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SUMÁRIO / Matéria de capa

Carnaval na Sapucaí: 25 anos de evolução tecnológica

02/04/2026 - 12:03h
Atualizado em 06/04/2026 - 18:48h


Foto: Divulgação / Riotur

Por Miguel Sá


Investimentos pesados, extensivos testes, abertura às inovações e uma crença inabalável na busca pela perfeição. Esse foi o mantra que tornou possível a transição da sonorização do Carnaval carioca da era analógica para um ecossistema totalmente digital. Para compreender plenamente as dificuldades, os riscos operacionais e as inúmeras possibilidades de falhas — tanto técnicas quanto humanas — envolvidas na sonorização dos desfiles das escolas de samba, é fundamental estabelecer um paralelo com a sonorização de grandes shows, sejam eles realizados em ambientes fechados, abertos ou arenas.

 

 

Nos shows, o palco é fixo — ou seja, as fontes sonoras permanecem estacionárias durante todo o evento. Desde o Festival de Woodstock, a indústria global de áudio vem  desenvolvendo tecnologias, produtos e sistemas voltados ao live entertainment, um mercado altamente estruturado, previsível e economicamente relevante.

 

 

O desfile da escola de samba por sua vez, apresenta um cenário absolutamente singular. Trata-se de um evento anual que, em alto nível de complexidade, está essencialmente em dois estados brasileiros - Rio e São Paulo - sem paralelo direto com outros formatos de sonorização.

 

 

A passarela do samba sempre representou um dos maiores desafios da engenharia de áudio. Trata-se de um “palco em movimento”, onde uma bateria com cerca de 250 a 300 ritmistas, acompanhada por 5 a 10 intérpretes, percorre aproximadamente 700 metros, finalizando no recuo, enquanto o público se distribui ao longo de toda a extensão da avenida. O objetivo técnico é que o espectador tenha a percepção de que o som — especialmente a bateria e a voz dos intérpretes — está sempre à sua frente, independentemente da posição real da escola no percurso.

 

 


Beija-flor no carnaval 2026. Foto: Divulgação / Riotur

 

 

A complexidade aumenta com a dinâmica operacional do evento: assim que uma escola encerra seu desfile, a seguinte inicia praticamente sem intervalo, reduzindo drasticamente o tempo disponível para qualquer reconfiguração de captação ou processamento.

 

 

Foi nesse contexto que, em 2001, a Gabisom assumiu a sonorização da Marquês de Sapucaí, com o desafio de iniciar a transição tecnológica rumo ao digital, desenvolvendo um projeto dedicado exclusivamente às especificidades da avenida. O próprio conceito de distribuição de caixas ao longo da passarela — ainda utilizado — foi estruturado nesse período e permanece como base do sistema atual.

 

 

Entre as inovações que aceleraram essa transição, destacam-se:

●  A introdução, em 2001, do sistema Line Array V-DOSC na pista, estabelecendo um novo padrão de cobertura e inteligibilidade;

●  A adoção de consoles digitais de alta performance, como a Yamaha Rivage PM;

●  A implementação de um sistema de delays controlado por um console digital dedicado, com processamento baseado em dados de posicionamento da Bateria via GPS da bateria;

●  A utilização de, no mínimo, três sistemas autônomos operando em redundância (backup), garantindo alta confiabilidade operacional.

 

 


Peter Racy. Foto: Ernani Mattos

 

Já havia, desde 2001, no início da atuação da Gabisom, havia uma previsão de retirada dos carros de som do desfile. Como teste, e com a anuência das escolas de samba, o som do carro chegou a ser desligado.  Ano passado, Peter Racy mencionou a intenção de, finalmente, concretizar essa retirada, como pode ser visto aqui como pode ser visto aqui. O próprio Peter Racy, que desde o início da participação da Gabisom na sonorização do carnaval é peça fundamental nesse trabalho, é quem nos conta como aconteceram as modificações na tecnologia do áudio do desfile na Marquês de Sapucaí.

