Daniel Neves fala sobre conexões, indústria e o futuro da música brasileira.
09/11/2025 - 16:35h
Atualizado em 14/11/2025 - 18:56h
Dizem que não somos nós quem escolhemos trabalhar com música, e sim que somos escolhidos por ela. No caso de Daniel Neves, esse chamado aconteceu ainda criança, passeando em uma cidade de praia, quando escutou o tambor de uma roda de capoeira. O som do violão, tocado pela mãe nas rodas familiares, colaborou para que ele sempre quisesse a música presente em seu dia a dia.
Tudo começou a fazer mais sentido já no início da adolescência, ao ouvir um garoto testando uma guitarra ligada a uma pedaleira em uma antiga rede de lojas de departamentos. “Fiquei abismado com o som da guitarra com os pedais”, relembra. A partir daí, começou a aprender por conta própria, com a ajuda de um amigo de escola que o ensinou a tocar e ler cifras, continuando a expandir os limites musicais como músico e ouvinte.
No entanto, Daniel tinha interesses múltiplos. Entre eles estava presente, por exemplo, a publicidade. E também, desde cedo, ainda aos treze anos, começou a trabalhar, seja distribuindo panfletos no sinal de trânsito ou como office boy. Essa disposição para o trabalho foi o que o levou a começar os passos no mercado editorial, ao aceitar editar a revista iniciada por um amigo chamada Toque para quem toca.
Os interesses se diversificaram, mas aquele chamado da infância sempre estava lá. Formado em Administração pela USP, Daniel permaneceu no mercado editorial e nos negócios sempre associado à música. Durante a atuação na Modern Drummer Brasil, já estava sendo gestada a ideia de uma publicação que relacionava música aos negócios. “Eu pensei: vou criar uma publicação de música e de mercado, porque é mais fácil encontrar pessoas que gostem de dinheiro do que de promoção da música. Então eu vou promover a música fazendo as pessoas ganharem mais dinheiro. Olha que pensamento mais invertido, não é?”, se diverte.
A partir daí, é história. Hoje, Daniel Neves está presente em diversas vertentes do mercado musical brasileiro. Além de manter o site Música & Mercado, promove a feira Conecta+Música e Mercado, que teve sua quarta edição agora em 2025, entre os dias 18 e 21 de setembro. O evento teve mais de 110 expositores, além de palestras e contatos. Daniel também é presidente da Associação Nacional da Indústria da Música (ANAFIMA), lidera o Make Music Day no Brasil — evento que promove a celebração da música em todo o mundo, sempre no dia 21 de junho —, coordena a Frente Parlamentar Suprapartidária em Defesa da Indústria da Música (FREMÚSICA) e pertence ao International Coalition da NAMM. Por conta de sua atuação pela cultura, em 2022 ganhou a Medalha Mário de Andrade do governo do Estado de São Paulo. No mesmo ano, foi um dos ganhadores do prêmio Milestone, na Namm Show.
Ao falar com a Revista Backstage, Daniel Neves havia acabado de retornar da Music China, feira de equipamentos musicais derivada da Musikmesse de Frankfurt, na Alemanha. O profissional da música falou sobre mercado musical, a profissão de músico e o evento Conecta+Música & Mercado, entre outros assuntos musicais.
Revista Backstage - Você comentou que esteve na Music China. Como foi a visita?
Daniel Neves - Fui por conta da indústria de instrumentos musicais. Lá acontece uma feira gigantesca chamada Music China. É um evento anual e, na verdade, são duas feiras: uma em maio, voltada para áudio e iluminação — com 22 pavilhões — e outra em outubro, focada em instrumentos musicais. Ambas são organizadas pela mesma empresa da Musikmesse, da Alemanha, que agora não acontece mais por lá. A produção e o mercado migraram para a Ásia, o que tornou natural essa mudança de plataforma e fabricação. A Musikmesse existia porque a região de Frankfurt sempre foi um polo comercial há séculos. Mas, à medida que a fabricação migrou para a China e muitas fábricas europeias fecharam, a feira perdeu força. A versão chinesa cresceu, e o centro da indústria se consolidou lá. É como se o eixo tivesse voltado às origens: há cinco mil anos, a Ásia já comandava o comércio mundial.
Aqui no Brasil, também vivemos algo parecido com o fim das feiras de música, como a ExpoMusic. Mas, nos últimos anos, surgiu a Conecta+Música & Mercado. O que elas têm em comum e em que se diferenciam?
