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Streaming: um caminho sem volta para a música

14/05/2020 - 13:23h
Atualizado em 14/05/2020 - 15:39h

De algum tempo pra cá o streaming se mostra como o caminho mais viável para o desenvolvimento do mercado fonográfico, o que traz uma série de mudanças que vão da divulgação à arrecadação de direitos. Como não poderia deixar de ser, a Revista Backstage estava lá quando a tendência começou a se consolidar. No nosso TBT de hoje, a capa da edição 274, de setembro de 2018: Streaming – um caminho sem volta para a música.

 

 

redacao@backstage.com.br
Fotos: Divulgação

 

O mercado musical vem mudando e, com isso, a forma de ouvir música e de divulgá-la. O serviço por streaming oferecido por plataformas como Spotify, Deezer e Apple Music vem moldando um novo comportamento do público no que diz respeito ao consumo de músicas e de shows ao vivo. Dessa mesma forma, o trabalho dos artistas vem sofrendo uma transformação na forma de divulgação, aquisição e remuneração. O mercado digital geral no mundo também supera as vendas físicas, com receita de US$ 7,8 bilhões.

 

O ano de 2016 foi marcado pela ascensão do mercado de streaming na indústria fonográfica global. De acordo com dados divulgados pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (International Federation of the Phonographic Industry, conhecida pela sigla IFPI), em abril deste 2017, o streaming de música representa o modelo de negócios que mais gera recursos para o setor em âmbito global, na faixa de US$ 4,56 bilhões, com crescimento de mais de 60% em todo o mundo.
Seguindo essa tendência mundial de crescimento, o modelo de serviço de streaming está se tornando o principal meio de distribuição de música também no Brasil, com a receita correspondendo a 49% do total do mercado da indústria fonográfica. Em 2016, foi registrado um crescimento de mais de 52%, representando uma receita US$ 90,8 milhões. Segundo fontes do Deezer, se a renda do streaming for somada ao rendimento dos downloads e outras fontes do setor digital, o crescimento geral para o ano de 2016 foi de 23%, representando uma receita de US$ 111,7 milhões. 


O que se nota com todos esses números é que a tecnologia de oferecer música pela internet, que nasceu há cerca de uma década, vem crescendo a passos largos. O Apple Music, por exemplo, já alcançou 27 milhões de assinantes pagantes. 

 


De acordo com Gloria Braga, superintendente do ECAD, em junho, a Spotify anunciou que chegou a 140 milhões de ouvintes no mundo, o que corresponde a um aumento de 40% em relação aos números de 2016. “A migração de conteúdos musicais para plataformas digitais vem crescendo de forma progressiva nos últimos anos e a remuneração oriunda destas empresas será de extrema relevância para os criadores. Porém o valor dos direitos autorais decorrentes da execução de músicas ainda é baixo em relação ao montante arrecadado nos demais segmentos – em 2016, os valores arrecadados de serviços de streaming representou menos de 1% da arrecadação feita pelo Ecad”, comenta Braga.

 


Em 2016, o streaming ultrapassou o número de download de músicas, e foi quando começou realmente a mudar bastante a relação do artista com a indústria do streaming. Até então, ainda não existiam formas eficazes de medição e informação. As pessoas mais antigas, que estavam acostumadas com o modelo mais antigo, tiveram mais dificuldade para essa questão tecnológica e essa falta de informação os deixava também mais distantes. Mas com a mudança de acesso às informações, “o artista fica mais disponível a fazer até mesmo algum tipo de promoção com as plataformas e aumentar mais um movimento que já vinha em uma curva ascendente”, comenta Bruno Vieira, Country Manager da Deezer, que atualmente conecta 12 milhões de fãs de música de todo o mundo com mais de 43 milhões de faixas, disponível em mais de 180 países. “Na questão do autoral, também estamos conversando e sempre abertos ao diálogo com todos, incluindo sociedade, tentando chegar a um debate”, completa o executivo. 

 


A cantora pernambucana Maria Tereza, que lançou recentemente por streaming seu primeiro álbum Folhas em Mim, pela Bonfá Estúdio, vê com entusiasmo essa nova forma de distribuição e divulgação dos trabalhos dos artistas. “O Bonfá, por exemplo, tem uma parceria com uma empresa distribuidora, e, no contrato deles, 30% fica para essa empresa distribuidora, 20% fica para o selo e 50% fica para o artista. Dessa forma, o artista não precisa ter vínculo de editar a música, não passo por gravadora, então quem quiser utilizar uma faixa, o contato é direto com o artista, o que para mim é muito bom, diferente de outras formas de distribuir. O Folhas em Mim, entrou mundialmente em todas as plataformas, incluindo as operadoras de celular, o que já estava no contrato. Nos três primeiros dias, por exemplo, o Spotify mostra a quantidade de acessos que tive no mês, foram 168 audições. Tenho um amigo que tem a possibilidade de saber onde minha música está sendo ouvida fora do Brasil (porque o Bonfá terceiriza essa informação, então não tenho acesso aos números no Brasil), e soube que meu disco lá fora estava sendo escutado mais no México, Bogotá e Chile”, ressalta.