 

 

Visão geral das principais evoluções tecnológicas

 


Carnaval 2001 | Campeã Imperatriz Leopoldinense | Primeiro ano da Gabisom no comando da sonorização | Foto: Divulgação / Acervo Liesa

 

“Desde que a Gabisom iniciou a sonorização dos desfiles em 2001, a principal ruptura foi a melhora gigantesca do som final que todos ouviram. Isto se deu em termos de qualidade, intensidade, cobertura e homogeneidade. A princípio, isso foi em grande parte devido à excelente sonoridade e ao alto SPL do sistema de P.A. V-DOSC. Foi uma solução  novadora: uma caixa Line-Array empregada como Point- Source. Seu desempenho agradou às Escolas de Samba na avenida e ao público do sambódromo. A TV Globo também provou o perfil baixo da caixa que interferia menos nas imagens. Tecnicamente, o sucesso desta solução se deveu à alta concentração de componentes em uma caixa de perfil discreto, tocada por processamento digital, com presets muito bem escritos, e também por um sistema de amplificação eficiente para a época (Lab Gruppen 4800).

 

“No início seguimos com a microfonação utilizada em anos anteriores por sugestão da TV Globo devido ao seu histórico de suportarem o intenso regime de trabalho. Uma grande inovação foi no sistema de transmissão destes microfones até o carro de som, quando pela primeira vez foi utilizado um sistema de transmissão por RF de alta potência através do sistema LectroSonics com 250mW em cada transmissor.

 

“Nos bastidores, os sistemas seguiam os padrões da década, com controle, distribuição e transmissão de sinal 100% analógicos. Já no primeiro ano da Gabisom, empregamos um console digital para programar e controlar os delays, aquela tarefa complexa de manter o tempo das caixas da avenida sincronizado com a posição da bateria. No primeiro ano, se não me falha a memória, foi utilizado uma console Amek Recall analógica para mixar as escolas. Os carros de som também utilizaram Consoles Ramsa analógicas. Ao longo dos 24 anos em que a Gabisom atuou no Carnaval do Rio de Janeiro, apesar da constante melhora na confiabilidade e no desempenho das consoles digitais, a quantidade de inputs utilizados não sofreu grande mudança. O input das escolas sempre esteve em torno de 24 canais. A quantidade de saídas para os racks e caixas também mudou pouco e sempre ficou em torno de 40 saídas. Houve mais saídas adicionadas para comunicação e casos particulares em função da conveniência disponível nas consoles. Em termos de marcas e sistemas, houve duas que dominaram: Consoles Digico e consoles Yamaha. As Digico foram empregadas na época em que utilizávamos o anel de fibra Optocore destas para a transmissão do sinal de áudio às salas de rack. Com a adoção do sistema DANTE, a linha Yamaha adequou-se melhor e passou a figurar em todas as posições.

 


Caixas de delay no carnaval 2001 | Ampliação e restauração de imagem por inteligência artificial

 

 

“É interessante salientar que a console que gerenciava os delays (com exceção de um ano em que foi usada uma SSL) foi sempre usada console Yamaha começando pela PM-1D que foi usada por cerca de 10 anos (ou mais) seguida pela PM-10 que nos trouxe aos dias de hoje. A escolha da PM1D inicialmente foi devida à sua grande quantidade de saídas como também à sua programabilidade, o que fez com que ela coubesse como uma luva para esta função. APM-10 seguiu o caminho de sua antecessora, adicionando conectividade DANTE o que proporcionou uma praticidade, confiabilidade e interconectividade além do imaginado. Agora todas as consoles estavam conectadas à mesma rede, bem como a todas as salas de racks. Esta unificação trouxe praticidade e confiabilidade ao sistema, mas claro que também um grau de complexidade que não havia antes”.

 

 

Redundância (O show deve continuar)

 

“A chegada das redes de áudio digital (Dante, AES67, AVB) modificou o roteamento, a redundância e a escalabilidade do sistema do desfile. As redes de áudio digitais (Dante, AVB) apresentam redundância própria, caracterizada por redes primárias e secundárias e também pelo anel bidirecional de fibra, onde uma interrupção em uma perna direcionaria o tráfego no sentido contrário mantendo a conexão. Contudo, nunca deixamos de manter os velhos e bons sinais analógicos passados e testados entre salas e também na avenida entre o carro de som e a central (como Stand-by). Resumindo, hoje temos consoles digitais com recall e automação, temos redes de áudio digitais redundantes trafegando sobre fibra ótica, temos tecnologia de switches de rede com desempenho e largura de banda superiores, permitindo o compartilhamento de redes diferentes sobre o mesmo meio, temos também sistemas de RF digitais que permitem a operação mesmo em ambientes difíceis.

