O Carnaval do Rio de Janeiro é um espetáculo audiovisual de proporções épicas. Por trás de toda a festa, uma equipe altamente especializada trabalha para garantir que cada acorde, cada batida e cada palavra sejam transmitidos com qualidade impecável. O planejamento e a execução do sistema de sonorização começam muito antes dos desfiles e envolvem centenas de profissionais.
Organização e Preparação
O trabalho começa logo após a virada do ano, quando a equipe inicia a separação, teste e limpeza dos cabos e equipamentos que serão utilizados nos desfiles. A partir de meados de janeiro, a infraestrutura começa a ser instalada no Sambódromo. São montadas as salas centrais, que abrigam os racks, sistemas de luz, energia e ar-condicionado.
Paralelamente, quilômetros de fibras ópticas e multicabos são passados ao longo da Marquês de Sapucaí. A montagem dos equipamentos das torres de som, das centrais de mixagem, das salas de amplificação e dos carros de som ocorre simultaneamente. Uma vez que a estrutura está montada, inicia-se uma fase com testes exaustivos e ajustes finos até que uma semana antes do evento acontecem os ensaios técnicos, nos quais cada detalhe é revisado. No total, a preparação se estende por cerca de seis semanas até que os desfiles finalmente comecem.
Cada um desses processos exige uma logística meticulosa, com profissionais especializados em diversas áreas, desde a engenharia de áudio até a programação e sincronização de sinais. Além dos técnicos fixos, há equipes responsáveis pela manutenção preventiva e solução de problemas emergenciais, garantindo que qualquer falha possa ser corrigida rapidamente sem comprometer a experiência do público e dos jurados.
Impacto da mudança para três noites de desfile
Este ano, uma das novidades foi a extensão do desfile para três noites, com quatro escolas em cada uma. O impacto operacional na área do áudio foi pouco, mas houve. Com menos escolas por noite, a logística foi facilitada, mas a equipe precisou manter o ritmo por mais dias. A mudança também trouxe uma necessidade maior de reavaliação do desgaste dos equipamentos. "Trabalhamos com equipamentos de ponta, mas qualquer sistema exposto por tanto tempo a condições extremas – calor, umidade e uso contínuo – exige um controle rigoroso", destaca Peter Racy, da Gabisom. Esse controle inclui inspeções detalhadas após cada noite de desfile, garantindo que cada peça de equipamento esteja funcionando perfeitamente para a noite seguinte.
A complexidade do desfile
Já foi dito que o desfile das escolas de samba é uma ópera itinerante, o que traz singularidades importantes na sonorização. “Em eventos normais, quase sempre há um palco – com o artista ou banda restrito a este local - e grandes áreas de público aglomerado em frente a ele. É uma situação estática, onde a sonorização em sua maior parte é concentrada no palco e atende a um público também concentrado na frente do palco. Agora insira uma atração com cerca de 3000 integrantes, todos precisando de retorno, e ponha todos em movimento e espalhe o público por arquibancadas duplas ao longo de quase 800 metros. Perceba as dificuldades que surgem”, propõe Racy.
Não são poucas. O sistema de som tem de ser distribuído ao longo da extensão da Avenida, assim como o sistema de monitor, já que os músicos se deslocam ao longo desta Avenida. Com o deslocamento dos músicos, a captação tem que ser móvel também. Com a captação móvel, é necessário um sistema de transmissão que também seja móvel para que os sons captados cheguem nos equipamentos na central para distribuição nas caixas de som. Com o público espalhado dos dois lados de uma avenida de 800m, é necessário espalhar caixas, cabos, processadores e amplificadores ao longo do trajeto.
Um elemento dos mais complexos e fundamental do sistema é a sincronização do tempo entre as caixas distribuídas, que sofrem atrasos devido à baixa velocidade de propagação do som pelo ar. “Não é um tempo estático, pois a banda se desloca, ou seja, o tempo de tudo deve ser atualizado constantemente em relação à posição atual da bateria”, detalha Racy. Quanto mais longe a bateria da escola de samba está de um determinado local da Avenida, mais bateria entra na mixagem que vai para as caixas deste local. Na medida em que a bateria se aproxima, trazendo seu volume acústico, a presença dela na mixagem diminui.
