Reportagem: Miguel Sá | Revista Backstage | Fotos: Divulgação / Miguel Sá / Leonardo Costa
Mais de 700 mil pessoas passaram pela Cidade do Rock durante os sete dias do Rock in Rio 2026, realizado nos dias 4, 5, 6, 7, 11, 12, e 13 de setembro. Segundo os números divulgados pela organização, foram 190 shows, mais de 1.300 artistas e 45 apresentações internacionais. A programação reuniu diferentes gêneros musicais, com nomes como Foo Fighters, Avenged Sevenfold, Elton John, Gilberto Gil, Black Eyed Peas, Ivete Sangalo, Demi Lovato, Maroon 5 e Stray Kids, que marcou a estreia do K-pop no festival.
Os shows se espalharam pelos palcos Mundo — o palco principal, dedicado às grandes atrações nacionais e internacionais, Sunset — conhecido pelos encontros musicais e apresentações colaborativas, mas também com grandes shows individuais, New Dance Order —dedicado à música eletrônica, Espaço Favela —voltado à música e aos artistas ligados às favelas brasileiras, Global Village — espaço que destaca diferentes culturas e sonoridades, Supernova —que dá espaço a novos artistas, e Highway Stage — palco menor com apresentações musicais alternativas.
O evento também recebeu artistas de diferentes gerações e cenas musicais, combinando atrações internacionais, música brasileira, rock, pop e música eletrônica. No Palco Sunset, Baiana System, Criolo e Amaro Freitas com Dino D’Santiago trouxeram rap, jazz, MPB e referências afro-lusófonas. Vale destacar também o Global Village, que trouxe ao ambiente do festival atrações ligadas à MPB, música instrumental e bossa nova como Paulinho Moska, Hamilton de Holanda, Wanda Sá, Joyce Moreno, e João Bosco, mas também foi o palco no qual aconteceu a apresentação da banda de trash metal Korzus.
No total, segundo informações divulgadas durante o balanço do festival, trabalharam no evento mais de 30 mil trabalhadores que se dividiram entre lojas, ativações, vendas, e os palcos. A Revista Backstage se concentrou nos palcos Mundo e Sunset.
O Palco Mundo
As conversas para definir as estruturas e iniciar o planejamento da sonorização de 2026 começaram em fevereiro. A etapa envolveu a definição dos sistemas, a infraestrutura necessária e o estudo das condições de montagem. A pré-produção foi especialmente importante diante da mudança cenográfica do palco principal do evento.
A principal mudança técnica do Rock in Rio 2026 aconteceu no Palco Mundo. A cenografia frontal foi substituída por uma estrutura inteiramente coberta por painéis de LED. A adoção de uma parede de LED como elemento central da cenografia provocou alterações importantes na montagem, na distribuição sonora e nos procedimentos necessários para manter a qualidade de áudio em toda a área de público.
Distribuição de sinal e rede
Os sinais de microfones e instrumentos eram divididos no palco por splitters, com saídas independentes para monitor, FOH e gravação ou broadcast. Cada conjunto podia reunir aproximadamente 96 canais. Os sinais analógicos eram encaminhados aos racks de palco das respectivas consoles, onde eram convertidos para o domínio digital e enviados por fibra óptica ou rede até os devidos pontos de operação. Na house mix, o conjunto disponibilizado pelo festival tinha quatro consoles por dia, conforme as necessidades da programação. As mesas Yamaha PM10 Rivage eram as consoles de referência da estrutura. As saídas eram encaminhadas ao processador Newton 16/8.
Desde 2024 acontece o uso dos processadores Newton para gerenciamento e distribuição de sinal, assim como do software R1 da d&b para monitoramento remoto dos amplificadores e das caixas, com informações de modulação, temperatura, tensão e limitação de saída. Em 2026 isto foi mantido, mas houve renovação dos switches de fibra da Netgear. O protocolo de rede usado no palco mundo foi o DANTE. Isso porque as interfaces DS-10, padrão nos rack D-80, da d&b, são nativos desse protocolo.
A partir do Newton era feito o endereçamento para os sistemas. A saída DANTE do Newton alimentava um Switch com portas Gbic de Fibra Ótica que distribuia aos switches em cada destino (PAs/Subs/Delays) via fibras individuais. Em cada destino, os diferentes sistemas de PA, subs, delays e front-fills, a fibra ótica carregando o sinal DANTE era recebido por outro switch DANTE com GBIC de fibra e este sinal DANTE, já convertido em rede, era enviado aos DS-10 contidos em cada rack D-80 nos quais o sinal era convertido novamente em AES e distribuído para os amplificadores daquele rack.
O sinal DANTE trafegava por fibra óptica, necessária para vencer as distâncias superiores a 100 metros. A rede foi estruturada em estrela, com cada destino - as torres com os arrays - conectado ao switch central da FOH por dois pares de fibras: um principal (switch) e outro de reserva (switch master, na FOH). Os switches sobressalentes também contavam com redundância. Assim, a falha de uma fibra ou de um dos switches não interromperia o funcionamento do restante do sistema. “Havia redundância entre a FOH e cada destino, bem como redundância entre os dois switch master na FOH também. Portanto, caso caísse uma fibra, a fibra reserva assumiria. Caso caísse um dos switch master, o outro assumiria. Caso ainda assim, caísse o sinal de uma torre por completo, o resto do sistema ficaria vivo pois cada torre tinha conexão ao master, independente das demais”, detalha Racy.