 

“Não menos importante, foi o advento de amplificadores digitais, com alta potência, baixo consumo, maior densidade de canais por aparelho, além de controle digital à distância, geradores trabalhando em paralelo, com reversão automática entre Rede e Geração e, na transmissão crítica de instrumentos e vozes à console de mixagem na central, hoje há três caminhos: multicabo RF, fibra-ótica (stand-by 1) e multicabo analógico (stand-by 2)".

 


Viradouro no Carnaval 2026. Foto: Divulgação / Riotur

 

A transição do ambiente analógico para o digital no carnaval

 

“Com o passar dos anos e o inevitável progresso da tecnologia, todas as consoles passaram a ser digitais, tanto na mixagem como no carro de som. O total-recall das digitais foi muito útil para gravar cenas de cada escola durante ensaios e dispará-las durante os desfiles. Por diversos anos, procuramos formas para controlar e monitorar remotamente os equipamentos nas salas de rack ao longo da avenida, pois a distância entre as salas era fenomenal, com o acesso ainda pior em dias de show quando o sambódromo estivesse cheio.

 

“Era difícil saber o que se passava em uma sala em outro setor. O WiFi foi uma das  primeiras tentativas, mas na época era lento, limitado e sofria instabilidade. Com o advento das redes digitais de áudio abria-se um novo potencial para isso, mas ainda sem um histórico confiável, evitamos adotar no início. A princípio, em caráter de teste, adicionamos fibra ótica à transmissão entre o carro de som e a central de mixagem, mas com o cuidado de manter o velho e bom multicabo analógico como titular.

 

“No primeiro ano em que implementamos a distribuição e transmissão de sinal digital entre a central e as salas de racks foi usando um sistema já bem conhecido e testado por nós, que era o anel de fibra Optocore embarcado nos Racks e Consoles Digico. Muito estável e confiável, foi uma ótima solução. O áudio, agora em forma digital, era endereçado, condicionado, distribuído e transmitido limpo, sem os tradicionais ruídos e mal contatos analógicos. A melhora na qualidade da reprodução foi instantânea e massiva. Também quase zeraram os relatos de ruídos e falhas pontuais na reprodução. Contudo, ainda não era possível monitorar ou controlar os equipamentos distantes. Com o passar do tempo e o aumento na confiabilidade dos sistemas de áudio em rede digital e já com um histórico bem definido, começamos a trafegar o áudio sobre rede IP usando o protocolo DANTE. Como a distância entre os pontos a se interconectar era superior aos 100m permitidos para conexões LAN, a nossa rede digital trafegava sobre fibra ótica. Neste primeiro momento, o áudio trafegava em uma fibra enquanto o controle e monitoramento trafegavam por outra rede em outra fibra separada. Depois, com os switches ethernet de alto desempenho para gerenciar as redes, já era possível utilizar V-LANs independentes dentro do mesmo switch, para que o áudio digital e o controle e monitoramento trafegassem sobre a mesma fibra. A nossa vida melhorou muito”.

 

 

Criação e adaptação de tecnologias às condições do desfile das escolas de samba

 

“Foram criadas diversas soluções adaptando a tecnologia e materiais disponíveis na época:

 

“A telemetria do carro de som sempre foi um ponto-chave para o bom funcionamento do sistema de delay da avenida. Foi construído um sistema que lia o deslocamento físico do carro de som na avenida e o transmitia para a central de delay. A cada deslocamento do carro de som, a mesa de delays recebia a telemetria e atualizava os tempos das caixas da avenida com base nesta informação.

 

“Foram criadas peças específicas para que as caixas de som pudessem ser adaptadas às torres de som.

 

Foi montado cabeamento especial de bitola larga para as caixas, devido às grandes distâncias (100m ou mais) que tinham que ser percorridas entre as salas de racks e as caixas.

