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REPORTAGENS / Matérias Completas

Carol Olival entrevista Leco Possolo

02/07/2021 - 15:43h
Atualizado em 02/07/2021 - 18:08h

Reportagem: Miguel Sá. Fotos: arquivo Backstage e arquivo Leco Possollo.

 

Leco, só para dar um pouco da dimensão do seu trabalho, poderia contar pra gente quem são alguns dos artistas com os quais você já trabalhou? Como é ter a responsabilidade de interagir com esses nomes?

Bom, eu tive a sorte e o privilégio de trabalhar com, praticamente, todos os grandes nomes do mercado da Música no Brasil. Desde a SomLivre, onde comecei como assistente de estúdio, passando pelo Master Studios, onde me tornei Engenheiro de gravação e trabalhei com Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Paulo Moura, Raphael Rabello, Gonzaguinha, Gilson Peranzzetta, Cama de Gato, e tantos outros. Depois, no estúdio do Roberto Menescal (Albatroz), do Robertinho do Recife (Estúdio Lagoa), no Gorila Mix do Walter Costa, e em muitos outros. Sempre houve, em cada projeto, a percepção de que cada músico ou artista, está se dedicando e colocando muitas expectativas naquele trabalho. Então eu sempre procurei tratar a cada um deles com toda a atenção e com o maior respeito, não só pelo artista ali presente, mas também pela pessoa que está depositando em mim e na minha capacidade toda a confiança.

Acho que obtive bastante êxito, pois fiz grandes e incontáveis amigos nessa estrada.

 

 

 

 

Você é o engenheiro de som que mais fez (e faz!) turnês internacionais que eu conheço. Qual a diferença de fazer uma turnê fora e dentro do Brasil? Como fica a autonomia do profissional quando ele está fora do seu país de origem?

Talvez essa pergunta seja bem difícil de responder. Isso porque vai depender muito da “grandeza” do seu artista no mercado internacional. Se for um artista bem conhecido e que leva bom público, tudo fica mais fácil, desde o horário que terá, como o equipamento disponibilizado. De qualquer forma, sempre tenho inúmeras reuniões prévias pra tentar esclarecer e negociar para que tudo fique o mais próximo possível do meu “rider”.

 

 


MIB - Copacabana Palace 1989

 


Quando você olha para o mercado brasileiro, o que você enxerga como vantagens e desvantagens de trabalhar como engenheiro de som no Brasil? Nas suas idas ao exterior como você sente que é percebido o profissional brasileiro?

Infelizmente o mercado não é reconhecido como grande fonte de rendimentos e investimentos. Ainda trabalhamos, na maior parte do país, com equipamentos antigos, sucateados e, em grande parte, clandestinos. Quando você está na Europa, ou nos Estados Unidos, em geral você encontra equipamentos de ponta e equipes bem dimensionadas. O que não quer dizer que eles sejam melhores do que nós, muito pelo contrário. Muitas vezes, até pela facilidade, não há o empenho e a criatividade dos brasileiros, nós fazemos a diferença no talento.

 

 


Master Studios 1986

 

O mercado da música é um dos que mais está se transformando. As plataformas digitais mudaram o formato dos lançamentos musicais e agora essa pausa temporária dos shows ao vivo por conta da pandemia forçaram uma nova estruturação por parte dos profissionais da indústria da música. Como você reagiu e está reagindo a esses novos cenários?

Na verdade, o nosso mercado está passando por uma fase muito dura e que, provavelmente, teremos muitas desistências da profissão, migrando para áreas mais genéricas como Uber, vendas, alimentação, e concursos públicos. Nem todos tem a possibilidade de mudar a forma de trabalhar ou aguardar a volta do mercado. No meu caso, como já vinha investindo meu tempo, meus contatos e minha experiência em shows com imagens e transmissões, acabei por tornar isso mais efetivo, com parcerias e muito estudo e dedicação.

 

 


Com Quincy Jones e Gilberto Gil, em Los Angeles

 

Falando em transformação, qual sua fórmula para se manter atualizado e conectado com o mercado? Como você se atualiza? Qual o papel do networking dentro dessas constantes transformações?

A atualização e a networking são e serão sempre fundamentais, e nesse momento elas se mostram ainda mais importantes. Parte dessa networking passa pela maneira com que você se relaciona com os outros técnicos, com os produtores, músicos, empresários, roadies, e empresas, sejam locadoras ou institucionais. Quando as oportunidades ficam mais escassas e os trabalhos mais específicos e sofisticados, essa rede poderá significar a diferença entre, ser lembrado ou não.

Outro ponto fundamental é a sua dedicação, tenha certeza que todos notam, pode até parecer que não, mas notam.

 

 


No Free Jazz Festival em 1995, mais uma vez com Gil e Stevie Wonder

 

 

A gente sabe que uma carreira como a sua é sustentada por muitos desafios vencidos. Poderia compartilhar com a gente algum episódio que marcou sua trajetória?

São muitos, mas muitos mesmo, seja por um equipamento que estava combinado mas não foi fornecido ou por uma alteração artística de ultima hora. Tenho um caso relatado que foi extremamente marcante. Quando o prefeito do Rio de Janeiro, então no seu 1º mandato, ia inaugurar o Imperator, ele preparou uma dobradinha incrível; Gilberto Gil e depois Stevie Wonder. Seria um show fechado para poucos na inauguração do Imperator no dia 23 de Dezembro de 2012 e outro, aberto ao público na praia de Copacabana no dia 25, noite de Natal. Resumindo, o nosso sound check começou atrasado e quando acabei de passar fui salvar em cima de cena do Stevie Wonder, renomeando como Gilberto Gil. A mesa começou o processo e de repente travou, nada acontecia. O técnico responsável da empresa veio resolver e decidiu reiniciar a mesa. Assim o fez e a mesa voltou no ponto do Stevie Wonder. Já estávamos atrasados e as portas iam abrir. Eu disse que seria impossível colocar o Gil no palco se saber ao menos em que canal estaria sua voz, uma vez que o “patch” digital se perdeu no restart. Foram minutos INTERMINAVEIS até eu conseguir ter 44 dos 48 canais do nosso input list, começamos assim mesmo, mas no meio da 1ª musica, já estava bem bacana, dai pra frente foi só sucesso e curtição. Ah, na praia foi sensacional...

 

 

 

 

Com essa carreira de décadas já de atuação, um Grammy na bagagem e um futuro todo para viver, você ainda tem algum sonho não realizado na sua profissão? O que é sucesso hoje para um profissional como você?

O Grammy realmente me traz um orgulho gigante, ainda mais por não ser dependente de uma premiação de disco ou artista. Foi mesmo pela engenharia de gravação para aquele garoto que decidiu trabalhar com algo que ninguém da sua família ou do seu círculo de amizades tinha a menor ideia do que era, e conseguiu não só trabalhar com o que ama mas, construir seu patrimônio, sustentar sua família, fazer inúmeros amigos, conhecer o mundo todo, aprender línguas e culturas e, de alguma forma, ser um norte para tantos que estão entrando nesse mercado...

Sonho em ver esse mercado e essa atividade muito mais reconhecidas e valorizadas pela sociedade e pela própria indústria da Música.

 


Equipe de Som 1978

 

 

 


Master Studios 1987

 

 


Com Ivete Sangalo

 

 

 


Master Studios 1985

 


Com o Oscar de Quincy Jones

 

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