossa nova and the popular sounds of Brazil, no qual Chris McGowan e Ricardo Pessanha percorreram as principais capitais brasileiras mostrando a música de cada lugar. Alguns anos depois o livro foi parar nas mãos de Milton Nascimento. Quando chegou à página que tinha Belo Horizonte, Milton viu no mapa algo que o impressionou: um traço indicando a estrada que vai de Belo Horizonte a Três Pontas, a única cidade que não era capital presente no livro. O motivo da exceção é que ele e Wagner Tiso são de lá.

 

 

Milton ficou tão espantado com o que viu que resolveu saber o que andava acontecendo com a música da cidade em que foi criado. “Comecei a conversar com o Marco Elizeo, que co-produziu o disco comigo, e falei: ‘Tá brabo! Como vamos fazer para botar o negócio que esses caras falam de Três Pontas?!’”. A resposta foi um jantar para 30 pessoas em um bar de Três Pontas com boa parte da cena musical da cidade. Entre comes e bebes, Milton pôde ver como andavam os músicos de lá. Este foi o primeiro de vários eventos até que o compositor pudesse conhecer os talentos musicais locais. Ninguém sabia, mas o projeto de gravar um disco com eles já estava amadurecendo. 

 

 

O primeiro teste aconteceu em uma homenagem prestada por Milton. Na turnê que gerou o DVD Pietá, o show na Espanha foi cancelado por causa do atentado que abalou Madri em 11 de março de 2004. Com isto, o cantor ficou em Roma, onde havia feito uma apresentação. Lá, assistiu ao show de Lenine, que o emocionou com um discurso em sua homenagem.

 

“Quando alguém me dá uma coisa emocionante, tenho que retribuir. E, geralmente, é com o que mais está me emocionando no momento. O que estava me emocionando era o pessoal de Três Pontas”, recorda o compositor.

 

A revanche de Milton foi uma faixa bônus no DVD Pietá com a música Paciência, de Lenine, tocada pelo pessoal de Três Pontas e gravada no estúdio de Milton. Foram 30 músicos de lá tocando violão e cantando, além dos que tocavam bateria, baixo e piano. Ainda não era o momento de fazer o disco com o pessoal de Três Pontas, mas a faixa foi a primeira feita com os músicos da cidade mineira.


A última peça do quebra-cabeça do disco se juntou quando Milton recebeu uma homenagem da cidade em que foi criado, quando ouviu o cantor Bruno Cabral tocando na banda do afilhado Pedro. “Eles começaram a tocar bonito pra caramba, aí o rapaz apareceu cantando. Falei: ‘Não acredito no que estou ouvindo’. Há duas músicas que fiz quando morava em Belo Horizonte, no escritório de contabilidade em que trabalhava. Uma foi Canção do sal e a outra foi E a gente sonhando, que eu nunca tinha gravado. Aí falei: ‘Vou gravar esta com o Bruno’. E a música acabou batizando o disco!”.

 


GRAVAÇÕES
Duas cidades, gravações em quatro estúdios e um teatro, coro com quase 30 pessoas e vários músicos. Este foi o desafio encarado por Ronaldo Lima, técnico de som de Milton Nascimento e co-produtor de E a gente sonhando. Um desafio que durou exatamente um ano, desde as primeiras gravações, em junho de 2009, até a finalização, em julho de 2010.

 

 

Ronaldo já está acostumado a gravar em locais diferentes. Nos sete anos em que trabalha com Milton, ele já gravou a voz do cantor nas mais diversas condições. “Dia sim, dia não, o Milton tem algum trabalho. Em 2008, ele gravou 83 músicas. Estou muito colado com ele na parte das gravações, todas as que ele faz passam por mim. Lá fora, o pessoal o idolatra, e como ele é generoso em fazer participações, fica um volume de trabalho grande”, conta Ronaldo. Há cerca de dois anos, Milton começou a falar com Ronaldo sobre o projeto de gravar com os músicos de Três Pontas. Naquela época, os dois começaram a procurar locais para gravar na cidade. Quando constataram que não havia um estúdio por lá, resolveram alugar o teatro. Nele, foram gravados o coro com quase 30 pessoas, presente em sete das 16 músicas do disco, e quase todas as baterias. As exceções foram as quatro faixas registradas no estúdio Bemol, em Belo Horizonte, tocadas por Lincoln Cheib, da banda regular de Milton. Ele e Ricardo Cheib também gravaram percussões lá.