 

“Foi projetado/montado um sistema de RF usando equipamentos existentes no mercado para formar o “multicabo RF”;, que veio a aposentar o Multicabo analógico e até a fibra ótica

acabou ficando como stand-by.

 

“A rede Optocore nas consoles Digico e SD Racks foram usados para distribuir sinais digitalmente entre a central e as salas de rack ao longo da avenida.

 

“Nos primórdios, empregamos um kit de body-packs de 250mW para transmitir a mix direto da mesa do carro de som, para a central como stand-by”.

 

 

A questão da Fase

 

“Fase é um assunto complicado no carnaval. Num evento normal, teríamos um grandeconjunto de caixas (PA) produzindo alto SPL à distância com boa coerência de fase devido à proximidade e alinhamento entre as fontes sonoras. No carnaval, devido à natureza do evento (plateia esticada ao longo de 800m de cada lado da avenida) os grandes PAs acabaram sendo fragmentados em 74 torres ao longo do percurso. Cada torre de som já exibe uma resposta de fase complexa devido ao posicionamento e orientação dos diversos sistemas montados em cada torre. Os efeitos de torres vizinhas bem como das torres do lado oposto, acabaram se compondo à esta complexidade. Felizmente, pudemos trabalhar isto, de modo que, ao caminhar a avenida de ponta a ponta, coisa que fazíamos assiduamente, era notável a estabilidade do volume e do timbre. Mesmo em movimento, com passada larga, não se ouvia comb-filter. A resposta ficou realmente muito linear e estável”.

 


Salgueiro no Carnaval 2026. Foto: Divulgação / Riotur

 

 

Relação entre sonorização e transmissão de TV

 

“Por diversos anos a entrega do áudio para a televisão foi analógica, sendo através de splitters. Enviávamos os sinais dos microfones separados à TV, bem como sinais já mixados dos grupos de Bateria, Harmonia e Voz, assim como a mixagem completa. É interessante lembrar que durante os primeiros anos em que atuamos no carnaval, a TV Globo vinha utilizando um sistema de transmissão via micro-ondas, conhecido como Mosley. A mixagem feita no carro de som, era transmitida por um canhão de micro-ondas localizado em cima do carro de som que mirava numa antena receptora no final da Avenida. Este sinal era o stand-by do stand-by caso houvesse uma contingência adicional para superar eventuais falhas na transmissão. Com o passar dos anos, o Mosley foi abandonado, assim como o splitter analógico. Passamos a entregar o sinal em rede DANTE, com redundância, o que facilitou a vida de todos e proveu uma melhora quântica no áudio que a TV recebia”.

 

 

Evoluções no delay

 


Caixas de delay do Carnaval 2026. Foto: Divulgação / Riotur

 

“O sistema de telemetria que transmite a posição do carro de som para a central de delays teve algumas atualizações na forma como este sinal foi transmitido, porém o sistema em si, que era simples, prático e elegante, mudou pouco. Nos primeiros anos a transmissão destes dados desde o carro de som até a central, era feita através da rede de telefonia Nextel. Funcionava, mas com ressalvas pois era frequente a perda do sinal devido ao ambiente de RF muito denso e imprevisível na avenida. Passamos a utilizar o multicabo analógico para transmitir os dados de telemetria, mas como era necessário fazer a troca de multicabo durante a progressão do desfile na avenida, perdia-se a conexão neste momento e o sistema acabava se perdendo. Quando a fibra ótica substituiu o multi analógico, tentamos passar a telemetria pela fibra, mas com as mesmas falhas na conexão durante as trocas de fibras ao longo do desfile. Surpreendentemente, com o advento do Multicabo RF, houve mais estabilidade e as quedas de sinal foram menos frequentes, mas ainda ficamos reféns da qualidade do ambiente de RF na avenida que nunca foi regulamentada adequadamente”.