A bateria é sempre considerada a referência do Tempo-Zero, em volta do qual apenas voz e harmonia (violões, cavaquinho e outros instrumentos harmônicos no carro de som) soam nas caixas. Neste local do tempo zero, a bateria se projeta apenas acusticamente. Após a passagem da bateria para a próxima torre, a mixagem deve ser restaurada ao normal nas caixas anteriores e modificada na região seguinte para onde a bateria se encontra e repetindo esta operação sucessivamente durante o desfile inteiro. “Esta complexidade, quando somada às dimensões do evento e à dinâmica dos desfiles, resultam numa operação que, por todos os padrões normais, ‘não deveria dar certo’. Já conversei com alguns gurus gringos que são acostumados a eventos megacomplexos, e depois de pensarem um pouco dizem algo como ‘impossível isto funcionar’. Portanto quando ouvimos que houve algum problema, não ficamos horrorizados. Resolver problemas faz parte intrínseca da nossa operação. Ao nos empenharmos em prover um evento que ‘não deveria dar certo’ ou ‘impossível de funcionar’ estamos constantemente nos expondo a um sem-número de dificuldades. Isto não nos assusta. Pelo contrário nos encoraja a superar os resultados a cada nova edição”, se entusiasma Racy.
Atualizações e melhorias no sistema
Apesar de a estrutura principal permanecer a mesma, algumas melhorias foram implementadas para otimizar o desempenho. "Foi feito um upgrade na infra-estrutura de switches que gerenciam a rede de áudio e controle do sistema. Agora com um modelo mais rápido e versátil, verificamos melhora na estabilidade do sistema e maior praticidade”, explica Racy.
O upgrade na infraestrutura de switches, proporciona maior estabilidade ao sistema de áudio digital, mesmo assim ainda é usada uma redundância analógica. "Apesar da rede oferecer vários níveis de redundância própria embutida, nem por isso deixamos de instalar e testar todo o sistema de backup analógico. Procuramos ter um planoB - e às vezes um plano-C também - para os principais elementos do sistema: a alimentação elétrica, a transmissão de sinal, consoles com DSP duplos em redundância e carro de som reserva. Não podemos ficar vulneráveis em momento algum. A responsabilidade é grande, e a solução tem que estar pronta”, reforça Peter Racy.
Este ano houve também mudança na sonorização das frisas. “Antes os setores 10 e 11 recebiam ARCS-Wide, agora tem as Kara [com as frisas] ficando uniformes com todos os outros setores”. Outra mudança foi no primeiro recuo de bateria. “Foi montada uma ponte retrátil sobre a avenida, a qual ocupou um espaço significativo do recuo, espremendo a formação das Baterias, forçando com que ela ficasse mais longa e esguia, necessitando o acréscimo de caixas ali para atender à nova dimensão dos conjuntos de ritmistas”, detalha Racy.
O sistema de som do Sambódromo foi distribuído ao longo da avenida com 99 caixas L-Acoustics K2 para a pista, 60 caixas L-Acoustics Kara para as frisas. 76 caixas L-Acoustics K1 para as arquibancadas; 32 caixas Norton LS-8 para as arquibancadas da Praça da Apoteose; seis caixas Norton LS-8 para o primeiro recuo da bateria dando referência para os ritmistas, quatro caixas Norton LS-8 para o segundo recuo com a mesma função; 24 caixas Norton LS-8 mais 6 L-Acoustics K1 na concentração, na Avenida Getúlio Vargas. Nos carros de som, havia sete caixas sendo três JBL VTX V25 na frente e quatro Meyer Sound Mica nas laterais.
