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SUMÁRIO / Matéria de capa

Técnicos de som e luz na rotina do festival

30/10/2026 - 00:16h
Atualizado em 30/10/2026 - 15:21h

 

Quem trouxe seu próprio equipamento? Quais são as peculiaridades da área técnica das atrações do Rock in Rio? Como eles gostam de trabalhar?
Festival é sempre um desafio para os profissionais de áudio. Vários artistas ocupam o mesmo espaço, os horários são apertados e o tempo para passagem de som é limitado. Nesse contexto, cada apresentação tem suas particularidades: há shows preparados especialmente para o evento, turnês que precisam ser adaptadas às condições do festival e também estreias diante de um público numeroso.


A Revista Backstage circulou nas housemix e área de monitor dos Palcos Mundo e Sunset e falou com alguns dos engenheiros de som que trabalharam no Festival. Também trazemos as novidades da iluminação, que este ano teve uma nova empresa fornecendo equipamentos em alguns palcos.
 

 


 

 

BaianaSystem: som alto, participações e sincronismo


O show do BaianaSystem, que já participou da edição anterior do Festival. aconteceu dia 6 de setembro no Palco Sunset. A apresentação reuniu diversos convidados em um show formatado especialmente para o Rock in Rio. A apresentação contou com backing vocals, com a Orquestra Afro Sinfônica, o artista jamaicano Ranking Joe, João Nunu, Alice Carvalho e outras participações.


Visualmente e musicalmente exuberante, a apresentação empolgou o público com a sonoridade marcante do grupo, que transita entre os elementos típicos do caldeirão sonoro da Bahia misturado aos sons universais contemporâneos, o que traz bastante complexidade para uma mixagem que mistura bastante percussão microfonada ao som eletrônico.

 


Victor Vaughan do Baiana System

 


A banda ensaiou no Estúdio Century, no Rio de Janeiro, na véspera da apresentação. Para o engenheiro de som Victor Vaughan, a preparação de um espetáculo como esse envolve tanto o trabalho com os convidados quanto a relação entre som e imagem, com os muitos elementos que fazem parte da identidade audiovisual do grupo. “É um show audiovisual”, explica Vaughan. Os videos e projeções acompanham a música por meio de timecode. O recurso sincroniza os vídeos com as bases musicais, enquanto determinados comandos da console continuam sob controle manual do operador. Ele utiliza snapshots na mesa, mas os dispara manualmente. A iluminação propriamente dita ainda não está integrada ao mesmo sistema de timecode do áudio e vídeo, funcionando de maneira independente.

 

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O engenheiro de som também mantém recursos próprios de processamento para construir a sonoridade característica da banda, atuando quase como mais um músico, já que adiciona e controla alguns elementos sonoros em tempo real. Entre eles estão uma dub siren, um pedal de delay com emulação de fita e reverb de mola, além de plugins utilizados para ajustar o resultado final. No entanto, a busca por musicalidade com elementos de áudio e a busca por pressão sonora precisa conviver com definição, equilíbrio e inteligibilidade. “Eu sou pago para fazer som alto e bom”, afirma. Vaughan também destacou a evolução do sistema do Sunset. “O Éder e o Colado entregaram um sistema incrível”, disse, reconhecendo o trabalho dos profissionais da L Acoustic e da Gabisom..

 

 

Direção visual e participação do público


A dimensão audiovisual do BaianaSystem passa por um trabalho de caráter bastante coletivo, mas sob a direção visual de Filipe Cartaxo, que atua como VJ durante os shows. Seu trabalho abrange as projeções e a comunicação visual da apresentação, concebidas como parte da identidade do grupo e integrada à música.

 


Equipe de vídeo e luz do Baiana System


Cartaxo explica que essa relação entre som e imagem acompanha o BaianaSystem desde sua formação. Para o diretor, o repertório visual se desenvolve junto com a trajetória do coletivo e se adapta aos espaços e às características de cada apresentação. “No Rock in Rio, o Palco Sunset permite ampliar essa dimensão coletiva, com participações e diferentes artistas incorporados ao espetáculo”, explica.


A proposta não se limita a ilustrar as canções. Cartaxo descreve a tela como uma espécie de espelho do que acontece no show e da presença da plateia. “É sempre o público o protagonista também, para além da banda”, afirma.

 


Gilberto Gil: adaptar a turnê ao festival


Leco Possolo, trabalhou durante muitos anos com o cantor operando o P.A., mas na turnê Tempo Rei, foi para o monitor. A estrutura da turnê era mais complexa do que a utilizada na apresentação do Rock in Rio. Na estrada, a produção chegou a reunir 18 pessoas no palco e exigiu uma mixagem de monitor com 115 canais. Para o festival, a formação foi reduzida e o sistema precisou ser adaptado. A redução envolveu principalmente a percussão, que tinha um número elevado de canais na turnê regular. Também houve mudanças na formação e a inclusão de participações especiais, como Liminha, na música Vamos Fugir, e Flor Gil, neta de Gilberto, nos backing vocais.

