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COLUNISTAS

Estúdio: a menina dos olhos (da cara / parte 3)

14/09/2021 - 09:50h
Atualizado em 14/09/2021 - 11:24h

 

Aprendendo com os mais velhos

 

Na última edição dessa coluna falamos dos nossos anseios em ter nosso próprio estúdio e as desilusões que esse sonho acaba trazendo a tiracolo.  Lembrando que o primeiro choque de realidade vem do custo para montar esse espaço, desembocando na dificuldade de conseguir clientes. Mesmo assim, estamos lá, sofredores, apaixonados por esse espaço mágico onde poderemos transformar música em fonograma e participar de alguma maneira dessa fatia do entretenimento que chamamos de Industria Fonográfica.

 

 

Mas chega de balde de água fria, “a mão que bate também é a mão que afaga” e por isso vou contar uma história muito marcante da minha vida. Comecei dar aula muito jovem na Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, e uma das primeiras disciplinas foi a de história da música. A parte mais estranha de começar tão jovem é que por vezes você encara uns “tiozões” entre o alunado e a desconfiança é mútua sempre.  Então estava eu lá com meus vinte e cinco anos de idade, já mestre, falando sobre a música da idade média, coisa que era mais interessante para mim que para eles.  Eis que um rapaz meio grisalho levantava e saia para atender o telefone quase todas as aulas. Depois da quarta ou quinta aula com isso acontecendo, o pessoal da turma já começava a rir e logo alguém soltava: “Dinheeeeeiro!!!”  Não entendi nada, mas no intervalo perguntei para um aluno qual era a piada e ele falou que o “cara” era guitarrista de estúdio.  Então um dia fui perguntar para ele qual era o “lance”, e o que ele me falou explodiu minha mente!  Ele disse que depois de anos acompanhando e gravando artistas do gospel ele decidiu fazer o curso de música, mas que o trabalho não parava e então ele como tinha muitas guitarras, muitos amplificadores e pedais, se especializou em gravar a distância. Por isso, quando o telefone tocava era trabalho chegando. Isso era 2003! Ele disse tudo era contratado por e-mail e que recebia uma versão em baixa resolução do playback e o briefing do que deveria ser gravado e por fim mandava a versão final pelo correio. (parece piada né?). Não imaginava, até ali, a possibilidade alguém ter um estúdio só de gravação de guitarra.

 

 

Comece com o que já tem

 

Em 2007, já professor no curso de Produção Fonográfica da Unoeste, um aluno pianista de Jazz falava do sonho de ter seu próprio piano. Mas não era qualquer piano, ele queria um bom piano de pelo menos meia cauda, que poderia ser um Yamaha ou quem sabe ainda um Steinway. Pensei: mas qual será a o problema de se comprar um piano? Perguntei por alto quanto custaria o instrumento e fiquei chocado quando ele disse: “Estou me preparando para comprar algo entre 60 a 80 mil reais!” Isso com o dólar perto de 2 reais era uma imensidão de dinheiro. Mas o meu choque foi quando ele disse: “Isso é o preço do piano, fora que vou ter que reformar uma sala inteira para ele poder entrar, erguer o pé direito, vai passar de 100 mil tudo”. Eu achei a maior loucura alguém gastar o valor de um apartamento para ter o próprio piano e ainda não adiantava só o piano, teria que preparar a sala! (como se estúdio não fosse loucura!). Passado um tempo fiquei sabendo que ele viu que era a única pessoa a ter um piano daquele na região e com uma sala acusticamente tratada, e o resto vocês já podem imaginar. Montou um estúdio de gravação de piano e de quebra ele era o próprio pianista. Certamente está fazendo esse serviço até hoje.

 

 

Nós trabalhamos com música

 

Todas essas alegorias reais são para mostrar que, antes de mais nada, trabalhamos com música. Se você chegou nesse sonho de ter seu próprio estúdio certamente foi porque toca algo ou quem sabe canta. Olha para aquele monte de pedais que você comprou, aquele amplificador, aquela bateria. Pense com carinho na possibilidade inicial de vender o seu trabalho como músico e faça a primeira ala do seu estúdio para o seu instrumento. Eu mesmo sou flautista e violonista, nem que um raio me parta vou montar um estúdio para gravar bateria porque provavelmente nem escolher uma bateria direito eu saberia escolher. Por outro lado, tenho uma coleção de instrumentos raros acumulados ao longo da vida que estão sempre à disposição das gravações de outras pessoas. Então porque não eu fazer isso de dentro da minha casa com as coisas que faço de melhor? Pense nisso!  Se você tem algo que pouca gente tem, certamente vai poder colocar isso como serviço principal do seu estúdio. Na próxima coluna vamos falar dos estúdios icônicos que deram certo porque colocaram a música em primeiro plano! Até a próxima.

