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REPORTAGENS / Matérias Completas

Entrevista com Ellen Foley, por Alexandre Algranti

09/07/2021 - 12:08h
Atualizado em 09/07/2021 - 15:47h

 

Ellen Foley já gravou com The Clash, Blue Oyster Cult e Joe Jackson e foi destaque na ópera “Bat Out of Hell” do cantor Meat Loaf e do produtor Jim Steinman, um disco obscuro por aqui mas que já vendeu dezenas de milhões de cópias desde o seu lançamento em 1979.  Ela também participou das versões da Broadway e do diretor Milos Forman do musical Hair. Diz a lenda que Should I Stay or Should I Go, grande hino da década de 1980, foi inspirada na sua relação com o cantor e guitarrista Mick Jones.

 

A cantora recentemente lançou seu quinto álbum solo Fighting Words que incorpora um pouco do Zeitgeist de um mundo radicalmente transformado. Confira a entrevista.

 

 

 

A faixa I’m Just Happy to Be Here é uma lembrança de gratidão para todos nós que até agora sobreviveram a essa catástrofe em andamento?

Acho que podemos definir dessa forma. Talvez tenhamos um pouco de presciência do compositor e produtor Paul Foglino, é sobre tocar a vida, tentar avançar e não se deixar afetar pelas coisas. Tem muito a ver com a resiliência. 

 

 

O disco tem um cover de I Found a Love do Wilson Pickett. Qual a importância da música Negra no seu trabalho?

Todos os garotos da minha geração foram influenciados pela música Negra. Quando eu estava na escola abriga era se você era fã dos Four Seasons ou dos Four Tops. As “girl groups” sempre me influenciaram muito, o som do Phil Spector. Mas o Wilson Picket estava acima e além de todo mundo no que ele fazia. Cantei esta música muitas vezes ao vivo. Se eu pudesse me ajoelhar feito o James Brown nela seria muito divertido. Fui muito influenciada pelos grupos de soul e do som do Spector. Espero ter feito justiça a ele…  

 

 

Quanto tempo demorou a produção de Fighting Words?

Trabalhamos cinco anos. Eu moro numa casa no campo e fiquei nela no último ano e meio por causa da pandemia. O Paul me visitava e trazia demos e aí íamos gravando. E depois mandava os arquivos para o baterista e os outros membros da banda que trabalhavam em seus home studios, isto antes mesmo da pandemia. Ele tem uma mente muito matemática e conseguiu produzir assim. Foi tudo gravado com um notebook e um microfone na minha sala de estar. Quando começamos em Nova York tínhamos que interromper, sempre tinha um carro de bombeiro ou alguém com o som do carro no máximo. Mas o processo foi assim por cinco anos entre escrever e mixar. O disco ficou pronto em 2019 mas decidimos só lançar agora. Mas estou muito contente com o resultado final.

 


Ian Hunter e Ellen Foley em 1978

 

Você prefere gravar ao vivo ou montar as faixas canal por canal?

No meu primeiro disco, Night Out, produzido pelo Ian Hunter e o Mick Ronson, teve bastante coisa ao vivo. Mas hoje isto está fora de questão. Não temos mais estúdios para gravar dessa forma como fazíamos no passado. Mas na gravação do último disco tive o luxo de não ter que correr com as coisas. O Paul teve bastante paciência e consegui um resultado muito bom gravando em casa.

 

 

Os vocais estão sensacionais, ficou monstro.

Obrigada ! As pessoas estão respondendo muito positivamente.

 

 

Qual tecnologia de gravação você curte mais?

Não sou muito inclinada tecnicamente, mas achei um milagre o Paul me gravar em casa com um notebook com o ProTools. É maravilhoso. Antigamente era emocionante estar num estúdio atrás do vidro com aquela console gigante com centenas de botões e faders. E o engenheiro de som trabalhando com o produtor.

 

 

Sua voz não é só linda mais muito poderosa. Como você cuida dela?

Faz tempo que não vejo minha professora de canto, mas eu faço exercícios diários e depois eu canto por pelo menos uma hora. E antes de gravar eu não canto ao vivo por pelo menos 30 dias.

 

 

O Blaze Bayley, ex-vocal do Iron Maiden, em uma vez num workshop em São Paulo falou que da mesma maneira que um guitarrista não despejaria cerveja sobre seu instrumento ele também não bebia. Foi engraçado.

Concordo com ele, vou fazer minhas as palavras dele… (risos)

 

 

E como você cuida da sua audição nos shows ao vivo?

Eu nunca participei de tours intensas como as do Pete Townsend por exemplo… Eu sempre fico atenta ao volume da banda e dos monitores. É muito com relação aos monitores. Eu não estou no The Who nem estou ha 40 anos na estrada. Graças a Deus nunca tive problemas de audição.

 

 

É um milagre um cara como o Pete Townsend ainda conseguir tocar ao vivo sem desafinar…

Hoje se usa muito monitores in ear, mas na época dele eram os monitores de palco mais as pilhas de amplificadores.