 

Os violões foram captados no estúdio Casa do Mato, do qual Ronaldo Lima é um dos sócios. Já o registro dos pianos tocados por Wagner Tiso se deu no Madre Música, no Rio de Janeiro. Muitos instrumentos, inclusive a voz de Milton, foram gravados também no Bituca Estúdio, que fica na casa do compositor.

 


PADRÃO SONORO


Para não perder o rumo com gravações feitas em locais diferentes é necessário manter um padrão de equipamento. Por isso, em todos os lugares em que gravou, Ronaldo Lima levou seu Pro Tools HD3, os conversores Apogee Rosetta 800 e 200, e os pré-amplificadores Vintech Audio 473, Universal Audio 6176, 610 e ATI 8mx2, além de compressores Avalon AD 2022 e VT 737. O técnico também deu importância especial à monitoração. Ele levou suas Genelec 1030 a todos os locais de gravação para ter uma referência consistente. Por conta da variedade de estúdios, Ronaldo procurou não mexer muito no som dos takes. “Tentei sempre manter equalização flat, para não ter que puxar alguma coisa (na mixagem)”, explica Ronaldo. O estágio da conversão é muito importante em gravações digitais. Por isto, o técnico de som investiu pesado nesta parte. O Apogee Rosetta 800, por exemplo, é um conversor A/D com oito canais que Ronaldo prefere usar em vez do conversor do Pro Tools. Já na hora de dar o play, a atenção recai para pré-amplificadores e microfones. “Gravamos todas as baterias com um pré-amplificador ATI 8mx2”, revela o engenheiro. Outros prés usados foram o Vintech Audio 473, para vozes, guitarras e violão; e Universal Audio 610, para guitarra e baixo. Na voz de Milton, Ronaldo gosta de usar o Universal Audio 6176, que costuma levar também nos shows. “Ele tem um pouco mais de médio grave, encorpa um pouco a voz do Milton. Sempre viaja comigo. Não é um pré bom para colocar na estrada, porque é valvulado e não tão robusto quanto o Avalon, que todo muito usa, mas geralmente viajo com ele”, admite.

 


O microfone certo para cada voz

 

É claro que a voz de Milton Nascimento merece atenção especial. Boa parte do material do disco foi gravada no estúdio que fica na casa do cantor, a maioria com o Neumann U87. “Houve duas ou três músicas em que optei por um microfone diferente, que quase não é usado, o K2, da Rode, um modelo australiano com o qual fiz uma experiência”, ilustra.

 

 

O técnico também experimentou o Neumann U47 na voz. Estes dois últimos foram usados quando Milton cantava em regiões mais médio-graves. O U87 era usado nas faixas em que o cantor usava regiões mais altas da voz.

 

 

Na bateria, Ronaldo usou o Sennheiser MD421 para os tons, o SM 57A na caixa e o Sennheiser MD441 na esteira. Este último, particularmente, é uma preferência bastante pessoal do engenheiro. Segundo ele, o microfone aguenta bem a pressão sonora, além de deixar o timbre a seu gosto, o que o faz usar pouco o equalizador e outros processamentos.

 

Quando a caixa foi tocada com vassourinha, Ronaldo usou um AKG C-414, que também foi empregado no contratempo. Para os pianos gravados no Madre Música, foram escolhidos um Earthworks, posicionado acima da cabeça de Wagner Tiso; um KM-184, para as teclas da região mais aguda; e o U-87, para a região mais grave.

 

 

Ronaldo Lima ainda teve dois trunfos importantes na gravação: o AudioTechnica AE 2500 e o Royer 121. O primeiro é um microfone com cápsula dupla – uma dinâmica e outra condensadora –, que Ronaldo gosta de usar para gravar bumbo. “Há 25 anos uso dois microfones no bumbo, porque faço uma compressão mais rápida para o Quick. A vantagem é que, com o AE 2500, não corro o risco de ter problemas de fase como os que posso ter com dois microfones, porque ele já vem com isto ajustado”, justifica.

 

Já o Royer R-121, segundo Ronaldo Lima, apesar de ser um microfone de fita, suporta mais pressão sonora que outros similares sem saturar o som. Por isto – e também por causa da amaciada que este microfone confere ao ataque dos instrumentos – ele o utilizou nas gravações de sopros e no over dos pratos da bateria. Também como over na bateria e na captação de ambiente do teatro, foram usados os Schoeps CMC-641S de Dominique Chalhoud. “As coisas gravadas no teatro, em Três Pontas, ficaram ótimas. Em todos os coros usei a ambiência da sala”, comemora.