Sonorização
Em 2024, o Palco Mundo já utilizava o sistema SL da d&b audiotechnik, com três conjuntos de PA de cada lado, subs suspensos e dez torres de delay. A configuração de 2026 manteve a escolha pela família SL, mas passou a lidar com uma condição física diferente: o posicionamento elevado dos sistemas principais para preservar a visibilidade da nova parede de LED. A altura do PA trouxe uma questão importante para a percepção espacial do áudio. De acordo com Peter Racy, esse posicionamento proporcionou uma cobertura mais homogênea, mas trouxe uma perda de proximidade e conexão do som em relação ao que era visto no palco. “Com a adoção do Palco LED, está ficando mais comum termos que montar PAs a 30m de altura. O resultado sonoro não é ruim, mas é diferente”, pondera.
Peter Racy
O sistema deste ano utilizou caixas GSL nos PAs principais e SL-SUBs na configuração de subgraves. No piso, foram instalados dois conjuntos de SL-SUB para reforço de graves, além de uma linha de front-fill com caixas V10P. A cobertura foi complementada por dez torres de delay equipadas com KSL, distribuídas em três linhas, e três pontos remotos adicionais para áreas específicas.Todos os amplificadores utilizados no sistema principal foram d&b D80, com processamento interno. Nas áreas que não recebiam cobertura suficiente do PA ou dos delays, como pontos da tenda VIP e o rooftop de estandes de patrocinadores, foram instalados sistemas adicionais de preenchimento da série SL.
O desempenho geral foi considerado satisfatório pela equipe. Com 28 bandas utilizando o Palco Mundo, o sistema manteve estabilidade e consistência sonora ao longo da programação. Segundo Peter Racy, da Gabisom, o processamento contribuiu para preservar a linearidade mesmo diante de mixagens com características bastante diferentes.
Front-fill: aproximar o som do palco
Em 2024, o front-fill do Palco Mundo utilizava caixas XSL. Em 2026, a configuração passou a usar as V10P, por conta da nova arquitetura cenográfica. Se detendo mais um pouco na análise da configuração do front-fill, e pressupondo que o palco será construído no mesmo formato na próxima edição, Racy propõe uma concepção diferente para essa parte da sonorização na próxima edição. “Ao invés de um set-up tradicional com uma linha de caixas menores do tipo point-source um pouco acima da altura da cabeça, eu optaria por uma linha com caixas bem maiores e montadas o mais alto possível até olimite do ponto em que não interfira na visibilidade. Com o PA naquela altura, a emenda entre a cobertura do front-fill e a cobertura do PA pode acontecer uns 20 a 30m após a barricada (de elementos de front-fill) para que a imagem sonora seja trazida para o palco. É psico-acústicamente desconcertante ver o artista na sua frente, enquanto o som dele origina lá do topo da estrutura. Para evitar isto, foi preciso pesar um pouco a mão no volume dos front-fills, o que seria mais tranquilo com um sistema mais parrudo. No final, ficou bom, mas exigiu um monitoramento constante dos Front-Fills pois estavam trabalhando próximo ao seu limite”, relata.
Outro desafio foi a proximidade entre os PAs suspensos e a parede de LED. Como a Cidade do Rock fica em uma área aberta, sujeita a rajadas de vento, o movimento das estruturas exigiu atenção. Os conjuntos suspensos, com cerca de duas toneladas, chegaram a balançar, embora não tenham atingido os painéis. Racy considera que o método de contenção desse movimento merece ser aperfeiçoado em futuras edições. A passagem dos cabos também precisou ser adaptada. Em vez de descerem diretamente, como em montagens convencionais, os cabos dos PAs precisaram subir até a viga de carga e depois descer atrás da parede de LED. O percurso adicional acrescentou aproximadamente 15 metros a cada cabo em relação ao que era usado na cenografia tradicional: os quatro PAs principais utilizaram cabos de 60 metros, enquanto os sistemas externos precisaram de cabos de 90 metros. O sistema d&b permite informar o comprimento dos cabos durante a calibração, compensando parte dos efeitos dessa distância. Ainda assim, a equipe identificou a necessidade de reduzir esses percursos nas próximas montagens.
Palco Sunset: ampliação da cobertura
O Palco Sunset também passou por mudanças em relação a 2024. Na edição anterior, o sistema principal utilizava caixas d&b GSL. Em 2026, a sonorização passou a utilizar o sistema K1/K2 da L-Acoustics. Éder Moura, engenheiro de aplicações da L-Acoustics para a América Latina, prestou suporte à Gabisom na implantação e no ajuste do sistema. participando do alinhamento e das medições, utilizando os softwares P1 e M1, da L-Acoustics.