 

 

Uso do RF: a novidade nos últimos anos

 

“De fato, o ambiente de RF da avenida é muito desafiador. Durante a montagem e testes, temos um cenário de RF que é mais ou menos estável. Contudo, com o início dos desfiles, o ar acaba sendo invadido por incontáveis frequências adicionais entre serviços de segurança, emergência e inúmeros serviços internos do próprio sambódromo. Sem mencionar o crescimento dos grandes camarotes com shows de artistas famosos, que utilizam frequências sem coordenação alguma. Lembrando também do encolhimento das frequências disponíveis ao mundo do áudio devido à chegada da TV digital, que mordeu uma grande fatia do nosso espectro de RF.

 

“Com os sistemas de RF digitais, a coisa melhorou bastante, a ponto de ser possível  montarmos o tão sonhado “multicabo de RF”. Ainda faltam regulamentação e ordenamento

no uso do espectro de RF durante o desfile para que haja segurança no emprego dele como

solução, mas já é possível vislumbrar um futuro mais estável. O surgimento de tecnologias que reduziram as possibilidades de falha do sistema Eu não gostaria nem um pouco de voltar ao modo como trabalhávamos há 25 anos. Era muito mais trabalhoso, ineficiente e incerto. Considero todos os progressos essenciais e não trocaria nenhum de volta. O progresso que se deu no nível de equipamentos não foi trivial. Saímos de simples conexões de; In e Out; analógicas para o gerenciamento de múltiplos IPs e VLANs.

 

“Com o aumento no desempenho a complexidade também aumentou muito e, como não poderia deixar de ser, a curva de aprendizado também ficou mais acentuada. Tudo ficou menor e mais leve do que era. Veja os cabos de sinal por exemplo. Multicabos de 56 vias por 100m pesavam cerca de 500 Kg, enquanto uma fibra ótica com o triplo da extensão não passa de 50 Kg. Amplificadores ficaram mais leves e compactos, com mais potência, mais canais de saída e controláveis à distância. As consoles digitais ficaram com menos da metade do peso e mais do que o dobro de canais e funções.

 

“Conforme a tecnologia progride, ela se auto-alimenta e acaba por crescer num ritmo  alucinante. Não é mais possível relaxar achando que já se sabe alguma coisa. As coisas mudam muito rápido e continuarão a acelerar mais e mais com o passar dos anos. A própria IA deve ajudar num primeiro momento, com seu poder de fazer muitas coisas em pouco tempo e com máxima eficiência. Contudo, ela própria se alimenta e se faz crescer, de modo que acredito que manter-se atualizado e relevante ficará mais complicado com o passar do tempo. No meu caso particular, sou formado em áudio, mas hoje utilizo mais conhecimentos primários de TI adquiridos aqui e ali ao longo do tempo. Na minha opinião, hoje os conhecimentos de áudio tem a mesma importância que conhecimentos digitais e de TI. Fica claro que temos que ser experts nas duas áreas para trabalhar com áudio. Não sou um visionário, porém não é difícil prever que a IA entrará com tudo este ano em todos os setores da nossa vida. O escopo para a IA no carnaval é imenso, desde coordenação de RF, monitoramento de sinais, controle do tráfego de dados e áudio sobre redes e provavelmente até a mixagem propriamente dita. Com certeza ela não irá passar cabos ou montar caixas e nem interligar tudo. Este já é o campo da robótica, que virá logo em seguida à consolidação da IA. Provavelmente eu não irei testemunhar este fato, mas com a velocidade em que as coisas andam hoje, quem saberia dizer?”

 

 


 

 

 

 


Por Miguel Sá

 

Engenheiro de áudio com mais de três décadas de atuação em transmissões ao vivo, Carlos Ronconi esteve à frente da evolução tecnológica do som do Carnaval na TV Globo entre 1988 e 2019. Nesse período, participou da transição do sistema analógico e das conexões manuais de delay para operações com fibra óptica, transmissão remota e outras experiências pioneiras. Após se aposentar da Globo, seguiu atuando em projetos ligados à Dolby e realiza transmissões para a TV Cultura. No depoimento, Ronconi revisita, com detalhes técnicos, as transformações do áudio do Carnaval nas últimas décadas.