 


Para Gloria Braga, o futuro da música está no digital e, por isso, o Ecad vem atuando há alguns anos, no sentido de criar a conscientização das empresas de serviços de streaming de que os artistas e, principalmente, os compositores vivem dos direitos autorais. “É preciso fomentar e estimular a criação para que a indústria da música permaneça viva e ativa, afinal o conteúdo oferecido e comercializado por estas empresas é a música, então nada mais natural que haja o pagamento aos criadores dessas obras. A música é o maior bem cultural de um país. E quem faz música precisa ser valorizado e remunerado”, afirma.

 

 

Novas formas de publicidade
Com o crescimento da arrecadação via streaming no mercado brasileiro, a Deezer revela que a estratégia da empresa e começar a agir localmente, entendendo quem são os consumidores e traçando estratégias locais. “No Brasil, as pessoas ouvem muito mais música local do que internacional. Então temos estratégias focadas em sertanejo, em gospel, da mesma forma estamos fazendo estratégias com hino de futebol, fechamos, por exemplo, uma parceria com o Flamengo, e pretendemos atuar no segmento de músicas locais. Além disso, estamos percebendo um crescimento grande do funk em 2017. Quando falo que estamos mais focados em sertanejo e gospel é porque foi por onde começamos a entrar no oferecimento de serviços da plataforma, que hoje corresponde a maior parte dos nossos usuários”, ressalta. Outro fator importante para a Deezer foi a parceria com as empresas que viabilizam o sistema. “Fizemos uma parceria com a TIM e lançamos em fevereiro novas ofertas, pacotes e serviços sem descontar do pacote do usuário, então isso é uma diferença e vem sendo muito produtivo”, fala.


No final de agosto, por exemplo, a cantora gospel Daniela Araújo aceitou o convite da Deezer para participar da última edição do projeto Deezer Apresenta, que evidencia artistas do universo gospel ao trazer conteúdo inédito e exclusivo para os seus fãs e promove seus perfis dentro da plataforma. Com o apoio da Som Livre e da empesa de serviço por streaming, Daniela compôs e gravou as músicas ‘Sala’e ‘Luz’ especialmente para o projeto. O trabalho se tornou um EP, disponibilizado com exclusividade na plataforma de streaming de música.


“A Deezer vem se colocando não apenas como uma plataforma de música, mas como uma plataforma de áudio, que reflete como lançamento dos nossos podcasts, e a gente vem tendo um crescimento grande de consumo de podcast. Estamos buscando cada vez mais parceiros e um trabalho para aumentar a produção, tanto quanto de conteúdo original, quanto de artistas, com gravação de entrevista, e gravação de pocket, então é um grande passo que estamos dando”, comenta. 

 

Identificação das músicas
Por se tratar de meio ainda recente de tornar disponível o conteúdo musical, as tecnologias para acompanhamento e aferição também se encontram em processo de desenvolvimento ou consolidação. O Ecad, por exemplo, conta com uma equipe especializada, que está sempre atenta ao surgimento de tecnologias e novas formas de consumir música na internet, estabelecendo a captação de novos serviços, realizando contatos e conscientizando os meios digitais sobre o direito de remuneração dos titulares no simulcasting (transmissão simultânea de rádios e tvs na internet) e webcasting (transmissão originária da internet com música, vídeos e web rádios). O processo de identificação das obras executadas por streaming é todo informatizado e conquistou o 1º lugar na categoria “Serviços” do prêmio “As 100+ Inovadoras no Uso de TI”, concedida pela IT Mídia em 2016. O Ecad recebe das plataformas digitais os relatórios com informações sobre as obras musicais e faz a identificação dos autores através de um processo de matching.


De acordo com Gloria Braga, a distribuição de direitos autorais neste segmento é feita de forma direta, com base nas informações sobre as execuções musicais, recebidas dos serviços de streaming. “O Ecad consolida as informações de execuções musicais enviadas pelas empresas de streaming e, em seguida, faz um cruzamento dessa lista com as obras cadastradas em seu banco de dados, identificando os autores das músicas tocadas. Posteriormente, realiza o repasse dos devidos valores para as associações de música, que fazem os pagamentos aos seus associados. Em 2016, o Ecad distribuiu aproximadamente R$ 5,5 milhões, beneficiando 137.461 autores”, observa.