 

 

Fotos: Mario Luengo / Wavebreakmedia Micro /Freepik / Divulgação

 

 

Estúdio: a menina dos olhos (da cara / parte 3)
José Carlos Pires

COMENTÁRIOS

Só li verdades! Parabéns pela matéria Farat

- Guile

Ótimo texto Zé parabéns !!!!! Aguardando os próximos!!!

- Marco Aurélio

Adoro ver e rever as lives do Sá! Redescobri várias músicas da dupla valorizadas pela execução nas "Lives do Sá". Espero que esse trabalho volte de vez em quando. O Sá, juntamente com o Guilherme Arantes e o Tom Zé, está entre os melhores contadores de casos da MPB. Um livro com a história da dupla/trio escrito por ele seria muito interessante!

- Bruno Sander

Ontem foi um desses dias em que a intuição está atenta. Saí a caminhar pela Savassi sabendo que iria entrar naquela loja de discos onde sempre acho algo precioso em vinil. Já na loja, fui logo aos brasileiros e lá estavam o Nunca e o Pirão de Peixe em ótimo estado de conservação, o que é raríssimo. Comprei ambos. O 2º eu já tinha, meio chumbado. O Nunca eu conhecia de CD, e tem algumas das músicas que mais gosto da dupla, p. ex. Nuvens d'Água (acho perfeita), Coisa A-Toa (alusão à ditadura?), e outras. Me disseram que o F. Venturini é fã do Procol Harum, e realmente alguns solos de órgão dele fazem lembrar a banda inglesa.

- João Henrique Jr.

Que maravilha de matéria. Me transportei aos anos de ouro da música brasileira

- Sidney Ribeiro

Trabalho lindão. Parabéns à todos os envolvidos!

- Anderson Farias de Melo

O que dizer do melhor disco da música nacional(minha opinião). Tive o prazer em ver eles como dupla e a volta como trio em um shopping da zona leste de sampa. Lançamento do disco outra vez na estrada. Espero poder voltar a vê-los novamente, já que o Sa hoje mora fora do Brasil. E essa Pandemia, que isolou muito as pessoas. Obrigado por vocês existirem como músicos, poetas e instrumentistas. Vocês são F..., Obrigado, abracos

- Luiz antonio Rocha

Que maravilha Querido Paulinho Paulo Farat!! Obrigado por dividir conosco momentos tão lindos , pela maravilha de pessoa e imenso talento que Vc sempre teve, tem e terá, sempre estará no lugar certo e na hora certa ! Emocionante! Tive a honra de trabalhar muitas vezes com Vc, em especial na época do Zonazul , obrigado por tudo, parabéns pela brilhante carreira e que Deus Abençõe sempre . Bjbj

- Michel Freidenson

Mais uma vez um texto sensacional sobre a história da música e dos músicos brasileiros. Parabéns primo e obrigado por manter viva a memória dessas pessoas tão especiais para nós E vai gravar o vídeo desta semana! Kkkk

- Carlos Ronconi

Grande Farat!!! Bacana demais a coluna! Cheio de boas memorias pra compartilha!!!

- Luciana Lee

Valeu Paulo Farat por registrar nosso trabalho com tanto carinho e emoção sincera. Foram momentos profissionais muito importantes para todos nós. Inesquecíveis ! A todos os membros de nossa equipe,( e que equipe! ) Nosso Carinho e Saudades ! ???? ???????????????????? Guilherme Emmer Dias Gomes Mazinho Ventura Heitor TP Pereira Paulo Braga Renato Franco Walter Rocche Hamilton Griecco Micca Luiz Tornaghi Carlão Renato Costa Selma Silva Marilene Gondim Cláudia Zettel (in memoriam) Cristina Ferreira Neuza Souza

- Alberto Traiger

Depois de um ano de empresa 3M pude fazer o bendito carnê e comprei uma vitrolinha (em 12X) e na mesma hora levei Pirão, Quatro (Que era o novo), Es´pelho Cristalino e Vivo do Alceu, fiquei um ano ouvindo e pirando sem parar, depois vi o show do Quatro em Campinas. Considero o mais equilibrado de todos, sendo que sempre pendendo pro rural e nem tanto pro urbano, um disco atemporal podendo ser ouvido em qualquer situação, pois levanta o astral mesmo. No momento, Chuva no campo é ''a favorita'', mas depois passa e vem outra, igualzinho à aquela banda de Liverpool, manja????