 

 

Evolução do áudio da transmissão


“A captação das escolas era uma coisa muito simples, porque o som na avenida era basicamente de voz. Tinha a bateria muito mais acústica do que qualquer outra coisa. Então, o público ouvia primeiro a voz do puxador, a harmonia e depois a bateria. Era uma coisa muito estranha, mas é o que tinha naquela época. A Minha primeira tarefa quando entrei na Globo, em fevereiro de 88, foi o desfile. Meu chefe falou: “e aí, tudo bem? Já fez o exame? Já tá tudo OK? Já tá contratado? Então vai para a Avenida˜(risos). Aí eu fiquei até sair da TV Globo em 2019.

 

“Começamos a criar uma certa evolução no sistema. A primeira coisa que fizemos foi a captação das escolas. No começo, dividimos a transmissão com a Manchete. A Globo cuidava da imagem, a Manchete cuidava da captação do som e havia dois operadores de microfone de cada lado da avenida com um cabo. Eles vinham acompanhando a bateria, captando o som até certo ponto. Aí eles encontravam com os outros dois que seguiam, porque a avenida tem quase 800 metros de comprimento, então não dá para você puxar um cabo de microfone nessa distância. Chegava num ponto, esses dois assumiam enquanto os outros dois (que iniciaram o percurso) voltavam. Do segundo recuo para frente não tinha mais captação. Então, quando a bateria tava próxima de chegar no recuo, começavamos a gravar a bateria. Quando o mestre sinalizava que ia sair (do recuo), paravamos de gravar, voltava a fita com a gravação e achavamos a paradinha da bateria. Quando ela dava a paradinha na avenida, a gente soltava de novo a fita (a partir da paradinha) e aí não tinha mais captação, era o som da fita (na transmissão da TV) até o final. A bateria saía, ia embora do recuo e a fita ficava rodando.

 

“Como no Carnaval você está com as câmeras captando em lugares diferentes, a não ser no ponto zero, que é o ponto do recuo, no resto você não tem muito sincronismo (entre áudio e imagem). Também não tem muito close. Muito plano geral, muita alegoria. Então facilitava pra gente não precisar ter esse sincronismo entre som e imagem. Depois começamos a pegar um mix da da bateria com um equipamento da Sony chamado PCM F1, que era um dos primeiros conversores digitais de PCM. Isso no começo dos anos 1990. A Sony não tinha trazido para o Brasil ainda. Eles trouxeram para testarmos e a primeira vez que eu usei foi no carnaval. Até então a TV era totalmente em mono. Ela só foi ser estéreo em 93, 94. Não tenho certeza exatamente, mas foi nessa época. Então, a gente começou a transmitir com esse PCM F1, que é um sinal que codificava o áudio digitalmente num canal de vídeo.

 

 


Carnaval 2009. Foto: Divulgação / Riotur

 

“Colocávamos bateria, e voz no canal digital e a harmonia no canal analógico de um transmissor. Esse transmissor ficava dentro do carro de som que transmitia para uma antena que ficava lá na unidade móvel. Recebiamos o sinal e decodificávamos. Então conseguimos fazer uma transmissão remota. Mesmo assim, tínhamos o cabo ainda como segurança, porque ele era usado pela sonorização da Avenida e o sistema de transmissão PCM servia para para TV como base. Mas a gente tinha sempre um backup caso houvesse algum problema de RF como o transmissor.

 

“Mais tarde, evoluimos para um sistema de Link Studio, transmissor, que era muito usado para a televisão, que normalmente era em um lugar bem distante. No Rio de Janeiro, por exemplo, você tem o transmissor lá em cima do morro do Sumaré. Então, essa conexão antigamente era feita via RF. O que fizemos? Alugamos quatro desses transmissores, abrimos para eles passarem com mais banda de áudio e, em cada transmissor desse conseguimos colocar quatro canais de transmissão. Então, havia 16 canais vindo da Avenida para o Sumaré. Tinhamos bateria, percussão e harmonia separados. Nessa época a gente já tinha mais canais de bateria andando, porque com a recepção sem fio no caminhão dava mais possibilidades de captar essa bateria. Então, se não me engano, eram 10 canais de bateria, mais dois de voz, mixado e dois de harmonia. Andamos com isso um certo tempo, só que isso exigia uma certa operação em cima do caminhão Tinha que ficar apontando a antena do caminhão lá para o morro. A gente tinha a recepção e de lá desciamos o sinal já dividido para a gente.