A configuração incluiu quatro PAs com subs suspensos, três torres de delay com reforço de subgraves e uma linha de front-fill com 12 pontos de duas caixas Kara cada. Os subs de chão foram organizados em dez blocos cardioides, cada um com quatro KS28. O reforço do uso de elementos de subgraves suspensos nas torres de delay ampliou a capacidade de manter a resposta de graves nas áreas mais afastadas do palco, acompanhando a dimensão da plateia e as exigências de cobertura do espaço. Os amplificadores utilizados foram LA12X, recebendo sinal AVB.
A configuração de operação incluiu duas Yamaha PM10 Rivage para o PA e duas PM7 Rivage para monitor, além de sistemas de in-ear, microfones sem fio, monitores de chão e side-fills.
As exigências específicas dos artistas
Enquanto alguns artistas utilizam o equipamento disponibilizado pela produção, outros chegam com consoles, periféricos, microfones e sistemas de monitor próprios. Em 2024, a Backstage registrou a presença de centrais trazidas por diversas atrações, incluindo Travis Scott, Imagine Dragons, Evanescence, Journey e Shawn Mendes. A adoção dos equipamentos habituais das turnês contribui para preservar procedimentos de trabalho, reduzindo o risco de imprevistos durante as passagens de som geralmente curtas em situação de festival.
Em 2026, no Palco Mundo, A maioria das consoles de FOH utilizadas pelos artistas era das marcas DiGiCo ou Yamaha. Ivete Sangalo e Luísa Sonza estavam entre as atrações nacionais que levaram suas próprias centrais. “O Foo Fighters levou um rack de periféricos analógicos de ‘boutique’, com equipamentos raros e de alto custo. Mas sem console analógica” relembra Peter Racy.
Entre os outros pedidos específicos das atrações, o Black Eyed Peas utilizou microfones próprio sem fio com cápsulas DPA; o grupo de K-Pop HWASA trouxe um sistema de monitor Roland M48; J Balvin solicitou uma estrutura extensa de in-ear Shure; e Lola Young trabalhou com consoles DiGiCo Quantum no PA e no monitor, compartilhando racks por meio de um único loop Optocore. Já o Twenty One Pilots substituiu o side-fill disponibilizado inicialmente por caixas da série V da d&b.
Entre os pedidos customizados do palco Sunset, a equipe do cantor Ne-Yo, solicitou consoles DiGiCo específicas para PA e monitor. A banda Jamiroquai trouxe uma estação com a Midas Heritage HD96.
Um “parque temático” musical
Peter Racy elogiou bastante o desempenho do sistema de sonorização da d&b durante esta edição do Rock in Rio. “Mesmo, já tendo utilizado ele em outras edições do Rock in Rio e outros festivais de grande porte, ainda ficamos impressionados com o seu desempenho. Ele é muito estável sonoramente e eletronicamente. Uma vez que o sistema esteja bem projetado, montado com atenção e corretamente alinhado, ele tem uma ótima performance. A prova está no fato que 28 bandas tocaram ali, e que apesar de terem diferentes sonoridades, todas soaram muito bem. Notamos que até mixagens que estavam um pouco “descabeladas”, não ficaram ruins pois o sistema é bem processado e mantém sua linearidade sob condições desfavoráveis” comenta.
Com um bom trabalho de pré-produção, não foi necessário alterar a solução planejada durante o festival, mas alguns aperfeiçoamentos devem ser feitos para a interação entre o sistema de sonorização e o palco LED para as próximas edições . Entre eles estão a revisão do sistema de contenção dos PAs próximos à parede de LED, algum tipo de favorecimento para a redução do comprimento dos cabos e o aprimoramento dos front-fills para recuperar parte da proximidade sonora perdida com a elevação do PA.
Mesmo trabalhando já há muitos anos na sonorização do Rock in Rio, Peter Racy ainda se impressiona com o tamanho, a evolução e o alto padrão do evento. “Pessoalmente, estive presente em 23 Rock in Rios desde 2001. Incluindo as edições de Lisboa, Madrid e Las Vegas. Posso dizer sem pestanejar, que o Rock in Rio evoluiu estupendamente desde minha primeira participação em 2001. Conhecido como um festival de música, talvêz um dos maiores do continente ou até do mundo, o Rock in Rio vai além de ser um mega-festival, e arrisco dizer, chega a ser um “parque temático de música”. Além de muita música que é o principal atrativo, há uma infinidade de atividades, diversões, experiências, parques, praças e comércios, brindes e lembranças para o público. O design e a montagem de cada local é único e especial. Diferente de um verdadeiro parque temático, todas as instalações do Rock in Rio são provisórias, mas nem por isso são inferiores, pois seguem um padrão altíssimo de design e execução. Ali não há lama. O parque inteiro é pavimentado com contornos de grama sintética. A mega tenda Vip é prova de que ali o tratamento é Vip mesmo. Mesmo para o público normal, a experiência é confortável. Todas as instalações são montadas com padrão muito elevado, oferecendo ao público um local seguro, limpo e divertido para passar o tempo entre as suas bandas favoritas” conclui..