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SUMÁRIO / Matéria de capa

Iluminação cênica no carnaval 2026: passos decisivos

12/04/2026 - 18:31h
Atualizado em 12/04/2026 - 20:19h


Foto: Divulgação / Riotur

 

A consolidação da iluminação cênica na Sapucaí

 

“A implementação da iluminação cênica na Marquês de Sapucaí foi um processo longo. Eu já vinha conversando sobre isso desde 2022, quando finalmente conseguimos dar um passo mais efetivo. Tivemos apoio importante da então presidente da Riotur, Dani Maia, e do prefeito Eduardo Paes, que já havia assumido o compromisso de modernizar o sistema de luz da avenida. Em 2022 conseguimos fazer apenas uma implementação parcial. O orçamento era limitado e ainda enfrentávamos reflexos da pandemia, com atraso na chegada de equipamentos importados. Usamos equipamentos da LPL para viabilizar aquela primeira etapa. O projeto completo mesmo só entrou em operação em 2023. Não era exatamente o sistema dos meus sonhos, mas foi o possível dentro da realidade orçamentária. Já representava um investimento alto e, principalmente, uma mudança de paradigma”.

 

 

A reação das escolas

 

“Em 2022 a gente fez o que dava para fazer. Em 2023 finalmente implantamos o projeto de forma mais estruturada. De lá para cá, o desenho técnico permanece basicamente o mesmo. O que mudou foi o uso.

 


Mangueira no Carnaval 2022. Foto: Divulgação / Riotur

 

“Em 2022 praticamente ninguém utilizou o recurso de verdade. Foi tudo muito discreto: uma dimerização aqui, uma mudança de cor ali, nada muito elaborado. O único que realmente explorou os moving lights durante o desfile foi Leonardo Vieira, que estava na Mangueira. Ele colocou moving lights no meio das fantasias e das alegorias. Quando implantamos o sistema mesmo em 2023, as comissões de frente começaram a ousar um pouco mais. Esses caras de comissão de frente são ligados ao teatro e do balé. Na hora que eles sentiram a possibilidade de ter o recurso da iluminação cênica, eles agarraram isso, mas todo mundo com muita cautela. Na época ainda havia um preconceito, gente falando que não deveria ter esse negócio de iluminação, que tinha que ser luz branca para mostrar as fantasias, as cores do jeito que elas tinham que ser. Ascomissões de frente que que seguraram mais o uso da iluminação cênica.

 


Beija-flor no Carnaval 2022. Foto: Divulgação / Riotur

 

“A Beija-Flor de Nilópolis deu uma ousada: deu uma uma piscada num momento da bateria na avenida inteira. A comissão de frente deles veio bem iluminada, então dava para eles iluminarem o carro da comissão de frente. Ele veio super bem iluminado. A  jogadinha deles da Comissão de frente ficou super legal.

 

“Quando chegou no Desfile das Campeãs, que não tem competição, não tá valendo pontos, os caras chegavam e eu falava: "Aproveita hoje que é que não não perde ponto e faz o teu lance.  Aí os caras fizeram. O Milton Cunha fez um comentário num plano de drone numa hora que que tinha uma escola na Avenida que tava com todos os carros bem iluminados e tinha uma base azul. O drone veio vindo e ele falou: ‘Nunca imaginei ver a Sapucaí assim'. Aquilo repercutiu muito, tanto no meio do carnaval quanto entre os profissionais de iluminação”.

 

 

Evolução criativa e profissionalização

 

“No carnaval de 2024 os caras já vieram muito mais ousados. Começaram a iluminar melhor os carros, a fazer jogadas integradas com a bateria, a pensar a luz como parte do espetáculo. Mas o auge mesmo veio em 2025, quando passaram a contratar iluminadores mais especializados, gente do show business, para trabalhar diretamente no desfile. E isso tem uma explicação. O artista do carnaval é, por natureza, extremamente criativo. Eu vivo o carnaval desde 2003 e posso afirmar: o que não falta dentro de um barracão é criatividade. Do carnavalesco ao soldador que monta a base da alegoria, da pessoa que cola a lantejoula àquela que pinta o acabamento de uma peça de isopor, todo mundo está o tempo inteiro inventando soluções.