 


 

MIxagem privilegiou ajustes de timbres

 

 

Em um disco gravado em muitos locais diferentes, a mixagem pode ser a hora da verdade. O uso de equipamentos conhecidos e a monitoração uniforme de toda a produção deram bons frutos, segundo a avaliação de Ronaldo Lima. Quando ele abriu as sessões para mixar na Casa do Mato, se surpreendeu com o resultado. “Eu achava que ia ter mais trabalho para montar esta colcha de retalhos, mas como a gente usou a mesma monitoração, simplificou bastante”, reconhece.

 

A monitoração usada por Ronaldo em seu estúdio é composta por caixas digitais Dynaudio Air 20 e BM15, que permitem um alinhamento mais preciso em relação àsala que as analógicas, além de significar menos uma conversão D/A no processo. As Genelec 1030 também estavam na sala ajudando a emprestar os timbres dos muitos estúdios e do teatro.

 

Como a concepção sonora do disco era manter o som acústico original, sem muitos processamentos, o trabalho na mixagem foi mesmo o de fazer alguns ajustes de timbres e providenciar o equilíbrio entre os instrumentos. No mais, Ronaldo só não pode deixar de colocar o som das montanhas na voz de Milton Nascimento. “Os técnicos de som de Minas comentam comigo que qualquer efeito que você use na voz do Milton fica bonito. Pode ser de US$ 10 mil ou de US$ 100. O reverb navoz é muito importante  para ele. Quando começou a cantar, em Três Pontas, o Milton ouvia esse eco nas montanhas e, até hoje, quando vai gravar voz, ele fala: ‘Quero as montanhas aqui no meu fone’”.

 

 


 

 

Durante as sessões de ‘E a gente sonhando’, Milton Nascimento recebeu a ‘Backstage’ em sua casa, no Rio, e falou sobre a carreira e as gravações do disco

 

Amúsica de Milton Nascimento não tem fronteiras geográficas ou de gênero. Ele foi o primeiro músico brasileiro pós-bossa nova a fazer sucesso fora do país. Milton fez discos antológicos nos Estados Unidos, como o primeiro, Courage, gravado em 1968, com produção de Eumir Deodato. O álbum teve a participação de músicos como Herbie Hancock e o Native Dance, com o saxofonista Wayne Shorter, e consolidou  a posição do compositor brasileiro na música do mundo.

 

 

Milton também é um artista aglutinador, que gosta de trabalhar em grupo e descobrir talentos. Desde Clube da esquinadividido com Lô Borges, e no qual tocaram o guitarrista Toninho Horta e Beto Guedes, ele sempre traz novos nomes para a MPB. Depois do Clube da esquina 2, Milton ainda considera os discos Angelus – com músicos como Pat Metheny e Peter Gabriel – e Pietá como exemplares do gênero, com os amigos do mundo e as mulheres, respectivamente. Agora é a vez de uma espécie de Clube de esquina de Três Pontas, com o álbum E a gente sonhando, sobre o qual Milton Nascimento fala na entrevista a seguir.

 

Revista Backstage – Existe uma tradição sua de descobrir talentos...
Milton Nascimento – Graças a Deus, isso acontece mesmo comigo. Uma das coisas que me alimenta é sempre procurar e achar gente nova. Aí eu não deixo ficar longe não, trago logo para a turma.

 

RB - Este disco está sendo lançado pelo seu selo. É melhor trabalhar assim do que com uma gravadora? Ou é mais difícil cuidar diretamente dos negócios?
MN - Eu fundei este selo porque não interessava às gravadoras as trilhas que eu fazia para balé, cinema e teatro. Eu adoro fazer trilha. Então decidi criar um selo para soltar só as minhas coisas. Mas aí você conhece um, conhece outro e não tem jeito. Só não vou virar gravadora, mas eu tenho que dar um empurrão nestas pessoas. Neste ponto está melhor, só que é meio difícil juntar tudo, grana etc. Mas a gente não pensa muito. Seja o que Deus quiser.