 

 

Parece que da mesma forma que um amputado pode sentir a perna coçar, um músico veterano com perdas auditivas consegue compensar com a biblioteca musical que ele tem no cérebro, sei lá…

E o Beethoven? Ele ouvia o que estava escrevendo. Mas o pior é o tinnitus (sensação de zumbido constante no ouvido). Tenho uma amiga que sofre disso. São muitas armadilhas nessa carreira. 

 

 

Sua versatilidade é incrível, indo do pop/punk ao metal ao pop/jazz e finalmente ópera. De onde vem tanta inspiração?

Vem da música. Tive muita sorte de trabalhar com gênios como o Steven Sondheim e o Jim Steinman. Sem esquecer do Ian Hunter e do Mick Ronson… Quando o Ronson solava na guitarra era o som dos deuses. E na hora de cantar você já estava nos céus. Para mim vem da própria música.

 

 

Saiu um documentário sobre o Mick Ronson faz alguns anos. Aquele filme do David Bowie e o Spiders from Mars é um filme do Mick Ronson, ele toma conta do show. O Bowie ficou meio de coadjuvante.

Concordo. E o Mick Ronson era um cara humilde, as partes de guitarra dele faziam as músicas.

 

 

E os discos solos dele são lindos de morrer. Ele cantando Love me Tender no disco Slaughter on Tenth Avenue é sensacional.

A própria música Slaughter on Tenth Avenue é do Richard Rogers da dupla Rogers e Hammerstein e o Ronson fez um grande trabalho instrumental.

 

 

Como foi ter sido produzida pelo Ian Hunter e o Mick Ronson? Eles provavelmente eram dois dos ingleses mais importantes do rock na década de 1980. A banda Mott the Hoople é a banda mais cult das bandas cult.

Eles eram figuras cult. Eu não conhecia o Mott antes de conhecê-lo… Imagina eu uma jovem de 25 anos e entra o Hunter e o Ronson na sala, eu não os conhecia, o que foi bom porque não me intimidei. Foi divertido pois gravei várias músicas no estúdio do Todd Rundgren, o famoso estúdio Bearsville. O Mick Ronson estava vivendo na cidade de Woodstock, onde fica o estúdio, e foi tudo muito orgânico. E também gravamos no estúdio Media Sound na rua 57, em Nova York. O lugar era uma igreja que transformaram num estúdio com um pé direito alto com uma ambiência maravilhosa. A coisa pegou na mixagem. Não gostei da minha voz na mixagem e o Ian me expulsou do estúdio.

 


Ellen Foley e Mick Jones (The Clash)

 

E como foi trabalhar com o The Clash no disco Combat Rock? Eles fizeram uma ligação entre o punk e pop e tornaram o punk mais palatável, um pouquinho diferente dos Sex Pistols…(risos)

O Pistols terminou com a morte do Sid Vicious. Era uma questão de musicalidade. O Clash amadureceu muito o som punk. E não tinham medo de expor suas influências.

 

 

O Jim Steinman está agora curtindo uma com o Cole Porter, Irving Berlin, George Gershwin, Duke Ellington e os outros membros do panteão dos grandes compositores americanos do século 20? 

Acho que sim mas creio que o primeiro cara que ele gostaria de encontrar seria o Richard Wagner.

 

 

“Gesamtkunstwerk" é a minha palavra alemã favorita, a obra de arte total. O Wagner escrevia, dirigia, bolava os cenários, o figurino, a iluminação, escrevia o livreto. Tinha até uma tuba desenvolvida especialmente para o ciclo dos anéis. E sem falar que convenceu o príncipe da Baviera a construir um teatro especial.

O Steiman era tão vidrado que ele foi duas vezes ao Festival de Bayreuth.

 


Ellen Foley, no musical Hair

 

Você cantou nas versões da Broadway e do filme do Milos Forman do musical Hair. Qual foi a mais divertida?

Não desmerecendo a versão da Broadway mas no dia que gravei a cena da música Black Boys / White Boys no Central Park foi um dos dias mais divertidos da minha vida. Sério. Dançar a coreografia da Twyla Tharp foi muito legal, é a coisa de estar perto dos gênios. (Nota: vale a pena assistir no YouTube, nos dias de hoje seria meio impensável…)

 


Ellen Foley, no musical Hair

 

Com qual artista brasileiro você gostaria de ter colaborado?

A Elis Regina, ela era com a Edith Piaf, colocava tudo para fora no palco. Ela morreu muito jovem…

 

 

O que está rolando na sua playlist agora?

Sempre tenho Rolling Stones, Eagles, Crosby, Stills & Nash, Creedence Clearwater Revival, e coisas mais novas como a Carly Rae Jepsen, Amy Mann e até Carl Orff com Carmina Burana. E tem a trilha do filme Brokeback Mountain, é linda. E tem a Billie Eilish, ela é bem cool. 

 

 

Qual conselho você daria a uma jovem cantora que quer iniciar uma carreira musical?

Aprenda sua arte, aprenda a cantar. Você tem que trabalhar a sua voz, dia e noite. E não uma artista de Tik Tok, isso não vai durar. Aprenda a sua arte.

 

 

 

 

 

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