Vamos estabelecer os cenários. Durante milênios, o comércio sempre foi feito presencialmente. A ExpoMusic, por exemplo, surgiu numa época em que telefone era caro e o fax era tecnologia de ponta. Ela durou 34 anos, acompanhando do telefone fixo ao início do smartphone. O encontro presencial ainda era obrigatório. Com o tempo, surgiram feiras regionais e o custo da ExpoMusic — justificado pela exclusividade — deixou de fazer sentido. Os fabricantes e importadores começaram a buscar alternativas. Em 2021, em plena pandemia, fizemos uma edição virtual da Conecta, usando o mesmo aplicativo da NAMM. Depois, realizamos a primeira edição física em São Paulo, já num cenário pós-pandemia, com tudo mais digital. Novos músicos surgiram nesse período — adolescentes que começaram a tocar na pandemia e hoje são jovens profissionais — e muitos deles nunca viram uma ExpoMusic. O lojista também foi mudando. Você tem gerações de lojas que encerraram suas atividades e outras que nasceram conectadas.
E como isso se reflete no formato da Conecta?
Antigamente, era necessário que todos os fornecedores estivessem numa feira. Hoje em dia, não é mais necessário. Hoje o fornecedor pode anunciar no Instagram. A diferença que a gente tem percebido é que viver a experiência da conexão real com as pessoas vale vários mil likes, e alguns expositores percebem isso. Outros ainda não descobriram quantos likes vale um aperto de mão. Quando geramos emoção, guardamos mais coisa na memória, então a Conecta não é apenas uma feira de equipamentos: é um hub. Tem área de equipamentos, instrução — este ano foram mais de 60 atividades divididas em três palcos —, shows e conexões diversas entre fornecedores e lojistas, produtores e artistas. É um evento jovem, com quatro anos de existência e oito mil metros quadrados ocupados. E muita gente ainda pensa que queremos refazer a ExpoMusic, mas não é isso. Nosso objetivo é reunir o setor, gerar negócios e conexões reais, tanto físicas quanto digitais. A Expo, em essência, era uma feira de equipamentos voltada ao lojista, que tinha também consumidores finais. Mas o primeiro foco dela era a loja. Por isso, quando as lojas saem, ela quebra. O que a gente quer é que o setor se encontre, desenvolva negócios e conecte pessoas que têm atividades e empreendimentos relacionados à música. É um encontro que acontece de forma híbrida — metade física e metade digital. Isso envolve desde o produtor musical, o músico, a loja, o pequeno fabricante até o roadie e todo o ecossistema da música — incluindo gravadoras, artistas que estavam vendendo seus próprios shows, agregadores e outros participantes. Nós já temos quatro anos de atuação nesse formato.
O evento também tem palestras e trocas de conhecimento, certo?
Sim. Nós estruturamos a Conecta em verticais com trilhas bem definidas: uma é a exposição de grandes marcas, outra é o conhecimento. Também há uma vertical voltada ao poder público, para mostrar que a indústria da música vai além do aspecto cultural. Há fabricantes brasileiros competentes, marcas com escritórios no país e uma cadeia produtiva expressiva. No começo, em 2023, pouca gente ia às palestras. Alguns achavam que deveríamos desistir. Mas o problema não era a ideia — era a execução. Ajustamos isso, e nas últimas edições o público cresceu muito.
Como funciona a relação com o poder público?
Minha vida é dividida em duas áreas: uma é a relação com o poder público; a outra são os meus negócios, que são a Feira e a Música & Mercado. Coordeno a ANAFIMA. Fazemos advocacy para a indústria em várias frentes: participamos da regulamentação da redução de imposto de importação de instrumentos como violão e violino; da inclusão da música no programa do Governo Federal Educação Conectada; e estamos trabalhando para reduzir impostos sobre microfones. Também apoiamos bandas e fanfarras — tanto de rock, jazz, blues, hip-hop, enfim, todos os estilos — junto ao governo de São Paulo e promovemos o Make Music Day com prefeituras. Em 2024, mais de 30 cidades participaram. Foram quase um milhão de crianças tendo aula de música no dia 21 de junho.
Na abertura da Conecta, nós chamamos a secretária de Cultura, Economia e Indústria Criativa do Estado de São Paulo, Marília Marton; a Maria Marighella, que é presidente da Funarte; e o secretário de Cultura da cidade de São Paulo, José Antônio Totó Parente, para fazer a abertura. Em seguida, tivemos um painel de debate com mais de 40 secretários de cultura.
É muito importante que tenhamos uma relação política, independentemente do partido ou do governo. A cultura não pode depender de um determinado governo — ela precisa ser vista por todos os governos como uma atividade vital para a humanidade. Além disso, é uma atividade que gera emprego e renda para quem trabalha com ela e contribui para a imagem do Brasil como soft power.
