Equipe Sá e Guarabyra, último show: Roberto Lazzarini (arranjos, teclados) Fabio Santini (guitarraviolão) Luiz Carlos Sá Marcelo Rocha (baixo) Edson Ghilardi (bateria) Guarabyra Chico Calabro (produção e agenciamento). Agachados:Paulinho Seminatti (PA) Luiz Risso (luz) Jaziel Araujo (roadie)
Por Miguel Sá
Em 25 de setembro aconteceu, durante o 4º Festival Internacional de Música, na Univali, a despedida da dupla Sá & Guarabyra. Foi o último de quatro shows já marcados desde o início de 2025, que incluíram também uma apresentação com Gabriel Sater e São Paulo Big Band na Sala São Paulo, em maio; outra em São Bernardo do Campo, no mês de junho; e o penúltimo show, o acústico Mar Sertão, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Esse foi o que acompanhei para fazer uma reportagem que acabou se tornando uma crônica.
O show
Foram muitas lembranças e pensamentos durante o desfile de músicas como Dona, Roque Santeiro, Espanhola, O Pó da Estrada, Verdades e Mentiras, Me Faça um Favor e muitas outras às quais, como filho de Luiz Carlos Sá, escuto desde sempre. Pensamentos que trouxeram todo o envolvimento da dupla com uma parte importante da história do áudio em São Paulo.
Mas voltaremos a esses pensamentos depois. Aqui, trago algumas informações mais factuais sobre esse “penúltimo show”, realizado sob a direção musical de Roberto Lazzarini, que também tocou piano. O baterista Edson Ghilardi, o baixista Marcelo Rocha e o guitarrista e violonista Fábio Santini completaram o time que acompanhou a dupla no Mar Sertão, espetáculo musical que explora a sonoridade acústica que eles já deveriam ter experimentado antes de 2023, ano da primeira apresentação nesse formato. O público ouviu o show — que aconteceu no Palácio das Artes — por meio da mixagem de Murillo Correa, figura carimbada nas melhores gigs de música popular e erudita de Minas.
O profissional usou uma console DiGiCo SD5 como ferramenta para uma mixagem com muito critério e bom gosto. Murillo evitou usar efeitos, já que o espaço apresenta bastante ressonância. Com elogios à fidelidade sonora da mesa, Correa disse ter dado uma segurada no volume do P.A.: “O som já vinha muito forte do palco. Se eu aumentasse mais para abafar isso, ficaria muito volume, e essa não era a ideia. O desafio de um espetáculo assim é manter o equilíbrio. Coloquei as vozes em um lugar adequado na mixagem, respeitando o som que já vinha forte do palco”, completa o engenheiro de som, que usou microfones Neumann, Shure, AKG e DPA.
Foi com esse equilíbrio agradável no som, sob a iluminação de Luizinho Risso — com 40 anos de estrada junto à dupla — que a plateia pôde acompanhar o desfile de clássicos e sucessos que representam uma trajetória muito peculiar. Uma história ligada umbilicalmente à produção musical e de jingles de São Paulo.
No penultimo show Murillo Correa no P.A. e Luizinho Risso na luz
Entre o Clube da Esquina e a Tropicália
O músico, compositor e arranjador Zé Rodrix foi quem escreveu, com Tavito, Casa no Campo, lançada no Festival de MPB de Juiz de Fora na interpretação dos compositores. Depois, ela se tornou sucesso na voz de Elis Regina, popularizando a expressão rock rural, que se consolidou como definição da música feita pelo trio formado em 1971 e que se tornou dupla em 1974, após a saída de Rodrix. Isso aconteceu depois de os integrantes do trio se mudarem do Rio para São Paulo.
Houve um tempo em que eles se incomodavam com o rótulo de “rock rural”, não sem alguma razão. É verdade que o trio teve o som muito inspirado no folk rock de Crosby, Stills, Nash & Young (juntos ou separados), Bob Dylan, Beatles e tantos outros sucessos vindos da contracultura da virada dos anos 1960/70. Mas o leque musical que influenciou a sonoridade deles — e principalmente da dupla — não se continha nos limites do rock. Isso muito por conta da origem de cada um. Mas não vou entrar em detalhes biográficos dessas experiências tão díspares e ricas, já muito documentadas em textos próprios ou de outros, entrevistas e documentários.
O fato é que aquilo que foi iniciado como uma brincadeira ipanemense influenciada pela literatura beatnik do início dos anos 1960 e o movimento hippie do final da mesma década, com músicas sobre viagens e uma paz rural idílica, começou a ganhar mais consistência a partir das viagens de Sá & Guarabyra subindo as margens do Rio São Francisco. A brincadeira poética e literária se tornou uma crônica quase jornalística que juntava as descobertas de um típico sujeito urbano fascinado pelo Brasil profundo com o olhar de outro sujeito nascido e criado nos barrancos do rio São Francisco, mas com uma experiência pessoal cosmopolita.