O Desafio do RF e a Complexidade da Operação
A transmissão de áudio por RF no Sambódromo é um desafio constante devido à intensa ocupação do espectro durante o evento. Mesmo com um planejamento cuidadoso e escaneamento de frequências antes dos desfiles, a realidade pode mudar drasticamente com o início da folia, já que diversas entidades, como segurança, bombeiros, imprensa e camarotes, utilizam equipamentos que competem pelo mesmo espaço de transmissão. "O ambiente de RF do Sambódromo é traiçoeiro. Por mais que os técnicos façam escaneamentos detalhados e identifiquem as frequências mais limpas e estáveis, quando iniciam os desfiles a qualidade do ar muda radicalmente por conta do grande aumento de serviços e entidades que necessitam de uma fatia do espectro para operarem. Estes incluem: a segurança do Sambódromo, os Serviços de emergência - como bombeiros, SAMU, e polícia - camarotes com bandas cheios de equipamento RF, imprensa, televisão, e uma infinidade provedores de serviços dentro e fora do sambódromo. Portanto, até que haja um rigoroso controle central sobre o espectro de RF durante o evento, ficaremos sujeitos à interferências e as consequentes fugas de sinal", relata Racy. Para lidar com isso, a equipe mantém fibra óptica e um backup analógico sempre prontos para entrar em ação.
As complexidades únicas da sonorização do carnaval
O desfile de carnaval é um evento de características únicas tanto pelo tamanho como pela complexidade do sistema de áudio. Após 25 anos de trabalho no Carnaval, Peter Racy percebe avanços na tecnologia e na qualidade da operação. Nos primeiros anos de operação, por exemplo, áudio em rede digital não era confiável. “Nos nossos primeiros anos de operação, a única solução robusta o suficiente era o analógico, com todas as suas pegadinhas como ruídos, mal contatos, DDP (diferença de potencial) entre setores distantes e a degradação da qualidade do sinal ao longo das grandes distâncias trafegando sobre [cabos de] cobre. Ainda não se contemplava um sistema de transmissão dos microfones via RF. Consoles digitais estavam no começo, com as principais sendo a Yamaha PM1D, e a Digico D5, as quais chegamos a utilizar em vários anos. Os processadores do sistema eram crossovers de hardware dedicados. Não havia controle centralizado do sistema, não havia monitoramento remoto do sistema. Tudo era mais precário. Hoje com todas as maravilhas tecnológicas que chegaram para ajudar, por um lado temos muito mais versatilidade e controle sobre o sistema, mas por outro, devido à sofisticação dos sistemas, há um grau de complexidade adicional que não existia antes. Vivo me perguntando: por que eu não me formei em TI? Hoje minha vida no áudio seria tão mais fácil!”, se diverte Racy.
Melhorias possíveis
Com tantos anos de evolução, ainda haveria algo que pode evoluir de forma decisiva para melhorar a sonorização do desfile? Peter Racy acredita que sim. Uma delas é a posição da central de som em relação ao primeiro recuo de bateria. “Isto nos obriga a desconectar e reconectar o carro de som logo que ele parte do primeiro recuo para entrar na avenida. Fazemos dessa forma para que os cabos que seguem atrelados ao carro de som não atravessem a avenida de forma que os desfilantes não tropecem sobre eles, ou que os carros alegóricos gigantes não esmaguem estes cabos de vital importância. A solução seria ter ambos os recuos do mesmo lado da central. Assim não precisaríamos fazer esta reconexão arriscada, podendo até se considerar a viabilidade de se fazer um desfile inteiro sem reconexão alguma”, sugere.
A outra diz respeito aos chamados carros de som. Eles vêm logo após a bateria para dar o retorno aos músicos da harmonia. “Frequentemente percebo a expressão de quase-dor do público na frisa ao serem agredidas pelo som (desnecessariamente) alto e agulhado produzido pelo carro-de-som. Infelizmente os encarregados de passar o som das escolas são instruídos a demandar dos nossos operadores de som um volume extremo e timbre agressivo”, lamenta Peter, que propõe como solução o uso da monitoração in-ear. “O retorno dos intérpretes ficaria a cargo das caixas da pista que tem esta finalidade, ou dos IEM pessoais, a critério de cada interprete. O carro acompanharia apenas com a console, gerador e racks de equipamentos vitais. Não haveria nenhuma caixa de som no carro. Estou certo de que o resultado do conjunto bateria e carro-de-som ficaria infinitamente superior, permitindo que a bateria brilhasse como deve, sem prejudicar o retorno dos intérpretes, e contribuindo para uma melhora exponencial do espetáculo ao longo de todos os 80 minutos de cada desfile”, indica.
A campeã de 2025 foi a Beija Flor de Nilópolis. As outras cinco participantes do desfile das campeãs foram Grande Rio, Imperatriz, Viradouro, Portela e Mangueira.