 

“Existe sempre uma luta com orçamento, com prazo, com limitação técnica. E, mesmo assim, as soluções aparecem. Tenho um sócio, que costuma dizer: se você começar a criar pensando nas dificuldades, já está limitando sua própria ideia. Primeiro pensa o que você quer fazer. Depois você descobre como viabilizar. Se houver uma maneira possível, ela será encontrada. No barracão é exatamente isso que acontece. As pessoas vão ajustando, adaptando, otimizando tempo e material. A escola de samba é criativa em todos os níveis. Então, quando você entrega mais um recurso expressivo — como a iluminação cênica — é difícil conter. Eles abraçam a ferramenta e expandem as possibilidades.

 


Paraíso do Tuiutí no Carnaval 2026. Foto: Divulgação / Riotur

 

“Em 2026 demos mais um passo: cada escola passou a ter duas noites de programação, não apenas uma. Isso fez muita diferença. O tempo maior permitiu refinamento, ajustes, experimentação. A Série Ouro também passou a ser programada. Claro que ali orientamos para algo mais simples. Mesmo assim, eles utilizam muito bem o espaço de programação e conseguem resultados expressivos”.

 

 

A iluminação, a Avenida e a TV

 

“Eu sou diretor de fotografia da transmissão da TV Globo, então preciso olhar para dois públicos: os cerca de 60 mil presentes na avenida e algo em torno de 20 milhões de telespectadores. Às vezes, o que funciona bem ao vivo não funciona para a câmera. Cores muito saturadas em baixa intensidade podem ficar bonitas para o jurado, mas a câmera não registra da mesma forma. O olho humano compensa muito mais do que o sensor. O problema é o sistema de luz branca, concebido há cerca de dez anos. A curva de dimerização não é suave: ele salta rapidamente de zero para intensidade alta. Isso dificulta transições delicadas e interfere na operação de vídeo. Em algumas situações, transições muito bruscas entre luz cênica e luz branca criaram dificuldades para a televisão. Por isso defendo maior integração entre a equipe de iluminação das escolas e a direção de TV. Se eu tiver acesso prévio às plantas e às intenções fotográficas, consigo me preparar melhor. O sistema ainda tem limitações. A maioria dos moving lights instalados é do tipo beam. Para fazer cobertura mais aberta precisamos usar frost ou prisma, o que exige grande quantidade de aparelhos. Não é a solução mais eficiente. Para 2027, a ideia é incorporar spots com recorte, zoom e gobos. Isso dará mais precisão, reduzirá a quantidade de equipamentos por cena e permitirá ajustes mais refinados.

 


Cesio Lima e Rosa Magalhães no Carnaval 2023 (Foto: Reprodução Redes Sociais)

 

“Aí entra o papel do presidente da RioLuz, Rafael Thompson. Ele é um gestor antenado e esteve pessoalmente na avenida no ano passado e novamente este ano para entender o funcionamento do sistema. Compreendeu perfeitamente as nossas necessidades. Hoje temos um desenho bonito, a luz está funcionando bem, mas o sistema é limitado. Falando tecnicamente, a maior restrição está no fato de que meus moving lights são predominantemente beams. Para criar uma cobertura mais aberta, um “geral” de avenida, preciso recorrer a frost ou prisma e utilizar muitos aparelhos. Isso aumenta a complexidade e o tempo de programação.

 

“A solução é acrescentar spots com recursos mais completos — recorte, zoom, gobos rotativos — que permitam maior precisão. Se uma escola traz, por exemplo, uma comissão de frente com fogo ou água como elemento cênico, conseguimos simular essas atmosferas com gobos e recortes adequados. Isso amplia a linguagem visual e melhora a leitura estética tanto ao vivo quanto na televisão. Além da qualidade estética, há ganho operacional. Hoje, para fazer um geral equilibrado, precisamos afinar cerca de 18 refletores. Com spots bem posicionados, esse número pode cair para oito. O spot permite abrir o zoom, ajustar o recorte e iluminar com precisão o balé da comissão de frente de forma muito mais eficiente.