 

Barreiras à tecnologia
Segundo Bruno Vieira, a Deezer vem atuando com todas as gravadoras, e com o objetivo de agregar quem ainda não temos acordo. “Não temos um campo de exclusividade, temos ações, como no Gospel, que expliquei acima, onde estamos criando um programa pra fazer versões diferentes do já gravaram. “Estamos mudando a forma como as pessoas ouvem música e para uma geração nova. 


No entanto, temos algumas barreiras como, por exemplo, as modalidades de pagamento. Cartão de crédito no Brasil ainda é uma barreira, às vezes o consumidor não tem como pagar no site, então uma das estratégias é solicitar a compra pelo celular. Outra barreira é o sistema de conexão, que ainda é instável e lento no país”, enumera. 


Maria Thereza aponta outro fator que ainda impedem o maior consumo de música por streaming: as próprias plataformas de distribuição de música, que ainda estão longe da realidade do brasileiro adulto, de gerações mais antigas, por simples desconhecimento. “Já ouvi falar de alguns pesquisadores que o streaming aqui no Brasil ainda não está implantado na cabeça do brasileiro. Existem muitas pessoas com as quais falo que nem sabem o que é o streaming, ou então não têm um aplicativo de música”, comenta.


No entanto, todos concordam em um ponto. Como um caminho se volta, como foi com o CD e o DVD, ouvir música, ou shows online, pela internet, é apenas uma questão de hábito e tempo. E as empresas e artistas terão que se adaptar à realidade, seja na forma de distribuição, divulgação e remuneração pelas execuções.

 


Áudio e educação por streaming

Outro setor que vem se desenvolvendo para o uso de streaming são as plataformas de ensino. A coordenadora de produção da plataforma Descomplica – de educação à distância, que está há 6 anos no mercado – Camila Pimenta, e a assistente de produção Jessica Soares, o grande mote é ter um bom planejamento para tornar disponível conteúdo de educação por streaming. “O básico mesmo é um bom vídeo, um bom áudio e uma boa conexão de internet, imprescindível. Para nossa plataforma de estudos, é meio a meio, áudio e vídeo. Acho que depende o objetivo, voltado para música, como certeza, pelo menos 70%”, afirma Jéssica. “Para as aulas, é necessário ter um bom entendimento, clareza do que você está aprendendo, então você de repente não aprende uma coisa porque você não ouviu, ou aprende errado, o áudio vai contar muito. Tem muita aula que de repente você vai começar um canal e dar aula e o pessoal não vai querer assistir porque está muito baixo, e o ouvindo não está entendendo”, observa Camila. 
“Hoje em dia, na internet, a questão do áudio é muito importante, porque você quer fazer tudo ao mesmo tempo, então às vezes você deixa uma aba ligada só para ficar ouvindo a informação, a palestra, uma transmissão ao vivo, e você está fazendo outra coisa, checando o e-mail, por exemplo. Então, se o público for direcionado para isso, é muito importante investir em áudio”, sacramenta.


Direitos garantidos

Em fevereiro, o Superior Tribunal de Justiça legitimou a cobrança dos direitos autorais pelo Ecad, garantindo aos artistas o direito de receber pela execução de suas músicas no ambiente digital, nas modalidadeswebcasting e simulcasting. O entendimento do STJ é de que o uso de músicas via streaming é uma modalidade de execução pública musical, pois a configuração da execução pública não se dá em decorrência do ato praticado pelo indivíduo que acessa o site, mas sim por meio da disponibilização de determinado conteúdo pelo provedor ao público em geral. Com esta decisão, a Justiça brasileira garante a valorização e o direito à remuneração dos autores pelo uso de suas obras no ambiente digital e segundo a gerente executiva jurídica do Ecad, Clarisse Escorel, “o Ecad tem um papel fundamental neste processo, pois é a entidade que garante o pagamento destes direitos à centena de milhares de artistas da música. Esta decisão representa um precedente importantíssimo para que os artistas passem a receber dignamente pela exploração econômica de suas obras na internet”, afirma.
Importante ressaltar que, há bastante tempo, nos principais países, os serviços digitais já pagam pela execução pública das músicas, sendo este um tema já superado. O direito de execução pública é, inclusive, a principal remuneração dos titulares, comparando aos demais tipos de direito.
De acordo com Gloria Braga, atualmente, Spotify, Apple Music, Vevo, Beats 1, Groove, Napster, StarMaker, Netflix e Superplayer são exemplos de plataformas*, dentre algumas centenas de usuários na internet, que já pagam os direitos autorais de execução pública por entenderem a importância da retribuição autoral para os artistas.


 

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