 


Leco Possolo


A adaptação exigiu refazer o patch digital e acomodar novos canais sem perder a organização das cenas de mixagem. Leco possolo tentou preservar ao máximo as configurações já utilizadas. A console utilizada foi uma DiGiCo Quantum 338. O monitor de Gilberto Gil deve levar em conta a adaptação às condições acústicas e ao tamanho do palco. Quando este permite uma maior proximidade dos instrumentos com Gilberto Gil, pode acontecer de haver menos elementos no fone. Como o palco do Rock in Rio era grande a mixagem nos nin ears foi quase completa.

 

“Normalmente ele gosta da voz bem presente, a guitarra e o violão dele também sempre bem bacana”, conta Possolo, que fica atento durante todo o show para frazer algum ajuste pedido por Gil.

 


Jota Quest: a estreia do show com repertório de Tim Maia


O show Jota Quest Toca Tim Maia estreou no Rock in Rio no dia 6 de setembro com uma produção preparada para revisitar o repertório do cantor. O projeto começou pequeno, mas transformou-se em um álbum de 16 faixas e chegou ao festival após muito ensaio. O engenheiro de P.A. Grilo acompanhou a preparação e a estreia. A equipe realizou três ensaios completos com todos os músicos e profissionais envolvidos. “Tem uma banda que toca junto, a mesma banda, os mesmos cinco caras há 30 anos”, explica Grilo. “Mas, ao mesmo tempo, é um show 100% novo”, pondera.

 


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A produção procurou preservar a identidade das gravações originais de Tim, respeitando a memória afetiva associada às canções. O disco utiliza fonogramas originais autorizados, incluindo trechos de voz de Tim Maia e elementos das orquestrações, combinados com novas gravações. “É uma obra muito icônica. É um prazer mexer nela, mas você não pode mexer demais”, observa Grilo. Essa preocupação também se estendeu ao show. A intenção era manter a proximidade com o álbum e com a obra original, sem deixar de incorporar a identidade do Jota Quest. A apresentação teve ainda imagens de Tim Maia nos telões e cenografia ao longo do espetáculo.



Do ponto de vista técnico, a integração entre áudio, iluminação e vídeo exige bastante. Os músicos trabalham com click e fones, e as estruturas das músicas estão bem definidas, embora ainda exista espaço para alguma improvisação. O aumento do número de canais também exigiu uma adaptação do sistema. A equipe utilizou uma DiGiCo 326, fornecida pela Gabisom, em uma configuração ampliada em relação à mesa menor usada habitualmente pela banda. O engenheiro de monitor trabalhou com a mesma estrutura de produção, facilitando a integração entre as equipes.

 

 


 

Luísa Sonza: do pop à bossa nova sem solavancos


A apresentação de Luísa Sonza no Palco Mundo, dia 7 de setembro, conciliou a pressão sonora e a dinâmica de um show pop com um momento mais introspectivo, dedicado à bossa nova, com a participação de Roberto Menescal. Tanto no P.A. como no monitor foram usados equipamentos da Waves LV1 Live.
 

O engenheiro de P.A., Ricardo Vidal, precisou preparar a mixagem para uma mudança significativa de linguagem musical dentro da mesma apresentação, mas só conseguiu tempo para fazer a passagem de som da parte pop. “Eu vim de um show com uma certa pressão e tive que diminuir o nível de SPL para entrar no clima da bossa nova para depois voltar para o pop”, explica. “A mudança envolve mais do que baixar o volume. A sonoridade precisa acompanhar o repertório e a natureza dos instrumentos, sem comprometer a transição entre os segmentos do show”, detalha.

 


Roberto Vidal e Leco Possolo

 


Vidal também destaca que a posição de um artista na programação não determina, por si só, as condições de trabalho. A relação com o público e o tempo disponível para passagem de som influenciam diretamente a preparação. Em palcos que recebem artistas de diferentes portes, a equipe precisa administrar o tempo e se adaptar à estrutura disponível. A preparação envolveu cerca de 15 dias de ensaios e a montagem de um sistema que permite acomodar as diferentes necessidades da apresentação, com Vidal utilizando uma superfície de controle Allen & Heath dLive C3500 para o sistema de mixagem dLive .