Quando a cultura, especialmente a música, é vista apenas por um lado do espectro político, corremos o risco de que, em um governo de orientação contrária ou mais radical, toda essa atividade seja congelada de alguma forma ou que os recursos destinados a ela sejam cortados. Nesses casos, a própria cultura passa a ser condenada, assim como os investimentos públicos que a sustentam. Por isso, a nossa preocupação é estar além das paixões políticas — muito além delas. Há trabalhadores que vivem da música, e é por essas pessoas que precisamos priorizar nossas ações e políticas culturais.
E o mercado editorial da música no Brasil — como você vê hoje, com o fim de revistas como a Música & Tecnologia e a continuidade de veículos como Música & Mercado e Backstage?
Antes, a comunicação era feita por CNPJs — quem tinha uma empresa de mídia dominava o setor. Hoje, qualquer CPF produz conteúdo. A competição é enorme, e a relevância depende de credibilidade e confiança. É mais fácil para um jovem de 20 anos se comunicar com o público de 17 do que para qualquer mídia tradicional. Cabe a nós lutar pelo nosso espaço na memória desse público. A Música & Mercado sempre focou em negócios, e continua assim. Enxergo, assim como o Nelson Cardoso, da Backstage, o papel da publicação como o de servir ao setor, não apenas fazer negócio. O Nelson não vai deixar de ser quem ele é. Se fosse o negócio pelo negócio, talvez não fosse necessário. Mas a publicação tem um papel, e esse papel está dentro daquilo que eu sou como proprietário da publicação. Então, ela tem que servir ao setor, e isso é algo que é inegociável para nós. Quando você pertence a uma categoria, aquilo que você faz se torna parte de quem você é. Tudo fica internalizado nas suas células.
E profissionalmente, como foi seu inicio?
Meu primeiro emprego foi entregando panfletos no farol. Depois fui office boy e trabalhei em locadora de vídeo. Aprendi o valor do trabalho desde cedo. Eu não sou comprometido com os meus erros — eu estou comprometido com aquilo em que realmente acredito, com o motivo pelo qual faço as coisas. Em resumo, se você tirar a música do mundo, o que resta? No campo das artes, teríamos o teatro sem música, a dança sem música, o cinema sem trilha sonora. As boates deixariam de existir como as conhecemos; os natais e as festas perderiam parte essencial do seu encanto. O bar não teria mais aquele samba bom acompanhando a cerveja. E até o culto na igreja protestante diminuiria pelo menos 60% do tempo sem a presença da música. Quando você retira a música dos comerciais ou seca a presença dela na cidade, percebe o quanto isso afeta tudo — o turismo, a economia e até a forma como um país se identifica. A música movimenta pessoas, sentimentos e lugares. Ela é parte fundamental da nossa identidade.
E quanto à remuneração do músico e do compositor hoje?
Esse é um ponto crucial. É preciso valorizar a cadeia da música e não ter vergonha de ganhar dinheiro com ela. Muitos músicos são mal remunerados. Há bares que exigem que tragam seu público para tocar, o que é absurdo — seria como pedir ao garçom para levar os amigos para o restaurante. Também há falta de reconhecimento jurídico. Muitos músicos são part-time, outros vivem integralmente disso, e o poder público precisa compreender isso. O direito autoral é a base da segurança financeira desses profissionais. Quando políticos tentam reduzir ou extinguir esse ganho, estão cometendo um erro grave. O músico é um profissional em constante estudo, e o sucesso pontual de alguns não representa a realidade de todos. Precisamos fortalecer a autoestima do músico brasileiro, ampliar a exportação da nossa música e resgatar o reconhecimento internacional que já tivemos na época de Tom Jobim e da Bossa Nova. Nós temos que ampliar os campos de difusão da música e mercado no exterior. Nós temos que ter o reconhecimento do viés do soft power com a música que identifica o país no exterior e saber explorar isso. Os Estados Unidos transformaram-na em lifestyle e produto. A Coreia do Sul fez isso com o K-pop...
Inclusive com investimento estatal...
Isso. O Brasil ainda tem vergonha de vender o samba como sua marca, o que é um equívoco. Temos 7.500 quilômetros de costa, cada região com sua cor cultural. A música é um condensador de interesse, mas o país ainda não sabe administrar essa riqueza.
E os próximos passos da Conecta?
Vamos continuar o trabalho. A próxima edição será de 6 a 8 de novembro, com ingressos a R$ 65. Queremos ampliar as conexões, sempre focando na música como atividade essencial para a economia e para as pessoas. O Brasil exporta soja e minério de ferro, que não empregam tanto quanto a música. Nosso papel político é aumentar essa percepção e mostrar que a música é, sim, uma força econômica.