 

“Não se trata de substituir o sistema atual, que já tem um desenho muito bonito. A proposta é acrescentar equipamentos nas torres. Meu cenário ideal seria ter dois spots por torre. Mas, se conseguirmos ao menos um por torre e um reforço específico na área dos jurados — especialmente nos setores 3, 6 e 7, que hoje têm cabines dos dois lados — já teremos um avanço técnico significativo. Esse entendimento institucional por parte do Rafael foi fundamental para que essa evolução começasse a ser estruturada.

 


Unidos de Vila Isabel no Carnaval 2026. Foto: Divulgação / Riotur

 

“Para você ter uma ideia do comprometimento do presidente da RioLuz, Rafael Thompson, nós tivemos um problema sério de energia durante o primeiro desfile do Grupo Especial, no domingo. Caiu a alimentação dos nodes do setor 6 porque desligaram um disjuntor da rede que atendia aquele trecho. Era o momento mais crítico possível. Estávamos no intervalo técnico e precisávamos restabelecer o sistema rapidamente. A equipe da concessionária Smart Luz, junto com o pessoal da LPL, correu para identificar o ponto da falha, mas o disjuntor estava instalado em um local de difícil acesso. O no-break começou a drenar e o tempo estava contra nós. O que me marcou foi que o Rafael não ficou dando ordens à distância. Ele foi para a operação junto com a equipe. Participou da busca pela solução. Esse tipo de postura faz diferença em um evento dessa escala.

 

“A experiência do pessoal da LPL, que vem do show business, também foi decisiva. Um dos técnicos subiu na torre, improvisou uma extensão provisória para alimentar o sistema e manter os nodes ativos enquanto localizávamos o disjuntor correto. Isso nos deu fôlego para resolver a questão com segurança. Foi uma solução rápida, técnica e eficiente. Esse episódio mostra o estágio em que estamos”.

 

 

Iluminação como quesito

 

“Fizemos, em 2022, o que era possível com o orçamento disponível. Implantamos um sistema funcional e esteticamente interessante, mas com limitações. Agora é o momento de dar um segundo passo. Vamos sentar com a Liesa para discutir como viabilizar essa renovação. Se conseguirmos avançar tecnicamente, isso pode abrir caminho, no futuro, para que a iluminação se torne quesito de julgamento.. Eu acho que precisamos primeiro consolidar o parque de equipamentos e amadurecer o entendimento coletivo sobre fotografia e televisão dentro do carnaval. Quando tivermos um sistema mais adequado e dois anos de experiência consolidada nesse novo patamar, aí sim poderemos discutir transformar a iluminação em quesito. Hoje, estamos no meio do processo de transformação. O caminho está aberto, mas ainda estamos construindo essa linguagem. Eu ainda acho que não é a hora. Não será em 2027. Primeiro precisamos consolidar os novos equipamentos, ampliar os recursos reais do sistema e amadurecer a compreensão da importância da fotografia, especialmente para a televisão. Enquanto temos cerca de 60 mil pessoas na avenida — além dos jurados —, há aproximadamente 20 milhões assistindo de casa. E eu sou um profissional de televisão.

 

“Não adianta defender uma solução estética que inviabiliza a operação de vídeo. Quando uma escola utiliza, por exemplo, Congo Blue muito fechado combinado com fontes a 3.200 Kelvin na comissão de frente, a câmera sofre. O operador abre o diafragma no limite e, quando a luz branca retorna sem uma curva de dimerização suave, ocorre um estouro na imagem. A transição abrupta dificulta o controle de exposição e compromete a leitura televisiva. Com os recursos adicionais que estamos propondo — especialmente a inclusão de spots com maior controle óptico e melhor capacidade de transição —, conseguimos equilibrar melhor o espetáculo ao vivo e a transmissão. Se a RioLuz avançar nesse investimento, acredito que teremos um salto real de qualidade técnica e estética”.

 


 

Ficha Técnica – Iluminação Carnaval 2026

Direção de Iluminação
Sérgio Lima
Marian Pitta

Programação e Afinação
Cleiton Prado
Serginho Almeida
Alexandre Lucena
Ana Luzia de Simone
Duda Munhoz

Equipe LPL
Luís Fernando “Xuxu”
Fernando Garrido
James Pinheiro

Smart Luz
Rodrigo Travassos e equipe

 

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