Fase orquestral
Musicalmente, a dupla se afastou um pouco das baladas e rocks tão presentes nos dois primeiros LPs do trio e no primeiro da dupla. No segundo sem Rodrix, o Cadernos de Viagem, começaram a lapidar a linguagem que amadureceu de vez no seguinte – o aclamado Pirão de Peixe com Pimenta. Nele havia toadas pop, muita viola caipira, violões de 12 cordas e xotes vestidos por arranjos monumentais de nomes como Eduardo Souto Neto, Nelson Ângelo e Rogério Duprat — os dois últimos, legítimos representantes, respectivamente, do Clube da Esquina e da Tropicália.
Aqui chegamos a um ponto muito interessante para nós, aficionados em produção musical. Não por acaso Rogério Duprat participa desse e de todos os álbuns da dupla Sá & Guarabyra nos anos 1970. Desde 1974 eles eram sócios da dupla no estúdio e produtora de jingles chamado Vice-Versa, em São Paulo. Essa relação dele com a dupla marca o que eu chamo de uma “fase orquestral” de Sá & Guarabyra, que atravessa os anos 1970 até acabar no LP Quatro, de 1979. A sintonia artística entre os componentes da dupla, uma certa direção musical do maestro e a participação constante dos mesmos músicos nas gravações no decorrer da década ajudaram a dupla a construir uma assinatura artística forte que os sustentou por toda a carreira.
Entre os músicos presentes com mais frequência nas fichas técnicas, vale destacar aqueles que fizeram parte de uma das formações mais conhecidas da banda de rock progressivo O Terço: Luis Moreno (bateria), Sergio Magrão (baixo), Sergio Hinds (guitarra) e Flavio Venturini (teclados). Arrisco-me a dizer que a relação da dupla com esses músicos se compara à que Milton Nascimento teve com o Som Imaginário. A Banda Ponte Aérea, com Nonato (bateria), Pedro Jaguaribe (baixo), Betto Martins (guitarra) e Constant Papienau (teclados), marcou presença no Pirão de Peixe com Pimenta, Quatro e no álbum ao vivo Dez Anos Juntos, que encerra a fase orquestral. Betto e Constant ainda estiveram presentes em fases posteriores da dupla. Vale lembrar também que a banda base do Cadernos de Viagem teve músicos importantes nas gravações da época, com Robertinho Silva na bateria, Luis Alves no baixo e Luiz Tenório Jr. nos teclados (ele mesmo: o que foi sequestrado e morto por milícias da ditadura argentina).
A Vice-Versa e o áudio paulistano
Não foi só na parte musical que a dupla teve o devido apoio. Também fazia parte da sociedade da Vice-Versa Luiz Augusto Botelho, figura fundamental do áudio na capital paulistana. Fiz uma extensa entrevista com ele na Backstage de janeiro de 2004 (se não me falha a memória), na qual ele falava sobre sua história, a Vice-Versa e o áudio em geral. Ainda sobre ele e o estúdio, é possível ler, aqui na Backstage, várias crônicas de Paulo Farat, formado por Botelho.
Além de Farat, entre os nomes que se profissionalizaram no estúdio nos anos 1970 ou trabalhavam por lá com frequência, estavam Ricardo “Franjinha” Carvalheira, Hamilton “Micca” Griecco e Wilson Gonçalves. Durante os anos posteriores, o estúdio continuou fornecendo e abrigando o trabalho de profissionais reconhecidos do áudio paulistano e brasileiro, como Nico e Cacá Bloise, Zé Luis Heavy, André Bam Bam e Marcelo Claret. Esses são os que convivi mais, mas há muitos outros excelentes engenheiros de som que tiveram atuações importantes na antiga produtora e estúdio, que era um celeiro da produção musical em São Paulo. A formação da obra e da história de Sá & Guarabyra está intimamente ligada ao Estúdio Vice-Versa e às pessoas que circularam por lá, o que consolidou uma das marcas da dupla: a proximidade com músicos e equipe técnica que poucas vezes vi em outras equipes de artistas nesses anos como repórter.
A produtora Vice-Versa fechou no final dos anos 1990, e o estúdio ainda teve um período de cerca de 15 anos no qual funcionou como sede da gravadora Trama, fundada por João Marcelo Bôscoli e André Szajman. Na segunda década dos anos 2000, com o avanço da especulação imobiliária, tornou-se impossível para o estúdio continuar competindo com o bate-estaca das obras no entorno da rua Alves Guimarães, 170. Ele foi vendido e demolido, mas o endereço permanece lá, agora com um prédio imenso.
Muita coisa aconteceu nas décadas seguintes: os sucessos em novelas como Roque Santeiro, na Globo, e Pantanal, da Rede Manchete; a explosão de shows pelo país e a carreira atravessando períodos mais ou menos favoráveis. Tudo isso pode ser conferido em entrevistas e livros — alguns dos quais indico em links logo abaixo. Recomendo também procurar, no canal Music Box Brasil, o documentário Sá & Guarabyra – A História do Rock Rural, de Jodele Lacher.