 

“Nesse ponto já estava a Gabisom na sonorização da Avenida. Isso já a partir de 2001, e tinha uma mesa para controlar todo o sistema de delay. Na época do início era uma barra pregos com as entradas do dilema e o cara plugava um jacaré em cada prego para ficar mudando o delay. Quando entrou a Instalsom, já melhorou um pouco. Depois, quando entrou a Gabisom, eles já colocaram um sistema todo dedicado a isso. Tem uma mesa de saída que controla os delays. Antes da Gabisom, nós (da Globo) desenvolvemos também, junto com a Transasom, uma forma de  controlar os delays através do GPS, no qual tinha um GPS dentro de cada carro que mandava a posição dele na Avenida para a central técnica da sonorização, e a gente pegava o sinal também para a gente acertar os delays e acertar os nossos microfones de acordo com o ponto de captação. Então conseguiamos casar os ambientes todos com a escola através da posição do delay. O carro ia andando, notificando a posição e ia acertando os delays das caixas para dar o mesmo tempo de acordo com a posição do carro.

 

“Tinha delay para frente e delay para trás, o carro ia andando e as caixas iam acertando. Isso a gente começou a implementar com o GPS. Quando a Gabisom assumiu a sonorização, pegou também essa coisa do GPS. Como backup, tínhamos a contagem de quilômetros do carro e o segundo backup era um cara na cabine dizendo em qual torre o carro estava. Se falhasse todo o sistema, ele falava: “Eu tô na torre”. O cara já preparava o delay da torre 3 e assim por diante. Com o passar do tempo, isso começou a ser mais automatizado. O software foi incrementando. Sempre a Globo teve uma parceria muito boa com a Gabisom com relação à captação. Começamos a dividir a captação com eles, depois ele começou a assumir , mas a coordenação sempre foi nossa. Sempre tinha alguém da Globo coordenando as equipes de captação.

 

 


Unidos da Tijuca no Carnaval 2010. Foto: divulgação / Acervo LIESA.

 

 

“Depois de um tempo, a Gabisom resolveu investir em fibra. Então ela começou a ter um multicabo como backup, mas a fibra também. Aí abandonamos toda a parte de RF, porque a fibra era muito mais confiável e a gente acabou ficando dividindo essa operação da fibra com eles. Ou seja: eles recebiam o sinal via fibra numa mesa onde ele fazia a comutação das fibras e a comutação dos cabos. Também havia comutação de cabo por causa da distância, não tem jeito. Nós pegávamos esse sinal já comutado mandando uma mixagem básica para gente. Ou seja, se por acaso o nosso sistema caísse, a gente tinha esse sinal. E o terceiro backup era sempre um microfone apontado para uma caixa qualquer na avenida. A gente tinha esse esse esse terceiro backup aí só para não ficar sem nada mesmo(caso houvesse algum problema). A próxima evolução foi a gente ter nossa própria unidade móvel. Houve um ano em que houve problemas com a unidade móvel que a gente contratou. Então partimos para a nossa própria unidade móvel de áudio. Isso em 2010.

 

“Logo depois dos anos de 2016 e 17, a Gabisom começou a trabalhar com um RF que foi um ganho muito grande. Eles começaram a colocar os receptores digitais. Aí já tinha os sinais todos digitais, a Gabisom fez um investimento muito alto nisso. Para nós ficou muito bom, porque a qualidade do áudio melhorou bastante. Aumentamos o número de microfones na Avenida. Tihamos 16 na bateria, mais oito puxadores, mais quatro de harmonia, então tinha bastante canal vindo”.