 


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No monitor, Rodrigo Pinheiro trabalhou com uma configuração de 98 canais, acima dos 74 utilizados normalmente no show de Luísa Sonza. Pinheiro não utilizou superfície de controle física, trabalhando com uma central dLive Wing. montada com um MixRack e telas touchscreen, com 16 canais Spectera (sistema sem fio bidirecional da Sennheiser) 5 canais de PSM1000, um Sennheiser 9000 e 4 canais de Axient. O fato de não usar a superfície de controle física facilita o transporte, a montagem e a operação.


A equipe já chegou ao festival com as cenas preparadas, fazendo ajustes pontuais para a apresentação.“Eu estou fazendo cena por cena, então eu tenho 33 cenas”, conta. Cada musicista da banda só com mulheres de Luisa Sonza recebe uma configuração específica nos in-ears, com efeitos e dinâmicas adequados ao repertório. Essa organização ajuda a tornar mais rápida a transição entre os diferentes momentos do show. “Passamos uma correria na passagem de som. Foram 40 minutos, mas já vim bem adiantado e viemos com nosso setup quase pronto”, conclui Rodrigo Pinheiro.

 


PJ Morton e Jamiroquai: soul music e R&B


O pianista e cantor, que também é integrante da banda Maroon 5, tocou, no dia 11 de setembro, em cima do Palco Sunset, um repertório calcado no R&B e Soul,. O que poderia ser apenas um “esquenta” para o Jamiroquai se mostrou um show de alto nível musical, mesclando o repertório próprio do cantor e pianista com sucessos como a versão R&B de How deep is your love, sucesso originalmente na voz dos Bee Gees. O show poderia perfeitamente estar em um festival de jazz.


Reginald Nicholas Jr., engenheiro de P.A., fez a mixagem sem nenhuma cena pré gravada. “Construí essa mixagem do zero”, reforça, se apoiando nos dez anos em que trabalha com Morton tnato ao vivo como em estúdios. Nicholas observa que a mixagem em um ambiente aberto apresenta desafios diferentes daqueles encontrados em teatros e clubes. “Em espaços fechados, as reflexões e a acústica podem interferir mais diretamente no resultado. Em um festival ao ar livre, a questão passa a ser fazer o som chegar ao público com clareza e intensidade adequadas”, afirma.

 


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A escolha dos efeitos também depende dessas condições. Para a apresentação, o engenheiro optou por uma abordagem mais simples, utilizando reverb em momentos específicos, sem manter o efeito durante todo o show. “Em um palco grande, com pouco tempo para ajustes, a decisão de reduzir o processamento pode ajudar a preservar a definição e a adequação da mixagem ao ambiente”, comentou o engenheiro de som.


Depois foi a vez da banda Jamiroquai. Rick Pope, que trabalha com a banda praticamente desde o seu início, trouxe uma estação com a Midas Heritage HD96 com todo o setup de áudio de FOH da banda. O Jamiroquai tocou seus maiores sucessos com um som claro e pressão sonora alta, sem porém chegar a limites que pudessem afetar a audição de forma negativa.
 

 

 


 

 

Iluminação: rede e operação remota no Palco Sunset


Douglas Porkott, profissional da DP Lighting com auxilio de Cleiton Soares da RP Lighting que atua no front of house e acompanha os sistemas de iluminação do Palco Sunset, explica que a operação do festival é organizada em torno de consoles grandMA3. A estrutura precisa atender às produções nacionais e internacionais, incluindo artistas que chegam com consoles próprias ou com diferentes versões do sistema MA.

 


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A distribuição dos sinais de controle é gerenciada por equipamentos Luminex. A rede permite trafegar protocolos como Art-Net e sACN; no caso da equipe de iluminação, o tráfego é dedicado ao controle de luz. Segundo Porkott, o planejamento começa meses antes do festival: a equipe trabalha em conjunto com a WBD, responsável pelo light design, durante cerca de seis meses de reuniões e análise dos riders das bandas.

 


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Uma das mudanças destacadas por Porkott é o uso de canhões seguidores High Power LTX, da Robe, controlados remotamente. Com a operação remota, não é necessário manter operadores suspensos nas torres. A estrutura de tecnologia do Sunset, afirma, é equivalente à do Palco Mundo, embora a quantidade de aparelhos varie de acordo com as dimensões de cada palco.
A integração entre iluminação e a grande parede de LED do Palco Mundo é definida pela WBD, que estuda o posicionamento e a escolha dos aparelhos para combinar os dois elementos. No Sunset, Porkott descreve uma configuração visual na qual há IMAG nas laterais, enquanto o restante do palco é composto por cenografia. “O que manda ali é a luz. É a iluminação que desenha o espaço e dá forma à cena”, resume.

 


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