RB - Você é muito respeitado por músicos do mundo inteiro. Como construiu esta relação?
MN - O negócio é que eu sou um músico, antes de tudo. Comecei com uma sanfoninha de quatro baixos, acompanhando minha mãe nas festas de igreja e festas de rua. Era um problema, porque a sanfona não tinha nem sustenido nem bemol, e era em um tom fixo. Não sei como conseguia acompanhar minha mãe. Às vezes vinha uma nota que eu sabia que não ia acontecer e eu ia com a voz. Tem uma coisa muito importante, tanto na minha vida quanto na do Wagner (Tiso): é que o som das rádios não era muito legal, a gente ouvia a música durante uma semana e não sabia quando ia ouvir de novo. Um pegava a letra – tinha uma menina com a gente – o outro a melodia e o outro a harmonia. Mas quando a gente ia tocar nunca era igual, e nós tínhamos que inventar, tanto o Wagner
quanto eu.

 

RB - Neste disco, o Wagner Tiso está com você fazendo os arranjos?
MN - A maioria dos arranjos do disco são meus e do Marco Elizeo, primo dele. O Wagner, claro, está em quase todas as faixas, mas como músico. O lance é que lá em Três Pontas eu era vizinho dele. Nós nos conhecemos e começamos a tocar na mesma noite. Eu tinha 14 e ele 12 anos. A única coisa esquisita – que na verdade era bom pra caramba! – é que quando o Juizado de Menores chegava a gente ia para a cozinha e ficava lá lambiscando uns negócios, e hoje não precisa disso (risos). A gente nunca se separou. O Wagner é um amigão. Tocamos há tanto tempo juntos que, quando eu estou pensando em uma coisa, o Wagner já vai fazer. E quando ele faz um negócio, eu sei o que ele quer que eu faça.

 

RB - Há muitos anos você grava em estúdio e hoje você tem uma parceria com o Ronaldo Lima. Qual a importância dos técnicos de som no seu trabalho?
MN - Cada um deles – o Ronaldo, o Chico Neves, que fez o Novas bossas (CD de Milton com o Jobim Trio) com a gente – é muito musical. Todo mundo é músico, então fica fácil e sai do jeito que a gente quer, porque eles entendem o que estão fazendo.

 

RB - Você gosta de usar o reverb na sua voz. Enquanto gravava você foi aprendendo o que ficava legal na sua voz?
MN - Sim, mas a primeira coisa foram as minhas parceiras: as montanhas de Três Pontas. Eu ia andar com os amigos para lá e para cá e, um dia,
alguém deu um berro e a voz voltou. Eu falei: ‘O que é isso? Dá outro!’. Ele deu outro grito e a voz voltou. Aí, um soltava um berro, quando (o som) estava voltando outro dava outro grito, e outro. Então, alguém me falou que isso era o eco. Eu nem sabia que existia eco.

 

RB - Quando chegou pela primeira vez em um estúdio, você já pediu o reverb?
MN - Já. Eu quero eco e não adianta. (risos) .

 

RB - Este disco foi gravado em vários estúdios.É difícil para você, como cantor, se ambientar a vários lugares diferentes?
MN - Não. Não sei o que ele (Ronaldo Lima) tem que fazer para adaptar o local para receber a voz, mas para mim, qualquer lugar está bom. Foi uma batalha mesmo levar estúdio para cá, para lá... Mas ele é um cara muito ligado, é um músico. Tinha dias, lá em Três Pontas, que a gente ficava até 4h, 5h da manhã gravando e ele estava pronto para qualquer coisa. Eu dava meus palpites, o Marco Elizeo dava outros palpites, e aí juntava os três e o Ronaldo é nosso co-produtor, graças a Deus! (risos)

 

RB - O disco tem desde músicas que lembram as das décadas de 60 e 70 até aquelas que as pessoas não imaginam que você cantaria, que lembram o CD Crooner, que foi bem-sucedido comercialmente. Com esta mistura, você quis pegar um público que o conheceu a partir daí ou quis mesmo gravar o que quisesse?
MN -
É muita gente tocando. Às vezes você conversa com um, ouve uma música... É mais por este lado. Não é pensando em venda. Se bem que será bem-vindo! (risos). Mas são músicas minhas, dos meninos e coisas que eles gostam e eu também.

 

RB - Do que você mais gostou neste trabalho?
MN - O que mais me interessa mesmo neste disco é nós, de Três Pontas, nos reunirmos e fazermos essa coisa... É bonito. O pessoal
da minha terra, essa coisa toda... Aliás, só cinco pessoas no disco não são de Três Pontas, todas as outras são. Às vezes eu ouço e penso: ‘Será que é o pessoal de Três Pontas fazendo isso?’. E é mesmo.

 

 

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