- Ademilson Carlos de Sá

B R A V O!!! Paulo Farat não esqueça: “Afina isso aí moleque!” Hahahaha Tremendo profissional, sou teu fã, Grande abraço!

- Dudu Portes

Show é sensacional. Mas a s sensação intimista de parecer que a live é um show particular, dentro da sua casa, do seu quarto, é impagável. Parabéns família, incluindo Guarabyra e Tommy...

- Ricardo Amatucci

Paulo Farat vai esta nas lives do Papo Na Web a partir de amanha apresentando "Os Albuns Que Marcaram As Nossas Vidas"" Não percam, www.facebook.com/depaponaweb todas as terças-feiras as 20:00 horas

- Carlos Ronconi

Caro Luiz Carlos Sá, as canções que vocês fazem são maravilhosas, sinto a energia de cada uma. Tornei-me um admirador do trabalho de vocês no final dos anos 1970 com o LP Quatro e a partir de então saí procurando os discos de vocês, paguei um preço extorsivo pelo vendedor, os LP's "Casaco Marrom" do Guarabyra e "Passado, Presente e Futuro" (primeiro do Trio), mas valeu. tenho todos em LP's e CD's até o Antenas, depois desse só em CD's e o DVD "Outra Vez Na Estrada" exceto o mais recente "Cinamomo" mas em breve estarei com ele para curtir. A última vez que vi um show da dupla (nunca vi o trio em palco), foi no Recife no dia 16/04/2016 na Caixa Cultural, vi as duas apresentações. Levei dois bolos de rolo pra vocês, mas o Guarabyra não estava. Quero registrar que tenho até o LP "Vamos Por Aí", todos autografados, que foi num show feito no Teatro do Parque, as apresentações seriam nos 14,15 e 16/10/1992 mas o Guarabyra perdeu o voo e só foram dois dias, no dia do seu aniversário e outro no dia 16. Inesquecível. Agora estou lendo essas crônicas maravilhosas. Grande abraço forte e fraterno e muita saúde e sucesso pra vocês, sempre. P.S. O meu perfil no Facebook é Xavier de Brito e estou lá como Super Fã.

- Edison Xavier de Brito

Me lembro de ter lido algumas destas crônicas dos discos quando voce as publicou no Facebook em 2013, Sá. Muito emocionante reler e me emocionar de novo. Voces foram trilha sonora importantíssima dos últimos anos da minha vida. Sou de 1986, portanto de uma geração mais nova que escuta voces. Gratidão e vida longa a voces!

- Luiz Fernando Lopes

Salve!!! Que maravilha conhecer essas histórias de discos que fazem parte da minha vida. Parabéns `à Backstage e ao Sá! E, claro, esperando a crônica do Pirão. Esse disco me acompanha há mais de quarenta anos! Minhas filhas escutaram desde bebês e minha neta, que vai nascer agora em setembro, vai aprender a cantar todas as músicas!

- Maurício Cruz

com esse time de referências musicais (exatamente as minhas) mais o seu talento, não tem como não fazer música boa!!!! parabéns!!! com uma abraço de um fã que ouve seus discos desde essa época!

- nico figueiredo

Boa noite amigo, gostei muito das suas explicações, pois trabalho com mix gosto muito mesmo e assistindo você falando disso tudo gostei muito um abraço.

- Rubens Miranda Rodrigues

Obrigado Sá, obrigado Backstage, adoro essas histórias, muito bom, gostaria de ouvir histórias sobre as letras tbém, abç.

- Robson Marcelo ( Robinho de Guariba SP )

Esperando ansioso o Pirão de Peixe e o 4. Meu primeiro S&G

- Jeferson

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