 

 

Experiências

 

“Em 2017, a gente fez a primeira experiência de transmissão em Dolby Digital que foi só uma coisa interna, mas nós fizemos também a primeira mixagem remota do carnaval. Nossa Unidade Móvel estava na avenida ainda, então a gente pegou o sinal da UM, entrou via um conversor Dante numa fibra corporativa, que levava tudo da Avenida para o Projac (complexo de estúdios da TV Globo em Jacarepaguá,no Rio de Janeiro). Entramos com o sinal já convertido para Dante numa sala de mixagem dentro do Projac, que já tinha toda a infraestrutura pronta para 5.1. A gente fez uma pequena conversão para ter Dolby Atmos na sala e fizemos o primeiro teste de mixagem remota em Dolby Atmos da Avenida até o Projac. Ou seja, mais ou menos 40 km de fibra. Recebemos 40 canais e mixamos. Fizemos um teste de devolução também para ver latência. Quando a gente fazia esse negócio, vimos que dava menos de um frame.

 


Mocidade Independente de Padre Miguel no Carnaval 2017. Foto: Divulgação / Riotur.

 

“Poderia ter colocado esse sinal no ar tranquilo. Mas como era uma experiência, a gente não queria ter compromisso nenhum com o que tava no ar, porque queriamos experimentar mexer, testar, tirar de um lugar, botar no outro, usar, testar todas as as opções que o Dolby Atmos dava para gente. Então fizemos uma experiência muito interessante colocando como se a pessoa estivesse dentro da bateria. Você tinha a bateria toda em volta, mixada em 5.1, mais os dois canais de cima, onde você tinha um puxador em cada caixa, como se ele tivesse mesmo dentro ali do clima da bateria. E nos canais superiores, colocamos os comentaristas, como se fosse alguém falando com você do outro ponto”.

 

 

Captação do público

 

“Ao longo desse período, para a transmissão, tinhamos um negócio que era complicado: captar o público. O público não canta, porque a maioria são turistas que vêm de fora, então, eles não sabem samba. O único lugar que canta o samba é o setor 1, que é o setor liberado para para para as escolas. E é muito complicado, porque quando a bateria começa a se afastar muito do setor 1, o delay começa a ficar muito grande. Então, o que começamos a fazer? A gente comprava… sei lá… 100 150 ingressos ali no setor 4, que é bem em frente à bateria, e distribuía esses ingressos nas comunidades com a condição do cara ir lá para cantar. Então, colocavamos os microfones em volta daquela turminha que tava lá, e tinha ônibus que levava, tinha lanche, tinha tudo, e tinha os ingressos para assistir todas as escolas.

 

“Quando a gente puxava o ambiente e o público cantando, abriamos esses microfones e tinha lá um público. Mas passava a escola da pessoa e a pessoa ia embora. Quando tava a última escola tinha uns gatos pingados que a gente não conseguia nem ver. Era até coerente com a dinâmica do público do desfile, mas ficava chato, porque às vezes a escola tava levantando arquibancada em termos de turista, mas você tinha muito pouca resposta.Então aconteceu uma virada. Perguntei ao técnico de som que fazia a gravação do CD do carnaval, o Mario Jorge, como estavam gravando o público. Eles estavam levando o pessoal da escola pra gravar lá no estúdio. O que fizemos? Pegamos só o áudio do povo cantando. A gente pegava o sinal depois, e um produtor amigo nosso, Jorge Fonseca, que era também DJ, usava o Ableton Live para sincronizar esse áudio. Então, quando a gente precisava do povo cantando na avenida, colocava o áudio gravado totalmente sincronizado. Não influenciava em nada a Avenida, era só pra transmissão. Não sei se ainda acontece, porque já estou afastado há algum tempo”.

 

 

Para o espectador de TV

 

“Eu acho que do outro lado, que é o lado do do público, também evoluiram as televisões.  Elas foram para formato digital, melhorou a qualidade de som, melhorou a qualidade de perrcepção. Apesar de terem diminuído as caixas acústicas as TVs, se consegue manter um som bom nelas. Acho que o Dolby Atmos trouxe um ganho grande para quem gosta. É claro que o não é para todo mundo. Nem todos mundo tem possibilidade de colocar isso em casa, de ter um soundbar.

 


Desfile da Vila Isabel no Carnaval 2026. Foto: Divulgação / Riotur.

 

“Uma coisa que me incomoda até hoje no carnaval são os narradores, que não param de falar. Podia ouvir mais o samba. Fica numa fronteira entre espetáculo musical e um audiovisual mais voltado para o visual e o jornalístico, uma fronteira muito específica do evento carnaval”.

 

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